Sem armas ou com que armas…

Interrogo-me, por vezes, qual o lugar da identidade nacional neste mundo que se vê ironicamente tanto mais globalista quanto ameaçado de nacionalismos. Portugal tem tido uma identidade coesa e respeitada, fruto também dos seus séculos de história pelo mundo, que nos tem permitido um certo sossego em relação à questão. No entanto, na conjuntura mundial em que vivemos, temos de ter consciência de que um país será tanto mais competitivo quanto mais capaz for de gerir coletivamente a imagem que projeta.

No presente, a par da imagem de país de clima ameno e solarengo, conseguimos projetar, por via da recuperação económica e social, a imagem do país que bateu o pé à austeridade, com uma solução governativa em que o diálogo impera. O bom desempenho dos setores ligados ao turismo (a par de outros rankings...) evidencia a saúde da nossa imagem externa. Somos o país que passou de vítima minoritária de uma crise financeira global a apanágio de novas e inovadoras soluções políticas e económico-financeiras.

Já o futuro constitui um desafio: o de sermos capazes de definir, conjuntamente, uma imagem e um élan para o nosso país que, de acordo com a nossa peculiaridade, nos possibilite manter os níveis atuais de projeção internacional positiva. Uma resposta possível a esse desafio é definitivamente a nossa tradição de tolerância e de comunhão de culturas. O nosso percurso de nação intermediária de civilizações, o pioneirismo histórico da nossa tradição legislativa, capaz de conseguir traduzir o consenso em lei, e ainda a nossa histórica Revolução dos Cravos permitem-nos poder projetar uma imagem de vanguarda equilibrada. A modernidade, em Portugal, convive com os já velhos e brandos costumes. Importante será conseguir preservar essa atitude e cultivá-la.

A nova lei das armas, aproveitando a transposição de uma diretiva comunitária sobre requisitos técnicos, mostra precisamente essa nossa capacidade de refletir legislativamente sobre os costumes que herdámos. É certo que quase tudo pode constituir uma arma, pois até a palavra, como a história nos ensinou, pode ser letal na voz errada. Mas foi esta nossa capacidade de legislar pioneiramente que levou a que não tenhamos de enfrentar os terríveis massacres, com armas cada vez mais destrutivas e perpetrados por cidadãos aparentemente inócuos, que os Estados Unidos, por exemplo, com uma frequência assustadora, enfrentam.

A nova lei das armas atualiza o contexto da arma, recusando-lhe a banalização, mas permitindo-lhe a identidade, enraizada em práticas recreativas, desportivas, económicas, de colecionismo e defesa pessoal, desde que regulamentada. Trata-se apenas de, por questões de segurança, assegurar a adequação e implementação de mecanismos preventivos de controlo. A arma, ao mudar de proprietário por herança, por exemplo, não acarreta necessariamente consigo o contexto da idoneidade e da formação de quem a legou.

A luta sem armas tem sido a luta das minorias. Hoje mesmo, 25 de novembro, decorre a Marcha do Dia Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra as Mulheres. Que imagem deverá Portugal projetar de si mesmo? Precisamente a do país que luta pela cultura da paz, da tolerância e dos direitos de todos. Pois essa é a verdadeira luta pela paz e esta será para Portugal, no combate pelo reconhecimento global, certamente uma arma.

Deputada do PS

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