O museu das grandes novidades

A questão não é decidir entre o passado ou o futuro, ou o presente ou o futuro, mas quais dos futuros que estão aí a desenhar-se a cada segundo que passa. Futuros que estão a ser pensados em cabeças sozinhas, que pensam que só elas pensam aquilo, ou em cabeças que se decidiram juntar, em empresas, projetos. Ideias, casais, relações, portais, cabeças que já encontraram quem pense com elas. Não é como, é com, porque o como come o futuro, a homogeneidade esteriliza o campo do possível, o conforto do igual amarra as pernas que querem correr à frente do tempo.

Porque só em cada um desses futuros está o bem melhor. O bem melhor do que hoje, o mal menos mau do que agora, alguma luz possível no sofrimento. Sofrimento de cada um, mas sobretudo de todos, porque é apenas da dor inevitável do risco corrido por cada um sozinho que pode haver bem no conjunto dos outros.

E em cada fim de ano, o único voto que devia ser feito é o de continuar a cardar as coisas, podar as relações, curar a vida, com pilhas novas na lanterna que descobre os que pensam e querem como vai ser e que não querem como está; encontrar e guardar os visionários, os revolucionários, os profetas, largar o resto todo. Abominar o aborrecimento conservador, o deserto do moralismo.

E o que resta ao passado e ao presente? Olhar para o passado apenas na medida em que seja rocha do presente, mas não rocha por rocha, rocha para suster cada impulso de ir mais além, mais à frente, chão que empurram os pés que saltam. Para que a nossa vida não seja um museu das grandes novidades, como n"O Tempo Não Para, do Cazuza.

Advogado

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