A falsa sensação de um novo normal

Estamos há duas semanas de quarentena. E isto põe-nos todos à flor da pele. Sobretudo o medo de sabermos que o que aí vem pode ser bem pior.

Ontem chegou-me uma mensagem da peixaria - "o seu peixe vai ser entregue em casa amanhã à tarde" - e fiquei feliz. Pego num pano de óculos que uma das minhas melhores amigas me ofereceu e dá-me um aperto na garganta - há duas semanas que só vejo amigos em ecrãs de telefone. O horticultor a quem compro legumes no mercado do Campo Pequeno liga a dizer que vai haver rabanetes. Fico como se fossem trufas. Daqui, da minha varanda, vejo o Hospital Curry Cabral - e emociono-me a pensar na luta que ali se trava e travará. Em baixo, na rua, passa o carteiro, curvado por causa das encomendas online que lhe pesam o carro, e quase lhe grito para agradecer o que anda a fazer, a trabalhar na rua por todos os que podem ficar em casa.

Estas pequenas grandes comoções neste novo normal mostram o que sentimos todos: estamos com as emoções à flor da pele. E escrevo assim, como humana mais do que como jornalista, ainda menos diretora executiva do DN, para chamar a atenção para este facto simples mas esquecido pela distância: estamos todos nisto.

Todos. Adultos, velhos e crianças. Leitores, jornalistas, administrações, médicos, políticos, polícias. Portugueses, franceses e chineses, até os holandeses - muitos não terão culpa dos dirigentes a que outros os obrigaram, aliás, assim como os americanos, desprotegidos como nunca pelo seu Estado, ofendidos na sua inteligência pelo seu presidente. Todos cometeremos erros, todos pisaremos o incerto.

Sair da bolha talvez seja uma expressão ao lado - na verdade a bolha já explodiu, e os estilhaços vão continuar a voar.

Hoje, mais do que nunca, os jornalistas saem da sua bolha para perceber o que se passa lá fora. Em sentido figurado e real. Ao contrário do que foi dito, há jornalistas na rua, todos os dias. Os das televisões e das rádios (basta ver o exemplo dos nossos camaradas da TSF) que não podem fazer de outra forma. E nem todos os que estão a trabalhar de casa estão fechados nela. Sair da bolha talvez seja uma expressão ao lado - na verdade a bolha já explodiu, e os estilhaços vão continuar a voar.

Os jornalistas não sabem bem - nenhum sabe - que futuro os espera, entre a crise que vai afetar o mercado da publicidade e o que restava de um modelo de negócio que não tinha ainda sido destruído pelo mercado. Mas continuam a trabalhar, a cumprir o papel cívico que os atraiu para esta profissão.

Há várias características "disto" por que estamos a passar que o tornam extraordinário, mesmo à luz da história. É planetário. É um inimigo invisível e, ao contrário das guerras, não nos protegemos dele em bunkers. Não tem a violência física das guerras e atira-nos para um conforto aparente, na segurança das nossas casas - embora saibamos que entre a crise sanitária e a económica o mundo como o conhecemos hoje há de esboroar-se. Acerta-nos no cerne do que julgávamos ser a nossa superioridade sobre as anteriores gerações e épocas - o avanço científico e tecnológico.

Se virmos bem, a questão tecnológica é das mais interessantes de analisar. Por um lado, um vírus atira-nos ao tapete, demonstrado toda a força irredutível da natureza, mas, por outro lado, é a ciência que nos permite ainda encarar as coisas com otimismo e esperança: continuar com o que resta da nossa vida normal (comunicações e afins) e que o combate e o conhecimento do assunto tenham sido rápidos.

Há muitas possibilidades de que o que está a acontecer, se se prolongar, nos deixe a todos separados, fraturados, marcados. É bom lembrarmo-nos disto quando ainda temos um mínimo de sanidade mental.

Sabemos que estamos apenas no início. Sabemos como acabam as guerras mas não sabemos o que vem a seguir a uma pandemia que nos confinou às nossas casas durante um mês (?). Como dizia David Kessler, especialista em sofrimento, "nunca perdemos de forma tão coletiva o sentido da segurança, individualmente já o sentimos, mas todos juntos, isso é novo. Estamos em dor a níveis micro e macro".

Quais serão as consequências disto para a humanidade? Quando a tragédia é grande, as primeiras vítimas são a solidariedade e a empatia. O mais frequente é que o bem comum desapareça para dar lugar a movimentos de individualismo exacerbado - e já assistimos a velhos apedrejados, nesta epidemia, e a ministros a mandar países inteiros àquela parte.

Há muitas possibilidades de que o que está a acontecer, se se prolongar, nos deixe a todos separados, fraturados, marcados. É bom lembrarmo-nos disto quando ainda temos um mínimo de sanidade mental. Porque esta crise e tudo o que vier com ela só os ultrapassaremos todos juntos. Somos demasiado humanos. E, hoje, sabemo-lo melhor do que nunca.

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