Do gorila na areia ao museu em Abu Dhabi. A história do arquiteto que "nasceu" nas construções na areia

Muitos sonhos nasceram nas areias das praias onde, desde 1952, o DN deu asas à imaginação de milhares de crianças. Aqui fica a história profissional e de viagens de um miúdo que com 10 anos mostrou as suas qualidades em Buarcos.

Foi o gosto pelo desenho que levou José Pedro Silva a pedir ao pai para o inscrever no concurso Construções na Areia que ia ter lugar no areal da praia de Buarcos (Figueira da Foz). Sem o saber estes foram os primeiros passos para uma carreira como arquiteto que já o levou a participar na projeção do Museu Nacional de Abu Dhabi, a trabalhar com Siza Vieira, a integrar gabinetes de arquitetura em Nova Iorque a agora a fazer parte do gabinete de Norman Foster, em Londres. Além de uma vida de viagens pelo mundo que o ajudam a esquecer a desilusão sentida pelo país onde nasceu.

Mas comecemos pelo princípio. Estávamos em 1995, José tinha 10 anos e imaginação suficiente para decidir não "ir na onda" das esculturas "normais": castelos e conchas. "Foi a primeira vez, estávamos de férias, vi qualquer coisa sobre construções na areia [esta iniciativa do DN teve a sua primeira edição em setembro de 1952] e pedi ao meu pai para me inscrever, a mim e ao meu irmão. E eu disse que ia fazer uma coisa diferente - um gorila. Foi fácil", recorda agora ao DN passados 25 anos dessa manhã. Um quarto de século em que cumpriu um dos seus sonhos e vai concretizando outro: é arquiteto e viaja. Muito e com muitas aventuras pelo meio.

José está agora em Londres no escritório da Foster+Partners no que é mais um passo de uma vida que já o levou, por exemplo, a EUA, Brasil, Peru, Bolívia, Patagónia, a fazer a travessia de barco entre a ilha francesa de Saint Martin e Toulouse (França), Dubai, Japão.

Uma bicicleta como prémio

Londres é agora o "mundo" deste arquiteto que na manhã de 13 agosto de 1995 surpreendeu o júri constituído pelos pintores Cunha Rocha, Tísha e João Ricardo. No DN do dia seguinte pode ler-se: "Apareceram aqui trabalhos realmente muito bons, alguns indiciadores de interessantes talentos. (...) Embora deva ser sublinhado O Gorila, do José Pedro Silva, do escalão dos mais novos, que, indiscutivelmente, justificava "um prémio à parte"."

"Toda a gente estava a construir a mesma coisa e eu disse que ia fazer uma coisa diferente. Foi simples fazer a estrutura [do gorila] na areia", explicou José Silva ao DN. Uma aposta que teve como prémio, além dos elogios, uma bicicleta. "Fiquei todo contente", diz.

Aos 10 anos começava assim a dar os primeiros passos a carreira de arquiteto que, na realidade, nem era uma surpresa para José e família. "Desde pequeno que diziam que tinha muito jeito para desenhar e que ia entrar em Belas-Artes ou Arquitetura. A minha obra final no secundário foi a maqueta de uma casa. Sempre disse que queria ser arquiteto", conta na conversa mantida desde Londres.

José diz que esta "vida de arquiteto é muito cansativa", mas depois fala da sua outra paixão e aí "perde-se" nas recordações. "Gosto muito de viajar. Aos 19 anos pedi o carro emprestado ao meu pai e fui até Pompeia. Joguei ténis, ganhei alguns torneios, e assim viajava", explica. Aliás, este não é o único desporto que pratica: escalada, esqui, vela, mergulho, kitesurf, fazem parte dos gostos desportivos deste natural da Covilhã, cidade onde estudou até ao final do secundário. Aliás, o currículo académico de José é também bem diversificado: depois do secundário, seguiu para Viseu onde fez a licenciatura e o mestrado em Arquitetura no polo da Universidade Católica e frequentou um ano letivo na Universidade de Bolonha ao abrigo do programa Erasmus.

