Manifestantes protestam em Biarritz, França, com cartazes com os rostos dos líderes dos EUA, de França

França

O que os sete líderes levaram desta cimeira do G7

Macron anuncia possível cimeira entre Trump e Rouhani sobre o nuclear do Irão. Trump baixa tensão com a China no que toca à guerra comercial e faz acordos com a França e com o Japão. Bolsonaro, mesmo ausente e distante, vestiu a pele do mau da fita e serviu de fator de distração.

Os líderes do G7 - sete países mais industrializados do mundo - reuniram-se em Biarritz, França, entre sábado e segunda-feira. Donald Trump surgiu em modo mais ou menos controlado, dada a hábil estratégia de diplomacia de Emmanuel Macron para lidar com o presidente dos EUA. Falando em unidade. Mantendo-o a par das suas movimentações.

O Irão foi o convidado surpresa de uma cimeira onde não houve comunicado final conjunto pela primeira vez desde 1975. E o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, fez o papel de mau da fita. Mesmo ausente. Mesmo à distância.

O que levam, afinal, os sete líderes deste encontro de dois dias e meio na capital europeia do surf?

Macron anuncia possível cimeira Trump-Rouhani sobre nuclear do Irão

Emmanuel Macron era o anfitrião desta cimeira do G7 em Biarritz. Antes disso, recebera na sua residência de verão, o forte de Brégançon, o presidente Vladimir Putin, cujo país, a Rússia, foi expulso do que era o G8, depois de anexar a Crimeia. Então, Macron declarou que acredita "numa Rússia europeia" e que "a Europa vai de Lisboa a Vladivostok".

O presidente francês já tinha avisado, de antemão, precavendo eventuais desavenças, sobretudo com Donald Trump, que não iria haver um comunicado final conjunto como em todas as anteriores cimeiras do G7. Mesmo assim, conseguiu que os líderes dos sete países emitissem uma pequena declaração sobre comércio internacional, o Irão, a Líbia, Hong Kong e a Ucrânia.

Nessa declaração, exibida por Macron aos jornalistas no final da cimeira, afirma-se que os sete países mais industrializados do mundo estão comprometidos com um comércio justo com vista à estabilidade da economia global. E que querem que a Organização Mundial do Comércio seja mais eficaz na proteção da propriedade intelectual, resolvendo disputas de uma forma mais célere e erradicando práticas desleais no comércio internacional.

Esta mensagem pode ser entendida no âmbito da guerra comercial EUA-China, com Trump a ter chegado à cimeira a ameaçar impor mais taxas aos produtos chineses e a acusar o regime chinês de roubo de propriedade intelectual.

Em Biarritz, Macron anunciou uma cimeira sobre a situação na Ucrânia em setembro, com os presidentes ucraniano Volodymyr Zelensky, russo Vladimir Putin e a chanceler alemã Angela Merkel. "As condições estão reunidas para uma cimeira de sucesso", disse o presidente francês, no final da cimeira do G7.

Macron anunciou ainda que estão criadas condições para uma cimeira entre Trump e o presidente iraniano Hassan Rouhani. Durante a cimeira, Macron e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, receberam o ministro dos Negócios Estrangeiros, Yavad Zarif, que chegou de surpresa. Segundo Trump, Macron consultou-o sobre o encontro, não tendo considerado que o mesmo constituiu uma falta de respeito em relação a si.

Os EUA de Trump saíram do acordo sobre o nuclear iraniano mas os europeus, os russos e os chineses não. "O que eu disse [ao MNE iraniano] Zarif e o que disse ao telefone ao presidente Rouhani foi que, se aceitar reunir com Trump, estou convencido de que é possível um acordo. Espero que, nas próximas semanas, com base nestas conversas, possamos fazer acontecer uma cimeira entre o presidente Rouhani e o presidente Trump", disse Macron, aos jornalistas.

Quanto à ameaça de guerra comercial entre França e os EUA, esta parece, pelo menos para já, afastada. Macron e Trump chegaram a um acordo segundo o qual França reembolsará às empresas afetadas pela nova taxação francesa a diferença entre a nova taxa e o novo sistema de taxação internacional da OCDE para empresas que fazem negócios milionários em países nos quais não estão presentes fisicamente. A nova taxa francesa de 3% aplica-se a empresas com mais de 25 milhões de lucros em França ou de 750 milhões de euros em todo o mundo. Empresas como a Google, Amazon e Facebook estão entre as principais afetadas. Face à medida, Trump ameaçou mesmo impor mais taxas sobre o vinho francês. Mas este fim de semana, mais calmo, até admitiu que a sua mulher, Melania, "adora vinho francês".

