Marcelo volta ao velho normal na 90.ª Feira do Livro de Lisboa

Os editores estão em grandes dificuldades, portanto Marcelo Rebelo de Sousa fez um discurso emocional e a louvar a realização de mais uma Feira do Livro em tempos perigosos. Se alguém tomou nota das suas palavras, pode publicar um guia de autoajuda para o setor.

Quem esta quinta-feira olhava do cimo do Parque Eduardo VII via o habitual rio de gente na Feira do Livro de Lisboa, mesmo que fosse o primeiro dia - termina a 13 de setembro - e se estivesse nas horas iniciais do evento. Mas, quem dá os primeiros passos e ao aproximar da entrada sente logo a primeira diferença: o segurança só deixa entrar no recinto com as mãos lavadas pelo gel. Anda mais uns passos e confirma que os pavilhões estão mais afastados e que é mais fácil ver os livros expostos. Repara também que anda tudo mascarado e a desviar-se uns dos outros... Para os mais distraídos, demora pouco a verificar que se está em tempo de de pandemia e que, lá por ser a 90ª edição da Feira do Livro de Lisboa, não há liberdade para os gestos desatentos do costume.

O velho normal na Feira do Livro fica apenas, e por mais uma vez, por conta do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Que ontem inaugurou oficialmente a 90ª edição de Lisboa, percorreu todo o recinto durante mais de uma hora como é costume, entre cumprimentos e uma revista atenta aos melhores livros que lhe saltavam à vista ou o informavam que existia nas estantes. E, como é amigo da iniciativa, prescindiu de fazer a sua própria Feira do Livro em Belém este ano, habitualmente em setembro.

A terminar o discurso oficial de inauguração, o Presidente pediu para que "o maior número de pessoas viesse a esta Feira, afinal é a segunda maior de sempre". E para dar o exemplo, foi ele próprio - como é costume passear pelo recinto. A primeira selfie foi com um leitor de Angola, Ângelo, e a partir daí só avisava "Pode tirar mas fique afastado". Aproximar-se, só o possível dos livreiros e dos alfarrabistas, escrevendo numa folha os títulos dos livros que lhe interessavam ou pedindo para os guardar, como foi com uma tese doutoral de Alberto Pena Rodrigues, da Universidade Complutense de Madrid, sobre O Estado Novo de oOiveira Salazar e a Guerra Civil de Espanha. Também piscou o olho ao álbum História Natural de Júlio de Matos, sobre a qual disse "Deve custar uma fortuna".

Com a segurança a vigiar o ziguezague presidencial entre pavilhões, foi visitando e perguntando "O que temos de excecional?", sem perder o pavilhão da Universidade de Lisboa: "Esta é a minha universidade!" À frente encontra-se com a escritora Ana Maria Magalhães e o editor Zeferino Coelho e é o ato de maior proximidade, antes de dar a curva para descer o outro lado da Feira do Livro.

Discurso de autoajuda presidencial

Tirando o esfuziante Presidente da República, é difícil reconhecer-se quem está por trás das máscaras, mesmo os elementos que estão sentados ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa. Desta vez o Presidente só se atrasa onze minutos e pode começar a sessão oficial de inauguração. Tanto os que fazem os discursos como os que os ouvem sentados mantém uma distância de segurança. É o Presidente quem encerra o ato e diz: "Estava a ouvir as intervenções e a pensar que antigamente era um prémio vir à Feirado Livro com os pais, depois era o intermezzo entre os exames da universidade, depois a curiosidade como adulto na Feira situada na Avenida da Liberdade."

O Presidente declarou que tinha pensado vir só três vezes à Feira em vez das dez habituais, mas como o autarca de Lisboa lhe pediu cinco visitas "vou ajustar o meu calendário". E embalado pela emoção, Marcelo Rebelo de Sousa escolheu quatro palavras-chave para o que disse em seguida: a resistência do setor do livro que "anda assim há muitos anos" - e recordou ter sido também editor: "Era a melhor forma de perder dinheiro na vida." Emergência da pandemia que "agrava a situação do setor para quem acredita que deve haver um papel de apoio ao livro". Coragem para pôr de pé a Feira do Livro, "que deve ser apoiada pelos leitores". Triunfo da cultura "numa crise que implica desemprego e congelamento de projetos, por isso a Feira é uma vitória da cultura e neste caso da atividade cultural, que foi reduzida a zero com a pandemia".

