"Magalhães descobriu metade da circunferência da Terra, entre o rio da Prata e as Filipinas"

Historiador José Manuel Garcia, biógrafo de Fernão de Magalhães, explica as circunstâncias da morte do navegador, faz terça-feira 500 anos. Viagem foi um feito enorme.

É credível ter sido mesmo o líder de Mactan, Lapu Lapu, a matar Fernão de Magalhães naquele 27 de abril de 1521?
Segundo Pigafetta foi Lapu Lapu, rei da ilha de Mactan, nas Filipinas, o principal responsável pelo fim de Magalhães. De facto foi ele quem chefiou os guerreiros que o mataram, depois de se ter recusado a obedecer às suas exigências para que pagasse o tributo que lhe era exigido e se submetesse à autoridade do seu inimigo Humabon, rei de Cebu e, através deste, a Carlos V. Temos por isso de admitir que foi Lapu Lapu quem se opôs com sucesso à infeliz investida que acabou tragicamente para Magalhães.

Magalhães, sempre estratego, deixa-se envolver numa batalha entre rivais filipinos porquê?
Alegadamente Magalhães quis mostrar com um exemplo muito concreto a superioridade dos europeus, a qual era decisiva para derrotar os adversários daqueles que eram seus amigos, como era o caso do rei de Cebu. Com uma intervenção vitoriosa da sua parte, Magalhães conseguiria reforçar ainda mais o poder que tinha nesta ilha através deste soberano, que lhe obedecia, assegurando assim o domínio de Castela sobre todo aquele vasto arquipélago, onde entretanto ele concentrava a sua atenção. Apesar de nele não se detetarem riquezas, já que era falsa a crença da existência de ouro, pois esta era apenas aparente, Magalhães estaria na expectativa de que através dessa sua atuação estaria a compensar o malogro em que se estava a tornar a sua expedição. Com efeito, é de aceitar a interpretação de que Magalhães estava então desesperado em ir às Molucas pois apercebera-se de que elas estavam na parte portuguesa do mundo. Foi por isso que se foi desmotivando na intensão de lá ir. Foi assim que ele decidiu arriscar uma iniciativa que se revelou desastrosa e ia contra tudo o que lhe era exigido e fizera, com toda a correção e imensos sacrifícios. É difícil de explicar como é que uma pessoa com tanta prática militar alcançada entre 1505 e 1514, no Oriente e em Marrocos, se deixou enredar numa ação tão mal planeada e que por isso foi tão malsucedida. Tal aconteceu devido ao seu excesso de confiança, à má escolha do local de desembarque, à escassez da sua força de intervenção, constituída por escassos 49 homens que desembarcaram com dificuldade dos três batéis, que ficaram a uns 200 metros da praia, não lhes podendo por isso dar apoio logístico e de fogo de que necessitavam. Os mais de 1500 guerreiros insubmissos de Mactan conseguiram beneficiar da sua superioridade numérica e aproveitando-se do cansaço dos inimigos e do fim das suas munições mataram Magalhães e mais seis dos seus companheiros, que ali ficaram, além de terem ferido muitos mais, dos quais dois vieram a morrer. Entretanto, Magalhães havia negado o auxílio que lhe era proposto pelo rei de Cebu num ato de fanfarronice que não tinha em conta a grande superioridade numérica do adversário.

Apesar da missa católica, a primeira nas futuras Filipinas. hoje bastião cristão na Ásia, e da conversão de alguns milhares de habitantes de Cebu, esta etapa filipina foi um total fracasso tendo em conta os objetivos da viagem?
Magalhães esforçou-se por implementar o catolicismo nas Filipinas para assim reforçar o domínio castelhano dessas ilhas, o que só na aparência conseguiu fazer com um aparatoso batismo da família real de Cebu e de muitos habitantes da região. A ação evangelizadora que empreendeu em Cebu foi, contudo, muito superficial e artificial tendo desaparecido logo após a derrota de Magalhães, como se viu no terrível massacre que os europeus sofreram em Cebu, em 1 de maio de 1521, com a perda de 25 homens. Só quando os espanhóis ali regressaram, depois de 1565, é que o cristianismo começou a ser implantado, tendo-se mantido até à atualidade. Podemos por isso dizer que até esse objetivo, que não estava nos planos iniciais de Magalhães, falhou; como falhou a sua tentativa de provar que as Filipinas, tal como as Molucas, pertenceriam a Castela, o que verificou não acontecer e por isso podemos dizer que a sua missão fracassou.

