Corrida ao armamento

Que as despesas militares globais tenham crescido 2,6% em 2020, um ano em que a pandemia fez a economia do planeta contrair-se 4,4%, deve servir de alerta para todos aqueles que acham as grandes guerras um fenómeno do passado, não repetível. São muitos os pontos de tensão que se vão acumulando e, ao contrário do que aconteceu nas décadas logo a seguir ao fim da Guerra Fria, desta vez o risco de violência é mesmo entre Estados, e não entre guerrilhas ideológicas ou grupos separatistas e os governos centrais.

Os Estados Unidos, que continuam a ter o maior orçamento militar (778 mil milhões de dólares, 39% dos gastos em defesa do mundo), aumentaram o investimento em 4,4%, sobretudo apostando em novas tecnologias e na modernização do arsenal nuclear. Já a China, apesar do 26.º ano consecutivo de aumento da despesa militar, só reforçou o orçamento bélico em 1,9%, o que atrasa a estratégia de diminuir o fosso com os Estados Unidos, que é ainda de um para três, pois o valor chinês de 252 mil milhões de dólares representa 13% dos gastos globais em defesa. A Rússia, com um aumento de 2,5%, vale 3,1% do bolo (61,7 mil milhões).

Todos estes números surgem no relatório anual do SIPRI, sediado em Estocolmo. O nome do prestigiado instituto sueco fala de pesquisa para a paz, mas só se a mensagem dos enormes valores gastos em armamento mesmo com a covid-19 a matar por todo o mundo se transformar em alarme para as populações. Globalmente, a despesa militar ronda já os dois biliões de dólares (triliões, para os anglo-saxónicos) e está no nível mais elevado desde a crise financeira de 2009.

Além do habitual Médio Oriente (onde a pandemia e sobretudo a quebra do preço do petróleo até fez cair as despesas militares no ano passado), a Europa Oriental e a Ásia-Pacífico são hoje os principais palcos de tensão.

Perante as pressões americanas aos parceiros da NATO e as ameaças russas, a União Europeia, como um todo, gastou mais 4% e é mesmo de sublinhar os 5,2% extra da Alemanha. E no ano em que se concretizou o "Brexit", o Reino Unido investiu mais 2,9% do que em 2019, o que faz com que o seu orçamento militar de 59,2 mil milhões de dólares seja agora o quinto maior do mundo (3% do total).

Na região da Ásia-Pacífico, e de certa forma abrangendo também o Índico, potências como a Índia (terceiro orçamento militar mundial, 3,7% do total), Japão, Coreia do Sul e Austrália aumentaram todas as despesas por comparação com 2019, mais do que óbvia resposta à ascensão da China como superpotência.

Numa entrevista hoje a propósito dos 100 dias da presidência de Joe Biden, o académico Tiago Moreira de Sá, reputado especialista em assuntos sobre os Estados Unidos, afirma que a tradicional superpotência está agora decidida a combater simultaneamente tanto a China como a Rússia. É arriscado. A América terá começado a vencer a Guerra Fria no momento em que Richard Nixon acabou com a parceria entre soviéticos e chineses; e Donald Trump tentou sem sucesso uma jogada semelhante para reforçar a posição da América no mundo de hoje, que foi cativar a Rússia para o seu lado ao mesmo tempo que desafiava abertamente a China. Tem Biden condições para pôr em sentido, em simultâneo, dois grandes rivais?

A resposta, segundo os números do SIPRI, é sim, por enquanto. A vantagem militar americana continua enorme, mesmo que tensões como a do Leste da Ucrânia ou a do mar da China do Sul a obriguem eventualmente os Estados Unidos a agir muito longe do seu território, atenuando assim a sua supremacia teórica.

Inquestionável é o mundo estar muito perigoso. Com Biden, a América defende a liderança global, com Xi Jinping, a China quer mudar a hierarquia internacional, com Vladimir Putin, a Rússia resiste ao papel secundário a que a reduziram desde o fim da União Soviética. Veremos o que trará o segundo ano da covid-19.

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