Introduzido à última hora na agenda da reunião, o tema da Amazónia levou o G7 a aprovar uma ajuda de 17,95 milhões de euros para enviar aviões de combate aos incêndios. Apesar disso, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, disse duvidar dessa ajuda. "Será que alguém ajuda alguém, a menos que seja pobre, sem retorno? Isto é, sem esperar por algo em troca", questionou Bolsonaro, junto à entrada do Palácio da Alvorada, sua residência oficial.

Esta não foi, porém, a única polémica entre Bolsonaro e Macron. Depois de acusar o presidente francês de ser um colonialista e um aproveitador, o chefe do Estado brasileiro comentou no Facebook uma publicação com uma fotografia sua e da sua mulher - muito mais nova - juntamente com uma fotografia do líder francês com a sua mulher - muito mais velha. E a frase: Entende agora porque Macron persegue Bolsonaro? Bolsonaro comentou: "Não humilha cara. Kkkkk." Instado pela AFP a confirmar a autenticidade do comentário, o Palácio do Planalto não respondeu.

Considerando o comentário "extremamente desrespeitoso", Macron retorquiu: "É triste, é triste, sobretudo para ele e para os brasileiros. As mulheres brasileiras deverão sentir-se envergonhadas do seu presidente." O líder francês disse ainda esperar que "muito rapidamente os brasileiros tenham um presidente que se comporte à altura".

Donald Trump baixa tensão com a China

Afirmando-se convicto de que a China acabará por ceder na guerra comercial com os EUA, Donald Trump disse aos jornalistas em Biarritz: "O que eu estou a fazer, já outros deviam ter feito, muito antes. Obama, Clinton, os dois Bush. Ninguém fez nada para travar os planos da China." Trump voltou a referir-se ao desequilíbrio na balança comercial entre os dois países.

"Enquanto não houver maior equilíbrio, os EUA não vão ceder", disse o presidente dos EUA, para explicar que a escalada de taxas alfandegárias não levará a nenhum lado, enquanto a China não admitir que está numa situação favorável.

Sobre as alterações climáticas, Trump, que retirou os EUA do Acordo de Paris, afirmou: "Sinto que os EUA têm uma riqueza tremenda. Eu tornei viva essa riqueza. Somos agora o n.º 1 em produção de energia no mundo. Não vou perder essa riqueza por causa de sonhos e de moinhos de vento que, francamente, não estão lá a resultar muito bem."

Na cimeira, o presidente dos EUA, país que no próximo ano de 2020 organiza a cimeira do G7, voltou a defender o regresso da Rússia ao grupo dos países mais industrializados do mundo. "Não sei se ele aceitará. Há a questão psicológica. Ele foi expulso...", disse Donald Trump sobre Vladimir Putin, respondendo a uma questão sobre a viabilidade de um regresso ao modelo do G8.

Em relação ao Irão, Trump diz estar preparado para negociar assim que houver condições. "O presidente Macron fez o que achava correto. Talvez funcione. Talvez não funcione. Não sei", disse Donald Trump, referindo-se ao facto de Macron ter convidado o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano para comparecer em Biarritz.

"Haverá negociações quando houver condições para elas", afirmou o líder dos EUA, dizendo-se preparado para se sentar à mesa com o presidente iraniano, Hassan Rohani, quando este considerar que tem condições para reunir. Macron juntou-se a Trump na conferência de imprensa final desta 45.ª cimeira do G7.

Em relação ao Brexit, Trump disse confiar no discernimento de Boris Johnson. "Acredito mesmo que Boris Johnson vai ser um grande primeiro-ministro, gostamos um do outro e passámos uns excelentes dois dias e meio. Estive à espera de que ele fosse primeiro-ministro nos últimos seis anos. E perguntei-lhe: 'Porque demoraste tanto tempo?'"

Boris Johnson insiste em renegociar acordo do Brexit

E se Trump, afinal não partiu a loiça toda, Boris Johnson também não. O novo primeiro-ministro do Reino Unido, que fez a sua estreia neste tipo de cimeiras, limitou-se a bater simplesmente na mesma tecla no que diz respeito ao Brexit.

"Não estou muito mais otimista", em relação a um acordo com a UE até 31 de outubro, disse Johnson depois de se ter reunido com diferentes dirigentes em Biarritz

"Vai ser difícil... Há um desacordo profundo", entre Londres e a União Europeia (UE), reconheceu o também novo líder do Partido Conservador, numa altura em que as duas partes continuam a mostrar divergências em relação à questão da fronteira irlandesa - mais propriamente no que toca ao chamado backstop.

"Qualquer prognóstico que eu faça sobre um acordo (...) depende exclusivamente da vontade dos nossos amigos e parceiros (da UE) de se comprometerem quanto a este ponto crucial, de deixarem cair o backstop e o acordo de saída atual", disse aos jornalistas o primeiro-ministro britânico.