Ao chegar às Filipinas, Magalhães, que já tinha andado perto ao serviço de Portugal, é o primeiro a ter consciência pessoal de a Terra ser esférica?
Quando Magalhães descobriu as Filipinas em 16 de março de 1521 e assim chegou à Ásia indo por ocidente, ele teve sempre à mão o planisfério que Jorge e Pedro Reinel lhe haviam feito em 1519 e ele ia atualizando. Teve por isso de se aperceber da dimensão da esfera terrestre, o que aconteceu porque, pela primeira vez, ele acabara de a circum-navegar na prática, ainda que de forma indireta. Com efeito, ele já antes fizera a primeira parte da volta ao mundo, pois havia ido de Lisboa às Molucas do Sul entre 1505 e 1512, estando tais ilhas numa longitude semelhante à das Filipinas, o que ele soube quando aqui esteve. Concomitantemente e de facto, ele apercebeu-se experimentalmente da esfericidade da Terra, a qual era já conhecida e aceite teoricamente desde a Antiguidade, ao ter conseguido avaliar a sua real dimensão. Tal facto ainda não pudera ser estabelecido visto não haver a consciência da dimensão do oceano Pacífico. Só depois de o ter atravessado inteiramente em toda a sua extensão é que se apercebeu, conseguindo revelar que o nosso planeta tinha mais água do que terra. De notar, contudo, que Magalhães já o teria suspeitado antes de partir para a sua grande viagem rumo ao "mar do Sul", como se deduz da forma do mundo que ficou expressa no planisfério que em 1519 ele encomendara aos Reinéis, pois nele há um grande espaço entre o início do rio da Prata e as Molucas.

O navegador, que queria provar a posse das Molucas pela Coroa espanhola, chegou a perceber que estas estavam na metade do mundo que o Tratado de Tordesilhas concedeu a Portugal?
Tudo indica que sim, considerando o rigor do registo feito pelo piloto Francisco Albo no diário da viagem que ia fazendo e é a principal base técnica da descrição da viagem que chegou até nós. Foi nesse diário que, ao chegar às Filipinas, Albo registou estarem 189° a ocidente da linha de demarcação estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas, a qual passava perto de Belém do Pará, na foz do rio Amazonas, cerca de 47º O. Eles perceberam por isso que ultrapassaram em 9º o chamado antimeridiano que passava no outro lado do mundo, isto é, haviam passado os 180º da parte espanhola do mundo e entraram uns 932 quilómetros na parte portuguesa. Esse foi o grande drama final da vida de Magalhães, pois assim se apercebeu de que errara na sua convicção expressa a Carlos V de que as Molucas seriam suas por alegar estarem na sua parte do mundo. Magalhães, quando esteve nas Filipinas, sabia que as Molucas estavam apenas a uns 10º para sul, isto é, uns 1100 quilómetros.

