Para vencer o lado de lá é preciso unir o lado de cá

Com a crise de 2008, apanhados na adesão à economia de mercado e à globalização, os socialistas viram-se numa crise de identidade pressionada pelo aparecimento de partidos defendendo ortodoxias e posições críticas do capitalismo. Surgiram, dentro desses partidos, duas tendências conflituantes. De um lado, os que consideram que os socialistas não podem perder o centro onde se ganham eleições, que ser de esquerda não é incompatível com a economia de mercado. Para estes, os partidos à direita são parceiros de um consenso europeu e atlântico que a esquerda radical vem negando. De outro, os que consideram que esse posicionamento é uma traição, que a única forma de construir uma alternativa é a polarização. Para estes, os partidos à direita são representantes de um capitalismo tão nocivo e destruidor que se sentem mais próximos da outrora distante esquerda radical.


Há quem distinga estas tendências dizendo que a segunda é leviana enquanto a outra é responsável. É uma forma ingénua porque ignora as dificuldades dos socialistas em se demarcarem dos partidos à direita. É uma posição menos popular, à conta dos desaires eleitorais recentes e do crescimento dos partidos à esquerda, mas que viu na eleição de Macron uma certa confirmação.


Há quem as distinga dizendo que a segunda é ideológica, o regresso à verdadeira esquerda, enquanto a outra só está focada em ganhar eleições. É uma forma enviesada porque deslegitima o socialismo moderado. É uma posição mais popular, até nas novas gerações, e que tem levado à abjuração de Blair e de Schröder e à divinização de Corbyn ou de Sanders.


A tensão entre estas tendências vai produzindo resultados diversos consoante os contextos. E mesmo que a segunda não seja a vencedora, bastou a sua existência para transformar estes partidos, encostando-os à esquerda: a geringonça, impensável há uns anos, é um exemplo, assim como a estranha união entre socialistas espanhóis, populistas bolivarianos e independentistas, ou a redução dos socialistas franceses a uma expressão de socialismo radical ou a conversão do Labour ao programa económico dos anos 1970.


O mais provável é que esta tendência se consolide, encostando os partidos aos seus rivais à esquerda, procurado neutralizá-los, nem que seja com abraço de urso. E isso deve-se também à circunstância de a direita, por motivos distintos que já analisei, sofrer processo semelhante: a polarização de um lado justifica a do outro, num círculo vicioso em que os lados se radicalizam para ganhar ânimo para o combate.


É um caminho errado e a lamentar. Porque ou o espaço político moderado, de direita ou de esquerda ou de centro, onde se ganhavam as eleições, desapareceu, radicalizou-se, o que não acredito, ou então precisará de quem o represente, programática e entusiasticamente.


Dentro dos partidos tradicionais há tanta gente a apostar na captura e sedução dos extremos, entusiasmada à procura das franjas descontentes, a achar que é por aí que se faz a nova e autêntica e genuína política, insistindo por uma polarização, que parece esquecer-se de duas coisas essenciais.


A primeira, que qualquer projeto político vitorioso e inspirador precisa de somar, não de esquartejar, dividir, numa caça às bruxas dentro do mesmo espaço político - tradição, aliás, da extrema-esquerda. Para vencer o lado de lá é preciso unir o lado de cá.
A segunda, que nada obriga o espaço da moderação a deixar-se arrastar para os desconfortáveis extremos. Se esse espaço de moderação ficar órfão, desconsiderado e até enxotado ou rejeitado, de lá virá um novo e autêntico e genuíno - e porque não radical? - projeto político.


Disso se têm esquecido os cultores da esquerdização dos socialismos. Na próxima semana, depois de ter analisado a direita e a esquerda nestes tempos de polarização, escreverei sobre as possibilidades de renascimento desse espaço de moderação.


Advogado e vice-presidente do CDS

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