O dispositivo previsto no tratado sobre o Brexit para a fronteira irlandesa, entre a parte da ilha que faz parte do Reino Unido e a República da Irlanda, membro da UE, constitui um dos principais pontos de desacordo entre Londres e Bruxelas. Até agora, os europeus têm recusado renegociar o acordo alcançado com o anterior governo britânico liderado por Theresa May. Este já foi rejeitado três vezes no Parlamento britânico, obrigou a dois adiamentos do Brexit e conduziu May à demissão.

Em relação ao Irão e a uma possível cimeira entre Trump e Rouhani, Boris Johnson afirmou: "Há uma clara oportunidade agora para que o Irão cumpra o acordo sobre o nuclear... e retome o diálogo, pondo um ponto final também ao seu comportamento disruptivo na região."

Justin Trudeau diz que situação na Amazónia não é parte de um ciclo natural


O chefe do governo do Canadá, Justin Trudeau, foi claro à sua oposição ao regresso da Rússia ao grupo dos mais industrializados. "Nós no G7 estamos comprometidos a seguir em frente de uma forma positiva para a economia global e as ações da Rússia, tanto na Ucrânia como noutras partes do mundo, fazem que ela, claramente, não seja elegível para participar neste grupo de países", afirmou.

Em relação à ajuda para a Amazónia, o primeiro-ministro canadiano, que enfrenta eleições federais em outubro, declarou: "O Canadá oferece-se para enviar bombas de água, bem como uma contribuição de 15 milhões de dólares canadianos. Podemos fingir que a situação na Amazónia é só parte de um ciclo natural. Mas não é exatamente isso que está aqui a acontecer."

Angela Merkel convida empresas americanas para irem à Alemanha

Com o espectro de uma recessão na Alemanha - e de uma derrota eleitoral nas eleições regionais deste fim de semana nos estados federados da Saxónia e de Brandemburgo, a chanceler Angela Merkel esteve mais low profile do que é habitual nestas cimeiras.

Em relação ao Irão e ao acordo sobre o seu programa nuclear, a líder alemã sublinhou: "No que nos une, e isso é um grande passo em frente, não é só que não queremos que o irão tenha armas nucleares, mas é também que queremos encontrar uma solução através da via política."

Sobre o Brexit, Merkel considerou que "a Europa está unida na sua representação [neste G7]" e que "haverá muito trabalho a fazer sobre a saída dos britânicos no outono", admitindo que "enfrentamos semanas muito agitadas".

No que toca às relações bilaterais com Trump, a chanceler alemã especificou um convite endereçado ao presidente dos EUA. "Renovei a minha proposta para que as empresas americanas - pequenas e médias - venham à Alemanha para uma conferência para que possamos apresentar melhor o mercado alemão aos americanos... essa ideia encontrou aprovação."

Shinzo Abe consegue acordo de princípio com Donald Trump

Durante a cimeira de Biarritz, EUA e Japão anunciaram que chegaram a um acordo comercial de princípio.

O acordo permitirá aumentar as exportações agrícolas e de gado, mas também noutros setores, no valor de "milhares de milhões de dólares", afirmou Trump, em declarações à imprensa, após um encontro com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, à margem da cimeira G7.

"Chegámos a um consenso [após] intensas negociações", confirmou Abe, precisando que falta ainda "um pouco de trabalho" para afinar alguns detalhes no texto final.

Ambos os dirigentes esperam que o acordo seja assinado durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, que se realizará em Nova Iorque, em setembro.

Giuseppe Conte alerta contra os perigos do protecionismo

Este primeiro-ministro bem pode ter estado em Biarritz mas a sua cabeça estava provavelmente em Roma. Giuseppe Conte esteve no G7 enquanto chefe de governo demissionário, devido a divergências com o líder de um dos partidos da coligação de governo, a Liga, do controverso ministro do Interior Matteo Salvini.

Face à sua demissão, em rota de colisão com Salvini, o presidente italiano, Sergio Mattarella, deu até esta terça-feira para os partidos italianos encontrarem um governo alternativo para o país. Esta segunda-feira à noite estava quase fechado um acordo entre o 5 Estrelas de Luigi Di Maio (ex-aliado da Liga de Salvini) e o Partido Democrático de Nicola Zingaretti. Isto depois de o PD ter retirado o seu veto a que Conte tenha um novo mandato como primeiro-ministro.

No G7 propriamente dito, Conte alertou os restante líderes para os perigos do protecionismo e pediu aos EUA que não imponham taxas aos automóveis alemães. "Essa medida poderia ter um impacto muito forte no sistema italiano, considerando que a nossa indústria automóvel está fortemente integrada com a da Alemanha", alertou Conte.

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