O livro monstruoso sobre o Brasil que já pode ser lido em Portugal

Guimarães Rosa publicou em 1956 Grande Sertão: Veredas, mas só agora é editado em Portugal. O autor de um dos grandes estudos sobre o romance, Silviano Santiago, veio apresentar a obra que considera "monstruosa".

Quando se quer encontrar um paralelo ao romance que João Guimarães Rosa publicou há 63 anos, há quem confronte Grande Sertão: Veredas com a dimensão de Ulisses, de James Joyce, ou do poema Waste Land, de T.S. Elliot. É o caso do especialista em João Guimarães Rosa, Silviano Santiago, autor um ensaio para celebrar os 60 anos da publicação do romance e que esteve em Lisboa para apresentar a edição portuguesa de um dos maiores clássicos da literatura brasileira.

Até há poucos dias, Grande Sertão: Veredas nunca teve direito a uma edição nacional, apenas a uma publicação em fac-símile em 2014, e Santiago não se espanta com esse ineditismo pois a obra também enfrenta dificuldades no seu próprio país. Quando se evoca o abandono do livro pelo poeta Ferreira Gullar à página 70, Santiago explica: "E no entanto ele tinha publicado um extraordinário livro de poemas de vanguarda, A Luta Corporal, dois anos antes. Para ser sincero, Gullar nunca foi um leitor de prosa, só de poesia; não tem um texto sobre prosa nem sobre Graciliano Ramos, autor sobre o qual todo o pessoal da esquerda escreve. Ele sabia que estava condicionado ao enfrentar uma prosa tão audaciosa, mas é um escândalo o que ele fez, de uma irreverência absurda."

Para o ensaísta, professor e escritor, vencedor da edição 59.ª do Prémio Jabuti com o romance Machado (sobre Machado de Assis), quem melhor escreveu sobre Grande Sertão: Veredas foi Paulo Mendes Campos: "Fê-lo poucos dias depois de ser publicado e numa revista popular, a Manchete, mas ele era um tradutor preparado para saber o que significava aquele objeto." Acrescenta que a grande contestação ao livro vem da parte dos nordestinos: "Aquilo anarquizava todo o esforço do regionalismo dos anos 1930 no Brasil, que introduziu o nordeste num país cuja configuração nacional o excluía."

Silviano Santiago tem um exemplar da edição original de 1956 que um amigo lhe ofereceu: "Ele não era capaz de o ler e disse-me que eu iria gostar." Está repleto de anotações: "Leio esse livro desde 1961." Não nega que o romance seja um marco na literatura brasileira, pelo contrário, define Grande Sertão: Veredas como um romance de "uma luxúria vocabular, que é uma outra proposta e, além do mais, Guimarães Rosa põe o pé na história do Brasil com um peso que os outros querem ter mas não são capazes".

Ao fim de seis décadas de publicação, Silviano Santiago considera que o livro também é "uma autobiografia de quem não a pode escrever" e que recusa "uma visão ufanista do Brasil", mas a "genialidade" do escritor "é ter escolhido [como cenário] um enclave ao lado de Brasília, contrapondo o mais moderno e o mais arcaico do Brasil. Brasília é uma cidade moderna, mas não é nossa contemporânea, já o Grande Sertão: Veredas não é um romance moderno mas é nosso contemporâneo".

Daí que a atualidade do romance tenha vindo novamente ao de cima devido à situação política e social do país e à questão da violência nas favelas ou nas prisões - "que são verdadeiros enclaves", diz. Acrescenta: "A grande peça de teatro, a de maior sucesso e premiada há dois anos, foi a de Bia Lessa sobre a obra Grande Sertão: Veredas, que é uma versão de enclave do Grande Sertão e que coloca entre os espetadores e o palco uma grade que os separa."

O que acha de Grande Sertão: Veredas demorar 63 anos a ser editado em Portugal?
É importante dizer que mesmo na literatura brasileira Grande Sertão: Veredas é uma figura monstruosa. Acho que esta é a melhor imagem para descrever o livro, porque é o romance brasileiro que inventa uma forma de literatura que passa a ser o ideal de todos aqueles que escrevem. Nesse sentido, apesar de ser um romance em que podemos detetar com alguma dificuldade uma definição geográfica e histórica, ele tem uma trama que é tradicional desde os tempos coloniais, que é a visita de um estranho ao coração do Brasil. Apesar disso, Guimarães Rosa conseguiu transformá-lo numa grande alegoria, de tal modo que não é literatura regionalista e descola desse registo apesar de o tentarem fazer.

