"Os nossos heróis" na luta contra o covid em Nova Iorque

No país que mais sofre com o novo coronavírus, há portugueses que fazem tudo o que podem. Três histórias para conhecer: a de uma enfermeira no maior hospital de Nova Iorque, a de uma designer que ficou contaminada e está a doar plasma e a de um empresário que conduz ambulâncias. Este texto foi publicado originalmente no dia 27 de abril e faz parte de um lote de trabalhos relacionados com a covid-19 que o DN está a republicar.

Virgínia, Isabel e Neomar são apenas três entre os muitos portugueses e luso-descendentes que estão, cada um com a sua arma, a travar uma luta contra o novo coronavírus nos Estados Unidos. São três dos "nossos heróis" que a página de Facebook New York Portuguese faz questão de homenagear, com caras, com a descrição do que fazem - muitos na área da saúde, outros em setores diferentes, mas também eles fundamentais para que os hospitais e o país continue a funcionar. "Quisemos dar rosto às pessoas que estão a trabalhar, para ter um impacto real", explica Isabelle Coelho-Marques, presidente emérita da New York PALC.

Todos estes imigrantes vivem no estado norte-americano de Nova Iorque, um dos mais afetados do país onde o número de infetados e de mortes atinge os valores mais graves do planeta - os Estados Unidos registavam no final deste domingo (hora portuguesa) quase um milhão de infetados e cerca de 55 mortes. Nova Iorque é o epicentro do novo coronavírus com 22 mil vítimas mortais e 300 mil casos.

As autoridades sanitárias consideram, contudo, que o número de nova-iorquinos contaminados é muito superior ao inicialmente estimado e podem ser cerca de um milhão - um estudo revela que das cerca de 3 000 pessoas do Estado de Nova Iorque testadas, 13,9% tinham anticorpos sugerindo terem sido expostos ao novo coronavírus. Na cidade de Nova Iorque, 21% das pessoas testadas tinham anticorpos.

A enfermeira Virgínia Ferreira já passou por situações profissionais muito difíceis em Nova Iorque - o furacão tropical Sandy em 2012 e o 11 de Setembro. E não foi só profissionalmente que o ataque terrorista de 2001 teve implicações na sua vida, nesse dia Virgínia perdeu também o noivo, um polícia, que já estava no World Trade Center quando a segunda das Torres Gémeas desmoronou.

Foram episódios dramáticos que jamais poderá esquecer, um país ferido no coração - e ela ferida no seu - com a morte de quase 3000 pessoas, numa das vezes; na outra uma cidade devastada pela força da natureza. Mas a nível profissional, não se comparam com a pandemia de covid-19 que faz dos Estados Unidos, em particular o estado de Nova Iorque, o país com mais mortos a nível global.

"Quando foi o 11 de Setembro e a tempestade tropical Sandy, ao fim de um ou dois dias, começou a luta para tentar voltarmos à normalidade. Com o covid-19 não há fim à vista, não sabemos quando vai chegar. Ninguém pensou que uma coisa destas acontecesse, ninguém estava preparado", diz esta portuguesa de 43 anos, nascida na Bairrada.

As palavras da enfermeira do principal hospital universitário de Manhattan, que já passou por tanto - como paramédica, como enfermeira, como mulher - ilustram a dimensão da tragédia que se vive em Nova Iorque. As imagens que de lá chegam são arrepiantes, como as das vítimas mortais enterradas em valas comuns.

Virgínia traduz a sua especialidade como enfermeira avançada, uma vez que pode, por exemplo, prescrever medicação. Antes de ser chamada aos cuidados intensivos do hospital do centro de Manhattan (não quer dizer o nome porque teria de pedir autorização), estava a trabalhar num centro de investigação sobre o cancro. Foi chamada à linha da frente contra o coronavírus e não teve forma, nem queria, dizer que não.

Quando os amigos lhe perguntam se não receia sair de casa para trabalhar nos cuidados intensivos exclusivos para doentes com covid-19 responde: "Tenho que ir com a mente limpa, para fazer o melhor. Adoro cuidar de pessoas."

Os números dão a dimensão do que se passa no estabelecimento de saúde onde Virgínia foi colocada: antes, o hospital tinha quatro unidades de cuidados intensivos, com 68 camas, no dia em que Virgínia falou com o DN tinha 14 unidades e 225 camas ocupadas, com doentes ventilados.

Se se sente uma heroína, como foi chamada na página de Facebook Portuguese New York? "Não me vejo assim. Esta foi a profissão que escolhi, é o meu trabalho."

Isabel Maria Melo foi à festa de aniversário dos 30 anos da sobrinha no dia 14 de março. Eram 15 mulheres a festejar, só se juntaram três homens no final - o marido de Isabel, o filho e o sobrinho. Dias depois, sabiam que 11 estavam infetadas com o novo coronavírus. Uma delas era Isabel que, depois de recuperada, decidiu doar plasma que pode ser usado, a título experimental, no tratamento de outros doentes.

"Nessa altura não havia muitos avisos sobre o novo coronavírus, estava tudo calmo", recorda. Por isso, não se preocuparam em estar todos juntos, a expressão afastamento social só entraria no léxico americano depois.

