A-dos-Francos foi ao baú tirar tudo o que era cor-de-rosa

A-dos-Francos engalanou-se e vestiu-se de rosa para receber o herói da terra: João Almeida. "Um menino trabalhador, empenhado e educado."

Lenços, cachecóis, panos, fitas, camisolas, balões, tops, polos, bandeiras, bancos, bicicletas, cartazes, tintas, papel, flores, molas e, até, chuchas, os habitantes de A-dos-Francos foram buscar para homenagear o herói da terra, o ciclista João Almeida., que andou 15 dias na liderança do Giro d'Italia. Conquistou o 4.º lugar, o melhor de sempre de um português na competição. Conseguiu, ainda, outro feito não alcançado até ao século XXI, tornar o cor-de-rosa unissexo.

Cor-de-rosa por todo o lado, muitas fitas e laços nas casas, lojas e árvores, bancos e bicicletas pintados, até a casa funerária colocou um pano rosa à janela. E os alunos da Escola Visconde de Landal pintaram ciclistas e bicicletas, desenhos que afixaram nas janelas.

"Ó Luísa, não te lembras da peixeira que vinha à aldeia, a Augusta, tratava toda a gente por cor da rosa? Eu era muito miúda, mas lembro-me. Agora, voltámos a ser rosa, A-dos-Francos é cor-de-rosa."

Quem o diz é Cristina Fragoso, 66 anos, em conversa com Luísa Gonçalves, a avó de João Almeida. Moram frente a frente, ela colocou um top rosa na porta e traz um cachecol que leva para todo o lado. Luísa Gonçalves, 63 anos, veste uma camisola da mesma cor. "Não ligava muito ao cor-de-rosa, é uma cor bonita, mas não ligava."

O primeiro neto

João Almeida, 22 anos, é o primeiro neto de Luísa, tem mais duas meninas e um rapaz. E é o número 1 a casa onde habita com os pais, ao lado da dos avós. "Sempre o número 1", graceja a avó. Conta que o jovem ciclista não o disse, mas eles sabiam o sonho do neto em conquistar uma vitória importante no primeiro ano em que se tornou profissional, 2020.

Conseguiu mais do que isso, andar 15 dias com a camisola rosa. E a família e os conterrâneos batizaram-no de "pantera". Afinal, a pantera cor-de-rosa era heroína dos desenhos animados que os pais mais viam quando eram crianças e a pantera um dos preferidos da mãe, Patrícia Gonçalves, diz a avó.

As casas dos pais e dos avós estão decoradas com fitas, balões e um cartaz: "Força João". "Engraçado, estava a olhar para a tua roseira e pensei: «O João Almeida, quando chegar, até uma rosa cor-de-rosa tem na parede", comenta a vizinha Cristina.

Só os balões as diferencia das outras casas da aldeia. E quem tinha a casa pintado de rosa vangloria-se da premonição. "Sempre gostei da cor, está assim há 23 anos, era para pintar neste verão, o rosa está muito desmaiado, fica para o ano", conta a Mariana Branco, com duas filhas a viver em Lisboa, onde ela passou uns dias recentemente. Chegou tinha uma fita com uma chucha rosa pendurada no portão. "Foi o meu marido que a pôs, foi a única coisa que encontrou em casa." Ela juntou-lhe laços e faixas da mesma cor.

"Conheço o João Pedro desde que nasceu e acompanho-o desde os 12/13 anos, quando começou a andar nisto. Muito educado, simpático. É um orgulho, ainda por cima moro na mesma rua. Passámos todos a ver o ciclismo na televisão, até as minhas filhas que moram em Lisboa. Sentia que ele chegava longe, nunca pensei que fosse logo no princípio", confessa Mariana.

Todos são família e amigos

Para os avós, o "herói" é o "menino". "Muito inteligente, nunca chumbou, muito aplicado, muito trabalhador. Estava na universidade, em Lisboa a estudar desporto, mas teve de optar: estudava ou fazia ciclismo", explicam.

E é na sua capacidade de trabalho que encontram justificação para a força que o jovem de 22 anos teve para circular em primeiro durante tantos dias: "Vive para o ciclismo, é raro sair de casa, muito aplicado, nada de noitadas, doces, nada", acrescenta a avó.

E o avó Júlio Gonçalves, 69 anos, lembra que o neto sempre gostou das bicicletas, embora tenha andado pelo futebol e pela natação. "No verão, quando ia para o Minho, perguntava-lhe se ele queria vir, respondia que só ia se levasse as bicicletas."

João Almeida viajou nesta segunda-feira de Milão, onde foi o contrarrelógio que conclui a Volta à Itália, três semanas. Passou a tarde em Lisboa, para entrevistas, e para regressou à terra já noite. Nada de mobilizações, porque o "jovem está cansado". Nesta terça-feira é que se será feita a homenagem.

"Os presidentes da junta de freguesia, Paulo Sousa, e da Câmara Municipal das Caldas da Rainha [a pertence A-dos-Francos], Tinta Ferreira, estão com ele. Amanhã, às 18.00 vai à câmara, andar pelas ruas e, depois vem para aqui, por volta das 20.00. Faz uma arruada e vai dizer umas palavras", explica Carlos Carvalho, 49 anos, dono do Café da Fonte.

