Luís Andrade: "Vasco Cordeiro terá de negociar com o BE e o CDS"

O professor de Ciência Política da Universidade dos Açores Luís Andrade afirma que 24 anos de poder desgastaram o PS e diz que novos partidos eleitos, Chega, PAN e IL, foram a novidade que o eleitorado esperava.

O sistema política açoriano saiu muito instável destas eleições regionais?
Uma das questões essenciais nestas eleições prendia-se com o facto de saber se o PS conseguiria ou não a maioria absoluta e não conseguiu. E agora, obviamente, o presidente do PSD Açores, Vasco Cordeiro, e presidente do governo regional, terá de negociar com outros partidos com assento parlamentar, desde logo, por exemplo, o Bloco de Esquerda e o CDS. Lembro que nas primeiras eleições que o PS ganhou aqui nos Açores em 1996 não obteve também maioria absoluta e isso implicou uma negociação com o CDS. Vamos ver o que irá acontecer agora porque está tudo em aberto, tanto mais que existem três novas forças políticas que pela primeira vez conseguiram obter assento na Assembleia Legislativa Regional - o Chega, o Iniciativa Liberal e o PAN. O PS obteve 25 mandatos, o PSD 21 e, portanto, terá necessariamente de negociar, à esquerda ou à direita.

Mas como há uma maioria de direita, não coloca a hipótese de uma geringonça neste campo político?
Tudo é possível, embora me pareça que a negociação com alguns partidos, sobretudo os mais recentes, não será fácil. Mas pode acontecer, como aconteceu ao inverso há cinco anos, em 2015, no parlamento nacional. O PSD e o CDS ganharam as eleições, no entanto, o resultado foi uma geringonça entre PS, BE, PCP e Verdes. Tudo vai depender das negociações que já estarão a decorrer ou vão decorrer muito em breve para a formação desse novo governo.

"Lembro que nas primeiras eleições que o PS ganhou aqui nos Açores em 1996 não obteve também maioria absoluta e isso implicou uma negociação com o CDS."

Até porque no parlamento regional o programa de governo vai mesmo a votação ao contrário do nacional, onde pode ser discutido sem votação...
Exatamente. E também teríamos o problema do Orçamento, se não existisse apoio parlamentar. E seria catastrófico se o Orçamento não fosse aprovado com implicações muito sérias aqui para a região autónoma dos Açores.

Se as negociações se arrastarem durante muito tempo para formar governo há custos para os Açores?
Quanto mais tempo pior. Faço votos que as negociações corram o mais rapidamente possível para que a região tenha um governo com uma estabilidade política, que envolve a económica, a financeira e a social.

A perda de votos do PS explica-se como, esta vontade de mudança? Desgaste do poder? A própria abstenção diminuiu.
A abstenção até foi ao contrário do que eu suspeitava - de que num contexto de pandemia eventualmente existisse um aumento, o que não aconteceu e é bom. Mas sobre a perda de votos do PS, há um conjunto de fatores, desde logo o de um partido que está no poder há muito tempo. O que embora aparentemente dê vantagem dá um desgaste que é inevitável. Ao fim de 24 anos é possível que parte do eleitorado quisesse uma mudança. As eleições ainda foram ontem e vamos demorar algum tempo a perceber o que é que efetivamente se passou. Contudo, o eleitorado não quis uma mudança radical, isto é, o PS ganhou mas sem maioria absoluta.

A pandemia e o agravamento da situação económica nos Açores também contribuíram para esse desgaste?
​​​​​​​Sim, também. A pandemia não ajudou, apesar de o desemprego não ter aumentado substancialmente. Mas há uma crise económica e social que contribuiu para a diminuição da votação no PS.

"Ao fim de 24 anos é possível que parte do eleitorado quisesse uma mudança."

Um dos partidos que conseguiram sucesso eleitoral nestas eleições foi o Chega, com dois mandatos, sendo já a quarta força política nos Açores. Como se explica este sucesso regional, depois de já o ter tido a nível nacional?
Algumas pessoas com quem falei demonstravam que estavam saturadas e o Chega, que é um fenómeno muito recente a nível nacional e ainda mais a nível regional, talvez seja a expressão de parte do eleitorado que estava saturado do statu quo. É algo novo, independentemente de ser de direita, ou extrema-direita conforme a leitura política, e que trouxe alguma novidade e apelou a algum eleitorado.

Apesar do sucesso eleitoral, a figura de André Ventura continua a ser marca identitária do Chega mesmo aqui?
​​​​​​​Claro, aliás, o André Ventura esteve por cá e ainda cá está, sempre ao lado dos dois deputados que foram eleitos. Essa presença do líder nacional foi importante para o resultado eleitoral do partido.

"Algumas pessoas com quem falei demonstravam que estavam saturadas e o Chega, que é um fenómeno muito recente a nível nacional e ainda mais a nível regional, talvez seja a expressão de parte do eleitorado que estava saturado do statu quo."

Apesar de se dizer que não se pode fazer uma leitura nacional dos resultados regionais, até porque as figuras políticas são muito diferentes, mas neste caso o Chega sai fora desse paradigma... Tem sucesso tanto a nível nacional como regional.
​​​​​​​É verdade, e isso tem de ser estudado no âmbito da ciência política. Veio revolucionar um pouco os conceitos que temos e que a ciência política tem defendido porque a maior parte das vezes não se pode fazer uma leitura regional do que se passa a nível nacional e vice-versa. Agora o Chega é um fenómeno sobre o qual vou "obrigar" os meus alunos a pensar um pouco.

E o Iniciativa Liberal e o PAN também se inscrevem nesse fenómeno da novidade política?
No caso do Iniciativa Liberal conheço o candidato eleito porque foi meu aluno aqui na Universidade dos Açores e tem umas ideias interessantes. Mas neste caso nasceu com o statu quo, com o que é aceite na comunidade aqui na região autónoma e que também teve algum sucesso. Estes fenómenos todos terão de ser estudados no contexto especifico desta região.

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