Em termos profissionais o seu percurso começou no ateliê de Siza Vieira - "foi uma boa experiência, ele pagou-me. Estive lá um ano e três meses e tive a oportunidade de fazer parte da equipa que participou no concurso para o projeto de Alhambra [em 2011 Siza Vieira com o arquiteto espanhol Juan Domingo Santos venceu o Concurso Internacional de Ideias Átrio da Alhambra, para a criação de um acesso e centro de visitantes para o complexo da Alhambra de Granada, Espanha] - passou depois por Nova Iorque e regressou à Europa, a Inglaterra. Aí trabalhou em alguns escritórios de arquitetura até chegar à Foster+Partners, onde está há mais de três anos. Neste, fez parte da equipa que acompanhou a construção do Museu Nacional em Abu Dhabi.

Machu Picchu e a covid-19

Se a arquitetura é uma das paixões de José Pedro Santiago da Silva não é, como já se escreveu, a única. Passear, conhecer países e regiões seja a pé ou de mochila às costas, ensinar esqui na Patagónia ou fazer a travessia do oceano Atlântico de barco, também fazem parte do seu portfólio.

"Depois de ter estado em Nova Iorque, decidi ir visitar o meu irmão ao Rio de Janeiro [Brasil]. Devia ter sido dois meses e acabei por demorar dois anos e meio. Andei a passear pela América do Sul, sempre sozinho. Subi a Machu Picchu, fui à cidade Cerro de Pasco que está a mais de quatro mil metros de altitude e é conhecida como a cidade mineira. Foram 15 dias de mochila às costas e a acampar na floresta", recorda, acrescentando: "E fui instrutor de esqui na Patagónia. Uma pessoa começa a viajar pela América do Sul e não para."

Aventura passada, era hora de regressar à Europa e até aí optou por uma viagem diferente: "Fiz a travessia de veleiro com um médico norueguês. Ele foi para o Brasil com o filho, que depois não podia regressar com o pai. Falámos e fui ter com ele à ilha francesa de Saint Martin, realizei uns testes e fizemos a ligação Saint Martin-Bermudas-Açores-Toulouse. Aí tive de o deixar pois tinha uma proposta de trabalho que tinha sido difícil conseguir depois de tanto tempo parado - nas entrevistas queriam sempre saber a razão de ter estado tanto tempo parado."

E é neste novo passo profissional que vai trabalhar para Abu Dhabi acompanhando a construção do museu nacional. E é aqui que tem mais uma história para contar: foi infetado com a covid-19. "Passei mal, tive sintomas durante quatro meses."

A desilusão portuguesa

José Silva saiu de Portugal há alguns anos, vai cumprindo os seus sonhos e participando em projetos de dimensão mundial, mas também foi uma decisão motivada pelas poucas oportunidades que diz existirem no seu país. Onde, acrescenta, "não é dada qualquer oportunidade aos jovens. Um arquiteto ofereceu-me um ordenado de 800 euros e um contrato para voltar para Portugal. Anteriormente um outro ficou a dever-me dinheiro. É o capitalismo selvagem. Os próprios arquitetos exploram a classe, usam a mão-de-obra de estagiários e fazem concorrência desleal aos colegas". "O nosso sistema educativo dá-nos capacidades que os outros países não têm. Forma profissionais de qualidade. Não temos dificuldades em adaptar-nos num outro país. Por exemplo, a nossa arquitetura e a nossa engenharia são bastante boas. Temos pessoas competentes no país, mas depois quem está à frente diz "vem aí a Champions"", lamenta.

"A abstenção [nas eleições] devia servir para alguma coisa. É a forma de mostrarmos o descontentamento. Já não acredito nas pessoas que estão nos partidos. O sistema político tem de mudar. Acho que já nem devia haver partidos. Deviam chamar as pessoas pela competência e não pelo partido. As pessoas estão cansadas."

Desilusões à parte, José Silva vai continuar em Londres, desta vez envolvido num projeto para a construção de quatro hotéis na Arábia Saudita. "Numa ilha que querem tornar turística", conta.

É mais um passo numa carreira que começou há 25 anos em Buarcos com um gorila na areia e que segundo o júri merecia um prémio à parte pela sua sensibilidade, facilidade, rapidez e vivacidade".

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