Modi em causa enquanto Índia sofre segunda vaga da pandemia

Primeiro-ministro e governo não prepararam país, que vive "situação para lá de desoladora" segundo a OMS, nem agiram para evitar ajuntamentos políticos e religiosos.

O Supremo Tribunal do estado de Tamil Nadu responsabilizou na segunda-feira a Comissão Eleitoral da Índia (CEI) pela segunda vaga de covid-19 no país, que atingiu o país nas últimas semanas e atirou os serviços de saúde para as cordas. Segundo os juízes, os funcionários daquele órgão deviam ser julgados por terem permitido aos partidos políticos a realização de comícios com milhares de pessoas e sem seguir o protocolo emanado pela Organização Mundial de Saúde. "Estavam noutro planeta quando os comícios decorreram?", perguntou o presidente do Supremo aos responsáveis da CEI.

Foram realizadas eleições para as assembleias dos estados de Assam, Querala, Tamil Nadu e no território de Puducherry, e ainda estão a realizar-se no estado de Bengala Ocidental.

Não é só à comissão eleitoral que os indianos pedem explicações. "Quer o primeiro-ministro Modi quer a CEI são responsáveis pela situação", disse a ministra-chefe de Bengala Ocidental, Mamata Banerjee." Até Modi ter cancelado comícios a CEI não anunciou restrições e nessa altura os casos já tinham crescido de forma exponencial", lamentou o porta-voz do partido DMK (Federação Progressista dos Drávidas), A. Saravanan.

Na terça-feira chegou a primeira remessa de ajuda internacional, ventiladores e concentradores de oxigénio oriundos do Reino Unido a um país que está a registar por dia mais de 300 mil novas infeções e mais de 2500 mortos, embora os epidemiologistas acreditem que os números sejam superiores de 10 a 30 vezes devido à baixa testagem fora das grandes urbes.

"As pessoas estão simplesmente a morrer, a morrer, a morrer", repetiu à AFP Jitender Singh Shanty, que coordena as operações de cremação de cerca de cem cadáveres por dia num local tão concorrido em Nova Deli que Shanty considerava expandir as piras para a estrada adjacente.

As redes sociais, para onde acorreram médicos, pacientes e familiares desesperados com a falta de camas nos hospitais e, sobretudo, de oxigénio, foram alvo de censura do governo indiano. Por exemplo, um tuite de Pawan Khera, porta-voz do Congresso Nacional Indiano, o maior partido da oposição, no qual responsabilizava o partido nacionalista hindu Bharatiya Janata (BJP) pela crise sanitária, foi apagado.

"Atualmente, centenas de milhares de indianos pertencentes a todos os credos estão literalmente a tentar respirar. O empenho do governo em pressionar o Twitter para bloquear tuites críticos sobre a gestão da crise mostra que a bússola moral da administração continua a apontar numa direção que é desavergonhadamente egoísta", disse Conselho Muçulmano Indiano-Americano, com sede em Washington. Segundo a avaliação mais recente da Freedom House às democracias mundiais, a maior de todas, a indiana, deixou de ser "livre" e passou a "parcialmente livre".

No final de janeiro, Narendra Modi elogiava a capacidade do país em "controlar o vírus e melhorar as infraestruturas de saúde" com soluções feitas no país. No mês seguinte, o BJP aprovou uma resolução a saudar o seu líder como um visionário que tinha derrotado a pandemia. Mas os factos vieram a desmentir a propaganda. Quando os números apontavam para uma segunda vaga, os comícios políticos e o festival hindu Kumbh Mela, que atrai milhões de pessoas para junto do Ganges, não foram objeto de restrições.

A resposta à crise sanitária acontece num momento em que o país de 1,4 mil milhões tem 1,5% da população vacinada e com um programa que, a continuar ao ritmo atual, só terminará no final de 2022. A empresa privada Serum Institute of India produz vacinas da AstraZeneca, mas o governo indiano só adquiriu em janeiro 11 milhões de doses, enquanto rejeitava licenças para a vacina da Pfizer-BioNTech ser produzida no país. Agora, perante a urgência, permitiu aos estados e a entidades privadas comprar e distribuir vacinas, bem como abriu caminho para a aprovação rápida de outras vacinas, além de ter descentralizado as competências de combate à pandemia para o nível estadual.

As consequências políticas para Modi são tão imprevisíveis quanto a extensão da crise sanitária. "Neste momento crucial está a lutar por votos e não contra a covid", disse à Bloomberg Panchanan Maharana, um até agora apoiante de Modi. "Ele não está a conseguir cumprir -- deveria parar de falar e concentrar-se em salvar a vida e o sustento das pessoas."

cesar.avo@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG