008 ou 006? É 'Tenet', com Christopher Nolan a replicar Kubrick

O cineasta de todos os sucessos da Warner, Christopher Nolan, sai de novo triunfador no mais esperado filme do verão. Tenet divide opiniões apenas porque conceptualmente é o mais arriscado blockbuster dos últimos tempos. Estreia nesta quinta-feira.

Parte da crítica está a chacinar este porta-aviões de Christopher Nolan. Por estes dias, ser elegante com escala gigante nem pensar, ser visionário à grande idem aspas ou apostar em ideias ousadas na forma de contar uma história, que heresia! Tenet, o tal filme que muitos acreditam que pode ditar a sorte das salas de cinema face ao medo das pessoas neste período, é uma declaração de amor à ideia de um espetáculo sensorial em cinema.

Em cinema pensado para ecrã gigante, com o som Dolby alto e de preferência IMAX. Afinal de contas, um objeto de cinema que tem tanto de autoria artística como de produto de entretenimento de massas, como aliás Chris Nolan tem feito desde Insónia. Mas numa frase apetece dizer que aqui nasce uma espécie de James Bond (008 ou 006, mais propriamente, devido à complexidade espaciotemporal...) a partir do cruzamento de conceitos de dois dos filmes anteriores do realizador, Memento, na sua dinâmica de subverter a gramática visual a partir do conceito do tempo, e A Origem, pela forma como ambiciona inovar uma ideia de cinema de espionagem.

Nesta declaração de provocação narrativa, em que o tempo anda para trás e para a frente, Nolan imaginou um mundo de espiões e vilões em que no presente se sabe que no futuro se trava uma guerra pelo controlo temporal. O Protagonista, assim como ele próprio se autointitula, é um agente americano a comandar uma missão com o fim de inverter o tempo para capturar um traficante de armas que pode estar a negociar com o futuro alterações físicas que põem em causa a existência do planeta.

Confuso? Não há problema, "não tente compreender, é só preciso sentir", alguém diz logo no começo e é a melhor maneira de entrar nesta complexa teia de espionagem que leva o agente para Londres, Mumbai, Itália e Rússia quer em tempo real quer pelo passado e pelo futuro. Um filme de fórmula viagem no tempo com a habitual opulência de Nolan, em que o caos físico-quântico é um pretexto para um discurso sobre as ínfimas possibilidades de rebentar com a linearidade clássica em cinema. O que é notável é que Nolan nunca deixa de ser clássico a contar uma história invertida: dá-nos chão de uma fisicalidade que não inventa explosões ou cenários digitais. E no absurdismo de toda a fantasia o espectador é convidado a ficar vertiginosamente desorientado. Ajuda a música sensorial de Ludwig Göransson e ajuda ainda mais uma câmara voadora que tem uma souplesse no aproveitamento dos 70 mm.

Nos pergaminhos da desmedida ambição de Tenet está também uma vontade de poder brincar com a magia do cinema. Se é fácil pensarmos nos efeitos à Méliès, também não é descabido imaginar Nolan a homenagear David Fincher quando este homenageava Stanley Kubrick. É a tal coisa do prazer da vertigem, entre o estrondo do poder sonoro e a pirueta pelo impossível (sequências de ação como a da perseguição na autoestrada que em apenas breves segundos dão uma abada a todas as cenas de asfalto do franchise Velocidade Furiosa), nunca deixando de nos "quebrar" a cabeça com reflexões sobre o tempo e o espaço.

Em termos de ficção científica, Tenet propõe caminhos de disrupção aparentemente novos, ao ponto de se perceber que é filme que pede múltiplas visões. Nolan, mais uma vez, faz do seu cinema um cinema de enigmas, provavelmente destinado a ser compreendido uns anos mais à frente. E a provocação tem delícias como um rigor frio e cínico nos diálogos que quase têm em si gravados um desejo de autoparódia, como aquele momento em que Michael Caine brinca com a falta de classe do fato do herói. Falamos de um humor francamente subtil e que também pode surgir em pleno aparato das gigantes cenas de ação que o realizador tão sagazmente coreografa.

Nolan só se torna Kubrickzinho quando no último capítulo gere mal o tempo da batalha final e torna todo o "grand final" em algo excessivamente bélico. E aí perde a mão no filme e parece um cineasta fascinado com os seus dotes de tecnicista bulldozer. Nada que no final da sessão não deixe o espectador ainda a remoer tudo aquilo que viu, isto é, um experimentalismo tão sofisticado como empolgante. Porque o tempo, neste cinema, volta para trás, para a frente e para o lado. Vai salvar a indústria cinematográfica? Talvez não, para isso era preciso a viagem no tempo dos super-heróis de Avengers: Endgame, ironia das ironias...

**** Muito Bom

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