Caso não tivesse sido morto é credível que Magalhães, como eram as ordens de Carlos V, regressasse pelo Pacífico? Os ventos permitiriam?
Magalhães se tivesse chegado às Molucas teria necessariamente de regressar pelo oceano Pacífico, pois devia cumprir as ordens que lhe foram dadas por Carlos V, que o proibira terminantemente de passar pelas águas do oceano Índico que eram dominadas pelos portugueses. Magalhães, contudo, não voltaria pelo estreito que descobrira porque se terá apercebido de que não era possível voltar por aí, mas teria de ir para norte, para assim o atravessar rumo à América Central, de acordo com o regime dos ventos que aí era preciso descobrir. Foi essa rota que Gonzalo Gómez de Espinosa, o novo capitão da Trinidad, tentou fazer indo até aos 42° norte. Ele só não o conseguiu fazer porque não sabia que teria de seguir numa tal viagem entre junho e julho, não a podendo fazer em agosto, como tentou, pois os ventos eram então contrários. Foi por isso que ele teve de regressar às Molucas, onde foi aprisionado pelos portugueses que lá tinham ido para construir uma fortaleza e perseguir Magalhães, caso o encontrassem ali.

Como Elcano assume o comando? E que mérito tem, pois regressa à Europa pelos mares já conhecidos pelos portugueses e até navegados antes por Magalhães?
Elcano só em 16 de setembro de 1521 é que começou a capitanear a nau Victoria, de que foi o quinto capitão, quando esta já estava no Bornéu. Foi devido às circunstâncias por que passou a expedição após a morte de Magalhães que ele acabou por conseguir acabar a viagem de regresso à Europa ao ter a coragem de desobedecer a Carlos V para que não se entrasse pela parte portuguesa do mundo, a qual já havia sido percorrida por Magalhães entre 1505 e 1513. Elcano saiu das Molucas em dezembro de 1521 e navegou pelo sul do Pacífico, numa zona onde fugia aos portugueses, que estavam mais a norte. Foi por isso que Elcano realizou uma viagem que não estava planeada, tendo podido alcançar Espanha em 6 de setembro de 1522, rumando sempre para oriente, e alcançar a justa glória de ter concluído de forma surpreendente a primeira circum-navegação da Terra feita de seguida e de forma direta. A provar o facto de Elcano ter cometido uma ilegalidade ao realizar a sua viagem encontra-se a realidade de ela nunca mais se ter voltado a fazer por parte de Espanha, porque aí se reconheceu que tal não era legal .

A circum-navegação nunca foi o objetivo nem era possível por causa de Tordesilhas a não ser ilegalmente. O grande feito da expedição foi a descoberta do estreito na América do Sul e a travessia da imensidão do Pacífico?
O único objetivo que Magalhães tinha em 1519 consistia em ir às ilhas Molucas pela parte do mundo ocidental concedida aos castelhanos pelo Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, sendo que a outra metade oriental era de Portugal. Para tal efeito ele teria de passar pelo sul da América, que ele inicialmente admitia acabar no rio da Prata, que havia sido descoberto em 1514 pelo piloto português João de Lisboa. Como veio a provar-se que afinal a América não acabava ali, Magalhães teve de continuar a sua viagem mais para sul em condições muito difíceis. Foi apenas em 21 de outubro de 1520 que ele descobriu o estreito que ficou com o seu nome, o qual o levou até ao oceano Pacífico. Foi só naquele dia que ele começou a ver o túnel ao fim do qual viu a luz que foi a possibilidade de cumprir a sua missão, que era ir pelo Pacífico, então chamado "mar do Sul", às ilhas Molucas, que eram ricas na mais valiosa especiaria da época: o cravinho. Não chegou a essas ilhas porque durante a sua navegação teve de se desviar uns 10º para norte para assim apanhar ventos mais favoráveis afastando-se do equador, onde sabia que as Molucas estavam situadas. A importância do descobrimento do estreito de Magalhães está simbolizada na circunstância de Magalhães ter chorado de alegria depois de nele ter confirmado o sucesso desta fase decisiva da sua viagem e acreditou que tal feito lhe iria permitir chegar às Molucas. Nessa altura ele terá pensado que, apesar de todos os enormes sacrifícios por que acabara de passar. tinha valido a pena começar aquela viagem há mais de um ano em Sanlúcar de Barrameda, em 20 de setembro de 1519, e ter trocado Lisboa por Sevilha havia três anos, em outubro de 1517. A razão de ser desta deslocação e do projeto que veio a lograr concretizar em 1520 surgira em Lisboa mais de quatro anos antes, talvez entre março e abril de 1516.

