Exclusivo Três balas, duas viaturas, uma tradição

A verdadeira batalha informativa trava-se em plena estrada, e em directo.

Após a semana de hiperventilação com as peripécias de Alcochetegate, uma curta mas penosa letargia desceu sobre os canais noticiosos. Os comentadores no estúdio puderam continuar a falar do caso como se fosse o evento mais complexo e relevante desde a Guerra do Peloponeso, mas os repórteres no terreno viram-se subitamente órfãos de garagens para monitorizar ou vidros fumados para descrever. O vazio foi preenchido por um trágico deslizamento de terra, e a transição simbolicamente assinalada pela TVI24, que destacou a mesma repórter para cobrir os dois acontecimentos. A mesma voz que garantira não saber o mesmo que nós também não sabíamos sobre o que se passava dentro do prédio de Bruno de Carvalho materializou-se horas mais tarde na Estrada Nacional 55 para garantir não saber o mesmo que nós também não sabíamos sobre o que se passara na pedreira de Borba. Uma peça de reportagem intercalar ouviu alguns depoimentos. Um dos entrevistados foi um geólogo, cuja explicação sobre o sucedido foi meticulosamente editada para não esclarecer ninguém. Logo de seguida ouviu-se um habitante local, que disse já adivinhar há vários anos que "aquilo um dia ia tudo abaixo". "E agora sente que tinha razão, não é?", perguntaram-lhe. "Pois é", respondeu, com um sorriso modesto. Não fossem os espectadores pensar que alguma destas duas opiniões estava a ser privilegiada em detrimento da outra, ambas receberam exactamente o mesmo tempo de antena.

Mas a verdadeira batalha informativa trava-se em plena estrada, e em directo. Fortalecida por vários dias de experiência a relatar as idas e vindas de várias viaturas entre o tribunal do Barreiro, esquadras da GNR e residências de ex-dirigentes desportivos, a repórter não deixava passar um único veículo motorizado sem o denunciar. "E agora... como podemos ver nas imagens... está aqui a passar uma viatura... e... lá ao longe... creio que... exacto... é uma segunda viatura que se aproxima... e que agora está também... aqui a passar." Sabíamos quem conduzia estas misteriosas viaturas? "Não sabemos ao... ao certo... se são viaturas que vão... participar... nas operações de resgate." Sabíamos ao menos para onde iam, ou com que propósito? "Nem sabemos... para onde se dirigem." Podemos não saber imensas coisas sobre aquelas viaturas, mas não as podemos acusar de não serem notícia: ali estavam elas, na televisão, a ser noticiadas.

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