O que acrescenta à língua portuguesa?
Acho que é um livro que também reinventa a língua portuguesa e fá-lo não da maneira como no século XIX José de Alencar faz, porque Machado de Assis não reinventa, é um clássico, ou como Mário de Andrade tentou em Macunaíma, porque estas foram reinvenções feitas através de modismos da língua falada no Brasil. É como se esses escritores estivessem trabalhando com uma língua portuguesa exótica e isso é fácil de assimilar e compreender, existe até o dicionário Aurélio, que se chama Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, que contém os neologismos que são introduzidos. Essas tentativas são perfeitamente assimiláveis, mas um indivíduo como Guimarães Rosa, que decide inventar a língua portuguesa por arrogância porque acha que chegou ao ponto semelhante de figuras como Camões, Shakespeare e Dante. Quis inventar uma língua, tornar o português uma espécie de língua que transcendesse as próprias circunstâncias geográficas e históricas.

Quando o livro é publicado é lido por uma minoria...
... Sempre foi assim...

... é olhado mais como um objeto de arte, faz parte da cultura literária ou é uma curiosidade?
O próprio Guimarães Rosa não faz parte de cultura brasileira - o que é extraordinário -, porque é um homem singular na nossa literatura, daí que eu o recuse classificar como vanguardista. Ele não trabalha em grupos ou a partir de manifestos, nunca o fez. Por exemplo, o Oswald de Andrade tem o Manifesto Antropófago que justifica o que ele fez em termos de linguagem. Guimarães Rosa é de uma singularidade absoluta e nunca fez parte da vida literária nem das panelinhas, por isso surge de uma maneira abrupta com essa figura monstruosa que é o romance e que além do mais tem 600 páginas.

Antes de o escrever faz a preparação com Sagarana?
Sim, e que, como Fernando Pessoa, ficou em segundo lugar no concurso. Graciliano Ramos, que estava no júri, vem dizer que foi lamentável porque detetara que seria o trabalho de um grande autor, mas a edição de Sagarana é escrito nos anos 1930 e é regionalista. Ele inventa-se a si mesmo ao mesmo tempo que inventa a língua portuguesa e dá-se conta de várias situações ao mesmo tempo, e aí essa arrogância leva-o a escrever um romance que, obviamente, é regionalista porque trata de um enclave muito bem definido e a poucos quilómetros de Brasília, mas escreve com a mesma pretensão que tem Camões quando no meio de Os Lusíadas faz o canto sobre a Máquina do Mundo; com a mesma pretensão de Jorge Luis Borges quando escreve a Biblioteca de Babel com a figura de Aleph. É chocante porque Grande Sertão: Veredas é um livro que se lido só como regionalista fica apoucado, porque tem uma dimensão alegórica que vai muito além do que chamamos literatura regionalista, que é uma tendência que vem de Tolstoi ao dizer que se conhece melhor o vilarejo onde se vive do que o mundo. Ele não quis isso, teve os dois objetivos, e escreve sobre um pequeno enclave de que não participa, antes é um visitante. O livro é uma autobiografia de um indivíduo a que nós, brasileiros do litoral, não temos acesso. Isso é que é estupendo.

Quis afrontar a elite cultural?
Ele é muito maior do que isso. Ele tem a arrogância de James Joyce a escrever Ulisses ou como T.S. Elliot em Waste Land e decide trabalhar com toda a memória do mundo.

Como chega lá?
Acho que Guimarães Rosa inventa-se a si mesmo e em simultâneo à literatura, e esta terá de ser compreendida a partir das audácias dele. É o que poderíamos chamar um clássico moderno, o que inventa o seu leitor. Quem conseguir ler Grande Sertão: Veredas, gostar e admirar, é um leitor inventado por Guimarães Rosa. Que será diferente do leitor de Machado de Assis, e isso é que é fascinante nele, porque ele inventa o leitor e este inventa-se também enquanto leitor. Ele era uma pessoa muito secreta e não sabemos praticamente nada sobre a sua vida pessoal. Era essa figura singular, sem amigos literários e em que a maior parte da correspondência é com os tradutores e com colegas do Itamaraty [Ministério dos Negócios Estrangeiros brasileiro]. Que é muito pouco material, mesmo que confesse certas fraquezas, sobretudo o facto de ser muito vaidoso.

Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa

Editora Companhia das Letras

469 páginas

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