É um ponto de encontro da aldeia, onde nunca se falou tanto de ciclismo. Clientes que sublinham que "é um orgulho", "importante para a terra" mas também "para o ciclismo". Lamentam que, só ao fim de dias a liderar a prova maior do ciclismo italiano os media lhe tenham dado destaque. "Um tipo que nem sabe dar um pontapé na bola é logo destacado, o João ganhava e não aparecia."

"Pôs toda a gente a ver ciclismo"

"O João pôs toda a gente a ver ciclismo", acrescenta um tio, que não quer o nome publicado. "Ele é que é o protagonista", justifica. Veste um polo cor-de-rosa.

Esses problemas não tem o tio-avó, o Américo Sobreiro, 58 anos, que traz uma fita rosa na antena do carro, à semelhança do uso da terra quando há casamentos, estas brancas. Também tem uma T-shirt da mesma cor. Gosta da cor?, perguntamos. Responde: "Que remédio, mas vou vesti-la com muito gosto para o receber."

Anda de bicicleta, mas não esconde a paixão por motos, tem uma Casal 4, a que usa quando o tempo está bom e que, agora, tem uma bandeira rosa. E que já tem levado a concursos. "Não tem explicação o que fez, foi uma coisa que surpreendeu muita gente", sublinha.

O herói da terra irá encontrar-se com a sua gente na rotunda principal de A-dos-Francos, junto à ponte do rio Arnoia, em frente à Sociedade Instrução Musical, Cultura e Recreio, fundada a 16 de abril de 1906. E que, na última semana, teve uma bicicleta estática para todos pedalarem e, assim, apoiarem o jovem ciclista. À entrada, uma faixa convida: "Entra e pedala connosco pelo João".

"Não sei quantos quilómetros fizeram, sei que fizemos mais do que ele", brinca Lara Silva, 39 anos, funcionária do bar. Ela percorreu 14 km, em 30 minutos, o tempo que cada "ciclista" devia fazer. "As pessoas inscreviam-se, pedalavam, deixavam o nome e o número de telefone (por causa da covid, para poderem serem contactados) e uma mensagem. Vamos entregar-lhe essas folhas", explica.

A sociedade recreativa está aberta entre as 07.00 e as 23.00. Nas últimas semanas, entram alguns forasteiros, que querem ver como é a terra de João Almeida. Tiram fotos a uma bicicleta pintada de rosa. É uma aldeia bonita a 80 quil´ometros de Lisboa, de gente simpática e simples, qualidades que também atribuem ao João Almeida. Vende T-shirts por cinco euros e máscaras por seis, rosa, claro. E com a foto do atleta.

"A" de aldeia

A terra tem um nome usual nas localidades vizinhas, explicam os antigos, com um "A" antes dos nomes: A-dos-Francos, A-dos-Negros, A-dos-Cunhados. A-da-Gorda. "A" é a abreviatura de aldeia, ou seja, Aldeia dos Francos. E que tem uma capela junto à casa de João Almeida em homenagem aos franceses que ali passaram durante as Invasões Francesas E francos era a moeda francesa antes da entrada do euro.

Os pais do ciclista chegaram a casa nesta segunda-feira à tarde. Foram duas vezes a Itália, para apoiar o filho. Viajaram com ele de Milão para Lisboa. Patrícia Gonçalves, 42 anos, funcionária numa IPSS, e Dário Almeida, 46, da área da mecânica e hidráulica, explicam o sucesso do filho: "Muito trabalho, dedicação, empenho no que faz e estar a realizar um sonho. Surgiu a oportunidade e ele agarrou."

O João tem uma irmã de 8 anos. Habitam uma casa de primeiro andar e, no rés-do-chão, há um espaço dedicado aos muitos troféus que o jovem recebeu na sua curta carreira. Jogou futebol, fez natação em Rio Maior, mas foi com as duas rodas que começou a ganhar.

A primeira vitória foi numa BTT, no 2.º Encontro de BTT, nas Caldas da Rainha, tinha 14 anos. O que consideram mais importante, até ao Giro, foi a taça da Liège-Bastogne-Liège, em 2018. No mesmo ano, foi 2.º no Giro d'Italia em sub-23.

Medalhas, taças, distinções, camisolas das equipas que representou e as que significam prémios. Vai juntar as rosa deste Giro - não a 15 porque ofereceu algumas - e a branca, o prémio juventude, tem lá outras brancas, também verde, etapa ganha na montanha em Espanha quando era júnior.

Contam, também, os clubes por onde passou: Ecosprint (Caldas da Rainha), Escola José Maria Nicolau (Cartaxo), Bombarralense (Bombarral), Clube Ciclismo da Bairrada (Bairrada). Aos 18 anos foi para o estrangeiro, pelas mãos do treinador Henrique Queirós. Foi para a Unieuro (Itália), seguiu-se a Axeon (Estados Unidos), passou neste ano a profissional, na Deceuninck-Quick Step (Bélgica). Equipa que só o levou à Volta de Itália, porque outros atletas que consideravam mais fortes estavam lesionados.

O que mudou? "Nada. Há mais alegria, muito orgulho, o resto é igual", diz Patrícia. O pai concorda, a certeza é que João Almeida irá descansar, não há mais competições até ao final do ano. E a Volta a Portugal? Dário responde de imediato: "O João não vai correr na Volta, a Volta está na terceira divisão, são os clubes que escolhem as provas. Poderá correr noutras, como da Algarve em que já participou."

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