Para o Presidente, a "cultura ficou numa situação pior que o turismo ou a comunicação social", mas "não haver Feira do Livro era inaceitável". Acrescentou: "Não há economia que vingue sem cultura. Não aceitamos a morte do livro".

Com uma imagem da fotografia da primeira Feira do Livro de Lisboa em fundo, falou primeiro o responsável da APEL, João Alvim, que explicou que foram tomadas todas as medidas de segurança para manter um evento nunca interrompido nos últimos 89 anos, apesar de todas as crises económicas do passado. Não se calou sem dizer: "Portugal teve a maior quebra na venda de livros nos países da União Europeia, mas as propostas feitas ao Governo não tiveram acolhimento". O secretario de Estado Nuno Artur Silva falou em seguida e ignorou as críticas ao Governo, tendo dito que estava na condição de leitor. No fim, entre os parabéns à Feira, referiu que havia preocupação com o setor do livro". Em seguida, o autarca de Lisboa, Fernando Medina, congratulou-se por "um grande incidente da história como a pandemia não ter sido capaz de eliminar a 90ª edição do evento".

A Feira como ela está a começar

Quando se começa a ver mais de perto, o novo normal da Feira salta à vista. Afinal, nas primeiras horas ainda há poucos leitores e muitos preferem fazer fila junto às Farturas Lusitanas ou à Taberna Real d' Óbidos. No entanto, ao fim da tarde já são muitos os que aproveitaram as primeiras promoções e saem do parque com vários sacos de livros nas mãos. Desta vez, o espaço reservado para a restauração diminuiu a favor dos livros, e aos mais ortodoxos agrada-lhes que a restauração deixe de ser o centro em vez do mundo dos livros, como vem acontecendo desde há uns anos.

Bendita pandemia, pode dizer-se, desta vez vai ser mais fácil ver os livros e visitar a feira! Mesmo que os leitores tenham de enfrentar de máscara os livros de capa descoberta.

É o caso de Daniela, que às 17.00 ainda não sabe o que vai comprar mas percorre a banca com curiosidade. É das leitoras que vem logo no dia da inauguração e às primeiras horas. Tem um truque: escolhe o que mais gosta e vai esperar pela Hora H, os sessenta minutos em que os livros são vendidos a metade do preço marcado. Há escolheu um livro, Os Melhores Conselhos de Investimento que recebi, de Liz Claman. Este já não larga, mesmo que a busca ainda esteja no início. Vai voltar mais vezes e a pandemia não a preocupa, diz.

Mais à frente, o casal Sandra e Hugo já estão despachados e também os filhos Rodrigo e Vasco: quatro livros comprados, um na mão de cada membro da família. Medo da pandemia? "Não, estamos ao ar livre." Porquê ir à Feira logo às primeiras horas? "Estamos de férias." Mas esta família não é de repetir as visitas ao evento porque, além de "ser cansativo por causa dos filhos", são mais adeptos de frequentar as bibliotecas e escolherem lá os livros para toda a família.

São vários os escritores que já estão a dar autógrafos. Isabel Nery, a biógrafa de Sophia de Mello Breyner Andresen já está a assinar, mas antes deu a sua volta pela Feira e já comprou livros para trabalhos futuros: "São biografias de Mário Soares e de Sá Carneiro, o Ficções de Jorge Luis Borges e um livro com as capas do Diário de Notícias." Quando chegou, parecia que o recinto ainda estava muito vazio, mas em meia hora a coisa ficou composta: "Acho que as pessoas estão à vontade e são os funcionários das editoras os mais preocupados com o uso de máscaras."

Entre os editores presentes está o da Parsifal, Marcelo Teixeira. Não faz prognósticos para esta Feira do Livro: "É imprevisível. Temos debatido entre editores e receamos que a Feira não atinja as expectativas". Razões? "Não é o período mais feliz pois está muita gente ainda de férias e é hora de se comprar os livros escolares." Considera que a pandemia pode desencentivar a vinda à Feira "apesar dos cuidados manifestos da organização", mas não deixou de antecipar a edição de um livro para estudantes e a classe médica para a 90ª edição. O título é Casos Clínicos em Psiquiatria e Saúde Mental e espera que tenha procura nas duas feiras, a de Lisboa e a do Porto.

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