Família Khashoggi: o médico do rei Saud, o playboy traficante e o amante de Diana

De origem turca, a família do jornalista morto no consulado inclui personagens coloridas e uma ligação à família Bin Laden, bem como a Donald Trump.

Em 1980, Jill Peck era uma manequim californiana de 21 anos em ascensão, que aparecia em revistas de moda francesas como Marie Claire e Vogue. Convidada pela sua agente a deslocar-se a França, foram a uma festa em Cannes.

Quando deu por si estava a dançar com um homem que lhe fazia lembrar um "amigo do pai", "de baixa estatura, barriga redonda e careca". Na euforia do momento, atiraram cadeiras para a fogueira - os convivas bebiam champanhe e desfaziam-se dos copos -, e com a ajuda de um empregado vestido de pirata pegaram em Jill pelas mãos e pelos pés e balançaram-na. "Rendi-me totalmente ao espírito, eufórico com liberdade", contou ao New York Post quando do lançamento do seu livro de memórias. E se assim estava mais ficou quando o homem que ainda não se tinha apresentado lhe escreveu no braço "amo-te", com os dedos em sangue.

Um iate icónico

O homem era Adnan Khashoggi, na época um dos homens mais ricos do mundo. No dia seguinte, Jill e a agente foram jantar ao seu iate, o Nabila, nome da filha de Adnan e de uma das suas mulheres, Soraya, o navio era à época um dos maiores do género e palco de festas míticas que juntava celebridades, milionários e mulheres vistosas durante dias seguidos. Foi muito mais famoso do que a filha Nabila, uma atriz e produtora que se estabeleceu em Hollywood mas sem ter passado de papéis secundários em fitas igualmente de segunda ordem.

Já o Nabila foi imortalizado no filme da saga 007 - Nunca Digas nunca e na canção dos Queen Khashoggi's Ship, do álbum The Miracle.

Quando os negócios começaram a colapsar, o Nabila passou para as mãos do sultão do Brunei, que o vendeu a Donald Trump. O empresário norte-americano deu-lhe novo nome, The Trump Princess. Mas em 1991 também ele se viu obrigado a vender o iate quando a exploração dos casinos o levou a declarar falência. (A propriedade do iate não foi a única coisa em que Adnan e Trump coincidiram: dois anos mais tarde, o saudita foi um dos convidados do casamento de Trump com Marla Maples).

O iate foi de novo para mãos sauditas, para o príncipe Alwaleed bin Talal, e agora chama-se Kingdom 5KR. Coincidência, Jamal Khashoggi fez parte do círculo de Alwaleed bin Talal, um dos homens mais ricos do mundo. Investidor na banca e em empresas como a Euro Disney, o Twitter ou a empresa de media Rotana (aqui como proprietário), contratou Jamal para diretor do canal Al Arab.

Com sede em Manama, capital do Bahrein, o canal, que tinha autorização para "funcionar livremente", segundo as palavras do jornalista ao The New York Times , arrancou em 2015. Mas não durou um dia, após ter dado voz a um líder da oposição daquela pequena monarquia. "A emissão foi interrompida por razões técnicas e administrativas. Voltamos em breve", anunciaram no Twitter. Mas tal não aconteceu.

No ano passado, novo e humilhante revés para Alwaleed bin Talal. O príncipe bilionário foi preso em resultado de uma investigação anticorrupção comandada pelo príncipe herdeiro Mohammad bin Salman. Os observadores viram a jogada como um exercício de afirmação de poder de MBS, como o herdeiro é conhecido. Afastado dos microfones, Jamal Khashoggi autoexilou-se nos EUA pouco antes da purga.

De regresso a 1980. Quando Jill aceitou ser uma das "mulheres de prazer" de Adnan não fazia ideia, nem queria fazer, de que negócios tratava o seu amante. O homem contara-lhe como começou a fazer fortuna: enquanto estudante nos EUA vendeu camiões para o país natal. Um dos principais clientes era o milionário da construção civil Mohammed bin Laden, o pai de Osama bin Laden.

Numa outra tangente, nos anos 1980 Jamal Khashoggi entrevistou o líder da organização terrorista quando este era um combatente antissoviético no Afeganistão e, já nos anos 1990, no Sudão. Segundo a BBC turca, Khashoggi mantinha uma relação próxima com o príncipe Turki al-Faisal, que dirigia os serviços de informação sauditas, o que terá facilitado o acesso a Bin Laden.

Foi a vender armas para a monarquia saudita que o tio de Jamal fez rios de dinheiro, mas também como intermediário em muitos outros negócios, da Líbia à Índia, do Iémen ao escândalo Irão-Contras. Além do iate e de um avião a jato, Adnan detinha propriedades em França, Espanha, Quénia e Estados Unidos.

A sua estrela começou a perder brilho quando o reino saudita fechou a torneira, alguns investimentos revelaram-se desastrosos e fez negócios ilegais com a filipina Imelda Marcos (esteve detido durante três meses na Suíça). A sua imensa fortuna foi encolhendo até à sua morte, no ano passado.

A vida dupla de Jill, no harém do milionário e como modelo, terminou em 1982. Hoje responde por Jill Dodd, é uma empresária de sucesso - a proprietária da marca Roxy - e assume no livro The Currenncy of Love a relação incomum que manteve.

Kasikci da Capadócia

A família Khashoggi é originária da Capadócia. O nome original da família é Kasikci. O avô de Jamal, Muhammad Khashoggi, foi o médico pessoal do fundador do reino da Arábia Saudita, Abdulaziz al-Saud, ou Ibn Saud.

Além de Adnan, Muhammad e a mulher saudita, Samiha, tiveram cinco filhos. Uma das filhas, Samira, foi escritora e casou-se com o milionário egípcio Mohamed al-Fayed. Da relação nasceu Dodi Fayed. O primo de Jamal Khashoggi, com Diana Spencer, a princesa de Gales, viveu uma relação amorosa que terminou de forma dramática, em 1997, num acidente de automóvel em Paris.

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