Magalhães ocupa sem dúvida um lugar de topo entre os grandes navegadores, acima de Vasco da Gama e de Cristóvão Colombo? Pode fazer-se essa comparação?
Magalhães completou o processo dos Descobrimentos que os portugueses tinham começado em Lisboa cem anos antes, ao tentarem descobrir terras para sul do cabo Bojador. Antes dele os pontos decisivos do conhecimento do mundo haviam sido alcançados por Cristóvão Colombo, com a chegada à América em 1492, e Vasco da Gama, ao ter conseguido descobrir o caminho marítimo para a Índia em 1498. Magalhães acabou por completar o projeto de Colombo ao chegar por ocidente ao Oriente, onde já chegara Vasco da Gama, só que a viagem realizada por Magalhães foi muito superior à daqueles navegadores. De facto só à sua conta ele descobriu metade da circunferência da Terra, entre o rio da Prata e as Filipinas, numa distância que medida no equador ronda 20 mil quilómetros.

Até que ponto Portugal, seja o de D. Manuel I seja o de hoje, conseguiu fazer um herói de um navegador que serviu os interesses espanhóis?
A valorização histórica de Magalhães resultou da interpretação do justo significado da grandeza da sua viagem, apesar de ele ter ficado com o ónus de ter prejudicado os interesses portuguesas. O seu feito tornou-o um herói descobridor que só se pode justificar devido à sua enorme tenacidade e grande experiência, adquirida em Portugal e nas áreas da sua influência, antes de ter ido para Espanha, onde esteve menos de dois anos.

Sem o relato do italiano Pigafetta a verdade sobre a expedição de Magalhães, nomeadamente a sua determinação e coragem por oposição ao boicote dos capitães espanhóis, nunca teria sido conhecida?
A principal fonte para o estudo da viagem de Magalhães é a relação que Pigafetta acabou de escrever em 1524, na qual narrou com grande vivacidade e detalhe a expedição em que participou. Tal realidade não impede que o completo conhecimento da viagem tenha também de ter em conta outros textos que sobre ela foram escritos e ajudam a saber o que nela se passou. Só analisando e interpretando criticamente todos esses testemunhos é que podemos conhecer as dificuldades por que passou Magalhães e nomeadamente os problemas que ele teve de enfrentar com uma grande tenacidade, como foram os que lhe colocaram capitães espanhóis que contra ele se amotinaram em Puerto de San Julián, na Argentina, e que ele conseguiu ultrapassar com dificuldade

Até que ponto, pela tripulação, esta expedição foi internacional? Espanhóis, portugueses e quem mais?
Sendo evidente que a expedição de Magalhães foi da sua iniciativa e decorreu sob a sua única direção, é igualmente evidente que ela foi exclusivamente castelhana. Uma das grandes dificuldades que Magalhães enfrentou foi a de recrutar tripulantes espanhóis que quisessem arriscar a ir para um destino incerto e muito arriscado. Foi por isso que teve de contratar muitos estrangeiros. Assim temos de considerar que além de espanhóis de várias regiões da Península Ibérica, no número total de 137 homens, foi preciso recrutar 33 portugueses (além dele); 24 italianos; 19 franceses; nove gregos; cinco flamengos; quatro alemães; dois irlandeses; um inglês, além de alguns homens de outras origens. Pode pois dizer-se que foi uma realização europeia embora sob a completa responsabilidade de Castela. É por isso que defendemos que se deveria erguer um memorial que honrasse a lembrança de Magalhães e dos seus companheiros que realizaram a mais admirável viagem marítima de todos os tempos e alcançaram assim um feito tão grandioso como foi o de mostrar pela primeira vez a Terra tal como ela é. Magalhães tornou-se um símbolo da mundialização ao ter realizado a sua famosa viagem ao serviço de Castela em que veio a culminar os Descobrimentos.

leonidio.ferreira@dn.pt

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