Ficar ou não no Flamengo. Jesus mantém tabu com olho num grande da Europa

Jesus ouviu deputados, vereadores e governadores pedirem-lhe para ficar. Mas a ideia passa por treinar um clube de topo europeu. "Decisões profissionais não são afetivas", disse, mantendo para já o suspense.

Jesus fica ou não no Flamengo? É a questão do momento no Brasil e para o qual o treinador português mantém para já o tabu. O técnico vencedor da Libertadores e do Campeonato Brasileiro no espaço de 24 horas tem contrato até maio de 2020, mas uma cláusula no vínculo assinado no verão permite-lhe sair já no final de dezembro, sem custos para nenhuma das partes. Fonte próxima do treinador disse ao DN que a saída do Flamengo pode ser uma realidade e que a prioridade passa por um clube europeu onde possa ganhar títulos e lutar pela Champions.

Na cerimónia desta segunda-feira na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em que foi condecorado com o título de cidadão honorário da cidade, Jesus ouviu vereadores, governadores e deputados federais pedirem-lhe para ficar no Flamengo. O treinador português, no discurso emocionado que fez a seguir, não pegou no tema. Mas na conferência de imprensa que se seguiu à cerimónia não teve como fugir ao assunto perante a insistência dos jornalistas, mantendo o tabu e dando a entender que a sua decisão só será tomada depois do Mundial de Clubes, competição que se realiza neste mês de dezembro no Qatar.

É certo que a homenagem tocou forte no coração do treinador de 65 anos, mas, ao que o DN apurou, a decisão que irá tomar depois de o Mundial de Clubes terá de ser racional. E, nesse sentido, continuar no Flamengo para disputar o Campeonato Carioca (estadual) não é muito atrativo, como tal terá de avaliar que rumo irá dar à sua carreira, sendo certo que a conquista do título Mundial poderá abrir-lhe ainda mais portas. Desta forma, irá depender muito das propostas que lhe aparecerem para uma decisão.

Jorge Jesus já disse mais do que uma vez - reafirmou-o no dia anterior à final da Libertadores - que mantém o sonho de conquistar a Liga dos Campeões. Contudo, o técnico está consciente de que dificilmente encontrará um clube a meio da época na Europa que lhe permita atingir esse objetivo. De qualquer forma, surge agora mais disponível para ingressar noutro clube que, apesar de não ter aspirações imediatas à Champions, lhe permita lutar por títulos noutro campeonato europeu.

E depois há a questão, muito falada no Brasil, de ser candidato ao cargo de selecionador brasileiro, no qual Tite está numa situação complicada nesta altura. Apesar de Renato Gaúcho, atual técnico do Grémio, ser outro dos favoritos, o trabalho de Jesus no Flamengo tornou-o uma espécie de candidato do povo. E ao que o DN apurou, o treinador português não exclui esta possibilidade se vier a concretizar-se, até pelo fascínio de disputar a Copa América em 2020 e de lutar pela conquista do Mundial 2022. Mas o gosto pelo treino diário deixa esta hipótese como pouco provável e dependente dos convites que for tendo nos próximos meses.

Já o regresso a Portugal será nesta altura bastante complicado acontecer como o próprio Jorge Jesus o admitiu nos festejos do último fim de semana. "Nesta altura, as portas de Portugal estão cada vez mais fechadas", assumiu. É que, ao contrário do que acontecia no passado, Jesus já se vê como um emigrante e pretende testar os seus conhecimentos num campeonato mais competitivo.

"Decisões profissionais não são afetivas"

Certo é que Jesus mantém para já o tabu, como o comprova o seu discurso na conferência de imprensa desta segunda-feira, na Câmara do Rio de Janeiro, depois de ter sido condecorado com o título de cidadão honorário da cidade.

"Não é fácil responder. Se fosse pelo coração ficaria no Flamengo. Toda a emoção e paixão conquistaram-me. Mas há outros fatores importantes na vida de um treinador. Nunca olhei para a minha carreira na componente económica, mas sim na desportiva. Se fosse económica não tinha vindo para o Brasil. No futuro se calhar será uma componente que vou valorizar, mas vamos passo a passo, vendo o que é melhor para mim e para o Flamengo. Decisões profissionais não são afetivas", atirou Jesus.

O treinador português deixou a entender que a decisão não está para breve. O Flamengo tem mais um título para conquistar neste mês de dezembro, o Mundial de Clubes que se realiza no Qatar, e só depois deverá desfazer o tabu. "No Brasil aprendi muita coisa e tenho aprendido com um povo muito carinhoso. Nós não somos assim. Isso é uma componente importante. Valorizo o sentimento. Não me passa mais nada pela cabeça se não estar a trabalhar no Flamengo. O que sei hoje é que vou continuar a trabalhar no Flamengo com muita certeza e empenho, pois tenho um objetivo para conquistar, o Mundial de Clubes."

Na homenagem de que foi alvo na câmara do Rio, Jesus ouviu todos, mas todos os oradores pediram-lhe para ficar. E como não podia deixar de ser, também Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, fez-lhe o mesmo pedido. "Agradeço ter saído do conforto de Portugal para resgatar a esperança e o orgulho de uma nação. Temos uma grande admiração por você. Estamos muito felizes de contar com você aqui. Sendo carioca, espero que possa continuar connosco por muito tempo", referiu. Jesus ficou sensibilizado, mas o futuro dificilmente passará pela continuidade no Flamengo.

Os vários tabus na carreira de Jesus

Os tabus sobre o futuro de Jorge Jesus não são novos. Nos seis anos que esteve no Benfica foram várias as situações em que foi falada a sua saída, desde logo no final da primeira época (2009-2010) em que admitiu a possibilidade de deixar o clube, perante os insistentes rumores sobre o interesse do FC Porto. A situação teve na altura como desfecho a renovação contratual, e consequente aumento salarial, com os encarnados, tornando-se o treinador mais bem pago do futebol português.

No verão de 2013, depois de perder todos os títulos no final da época, o técnico português esteve com um pé fora da Luz devido à contestação dos adeptos e da maioria dos dirigentes do clube. Só que o presidente Luís Filipe Vieira decidiu manter o treinador contra tudo e todos, renovando-lhe o contrato.

Essa decisão teve frutos na época 2013-2014, durante a qual conquistou o triplete em Portugal (Liga, Taça de Portugal e Taça da Liga) e foi à final da Liga Europa com o Sevilha. Depois de tantas conquistas, Jorge Jesus recebeu várias propostas para deixar a Luz. Chegou a reunir-se com os dirigentes do AC Milan, conforme o próprio admitiu, e recebeu um convite do Valência e outro do Mónaco, que acabou por escolher Leonardo Jardim. Mas, apesar de todas as notícias que foram sendo publicadas, o treinador acabou por decidir continuar.

"Estive a jantar por duas vezes com dirigentes do Milan, um deles era o senhor Galliani... Não é qualquer treinador que diz não ao AC Milan. Sou um profissional de futebol, tenho sempre de pôr a hipótese de mudar. Mas estou muito bem no Benfica", explicou na altura, lembrando que tinha mais um ano de contrato com "um dos maiores clubes da Europa em termos de história e em termos desportivos".

Agora, Jorge Jesus alimenta mais uma vez o tabu da continuidade. Mas desta num clube onde virou um autêntico ídolo dos adeptos e dirigentes, depois de devolver ao Flamengo a glória, com a conquista da Taça Libertadores e do Brasileirão. Como disse o treinador português, se fosse pelo coração ficava. Mas há outros valores que podem falar mais alto...

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