Quatro dias depois, a designer de interiores, de 56 anos, que vive em Long Island, começou a sentir febre. Logo ela que nunca adoece, que nunca tem febre. Mesmo que lhe tivessem dado o diagnóstico de uma gripe, começou a achar que ali havia gato. Não se sentia bem, esteve dois dias de cama. "Parecia que me tinham dado uma grande coça, não me conseguia mexer. Tinha tosse, parecia que alguém estava sentado no meu peito. Antes dos sintomas começarem, senti uma dor muito grande no peito, que foi pelo braço abaixo. Até pensei que estava a ter um enfarte e que ia morrer. Não acordei o meu marido, disse para mim, se morrer morro..."

Falou entretanto com a irmã que já não se sentia bem e também ela pessoa a quem a febre não chega. E depois foram sabendo de outra e outra, e outra das convivas da festa de aniversário.

Os procedimentos sanitários seguiram-se. Isabel fez o teste numa tenda montada num parque de estacionamento junto à praia. As amostras de saliva foram retiradas sem que pudesse sair do carro.

"As lágrimas começaram a cair-me. Parecia um sítio de guerra, com tropa a tirar infetados.

Nesse dia, chorou. Todo aquele cenário ilustrava a situação grave que estava a viver, e ela nem sequer tinha noção de como o mundo se estava a pôr, com as cidades estavam a ficar desertas, com as pessoas se estavam a começar a viver fechadas em casa.

"As lágrimas começaram a cair-me. Parecia um sítio de guerra, com tropa a tirar infetados. Parecia um filme e não a vida verdadeira", conta a portuguesa de Marco de Canavezes.

Esperou uma semana e quando o resultado positivo chegou já se sentia bem. "Nunca me assustei muito, o pior já tinha passado. Trato-me bem, tenho cuidado com o corpo, com a minha saúde... O paladar e o cheiro é que, passado este tempo todo, ainda não está a 100%."

Quando ouviu falar que os convalescentes de covid-19 podiam doar plasma para um tratamento experimental destinado a infetados, não pensou duas vezes. "É o que posso fazer para ajudar, dizem que o plasma pode ser usado para fazer remédio para quem tem a doença."

São cerca de 20 minutos a tirar sangue, mas o processo de separação do plasma demora hora e meia.

Os tempos que se vivem são tristes e Isabel já não liga a TV mais do que 15 minutos, não quer ver mais tristezas. "Quando foi o 11 de Setembro fiquei doente. Não voltava a aguentar isso."

A pandemia de covid-19 obrigou Neomar Cardoso, 42 anos, a fechar a empresa de eletricidade até que melhores dias surjam. Mas não ficou de braços cruzados - com mais tempo livre, aumentou substancialmente as horas de voluntariado como condutor de ambulâncias.

E a comunidade agradece-lhe o esforço. O reforço nesta área faz muita falta num estado tão devastado pela pandemia. Os bombeiros são solicitados a todo o instante e, como se não bastasse, muitos estão agora afastados das funções por serem pessoas de risco. Se antes Neomar oferecia sete horas de trabalho semanais à comunidade, agora até se perde a conta - na semana passada já tinha trabalhado três dias, com jornadas de 12 horas.

A vontade de ajudar, de poder fazer alguma coisa, alivia-lhe o cansaço que poderia sentir. "Estou a dar o que posso. Mas há tanto para fazer. Espero que isto abrande e que as pessoas sejam conscientes do que estamos a passar. Têm que pensar que este vírus não escolhe idades, apanha qualquer um, e que têm que se manter isoladas."

Mas há o fardo emocional desta tragédia planetária e esse custa mais a aliviar. As mortes pesam. Sejam novos ou velhos, pensam muito a quem fez tudo para salvar uma vida e não conseguiu. No dia em que falámos, ao meio dia (hora local), Neomar tinha conduzido a ambulância até à casa de um idoso de 95 anos que já tinha regressado do hospital há uma semana, mas que voltou a ter febre. "Morreu antes de chegarmos ao hospital. Fizeram-se manobras de reanimação, mas não houve hipótese."

"Não há palavras para o que estamos a viver neste momento. Olhe, é muito triste."

A voz soa com emoção ao telefone. "Não há palavras para o que estamos a viver neste momento, não há descrição. Olhe, é muito triste, não faz sentido."

Este luso-descendente, com raízes em Vagos, mas que nasceu na Venezuela e que vivem em Pleasanttville, está também a tirar o curso de paramédico. Na sua opinião, era preciso testar mais pessoas e fazer o controlo dos locais onde estiveram e com quem estiveram, ou seja, refazer o percurso de cada um.

"O que temo é um segundo surto lá para outubro. Se não estamos preparados, o meu receio é que poderá ser muito pior. Só Deus o dirá! E os governantes, como vão lidar com isto?"

Na região onde vive, há três hospitais para doentes covid e não há camas suficientes para tanta gente - a sua corporação, que recebe mais de uma dezena de chamadas diárias de suspeitas ou casos do novo coronavírus dispensou três ambulâncias com o equipamento necessário para transportar estas pessoas.

A empresa de eletricidade de Neomar está parada, mas os oito funcionários, diz, estão a receber. Os prejuízos são muito elevados, perguntamos. "Sem comentários! Não sou só eu, há muitos na minha situação. Espero que toda a gente ponha os pés no chão, que não se fechem as companhias depois dos empréstimos, porque senão a crise será muito grande, global."

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