Exclusivo O Livro de São Miguel

Já poucos o lêem, e é pena. Mas compreende-se: apesar de ter sido um dos grandes best-sellers do século XX, O Livro de San Michele não vale grande coisa em termos literários. E, pior ainda, o autor é um tanto insuportável com as suas constantes bazófias, muitas delas inventadas. Axel Munthe disse que o escreveu a conselho de Henry James, o que é uma mentira descarada, pois já tinha intenção de fazê-lo muito antes de James o visitar em Anacapri. Afirmava também que as esculturas romanas da sua célebre casa, que Goering tentou comprar e está hoje convertida em museu, resultaram de descobertas arqueológicas sensacionais. Nova mentira: umas peças foram adquiridas em antiquários italianos, outras foram-lhe oferecidas pelos agricultores de Capri que as encontraram no campo, outras não passam de cópias mandadas fazer pelo próprio Munthe. Não se duvide, porém, que, apesar da sua mitomania e das suas patranhas, Axel Munthe teve uma vida cheia, digna de ser contada. Em criança, ambicionava ser imperador, o que diz muito da personalidade egocêntrica e vaidosa que os anos subsequentes iriam consolidar. Nos tempos de juventude em Estocolmo despontava já o seu amor aos animais, sobretudo cães e pássaros, paixão que, muitos anos depois, o fará escrever com sucesso a Mussolini, pedindo-lhe que a ilha de Capri fosse convertida num santuário para as aves migratórias do Mediterrâneo. Muitos dos que o conheceram referiram que Axel.

Munthe amava mais os bichos do que os seres humanos, o que talvez seja verdade se tivermos em conta, por exemplo, o destino letal que advogava para os criminosos incorrigíveis. Foi também um grande defensor e praticante da eutanásia; confessava amiúde que, se não podia salvar a vida a alguns dos seus pacientes, ao menos ajudava-os a terem uma boa morte, ministrando-lhes a doce morfina e outros sedativos. Infeliz nos seus dois casamentos - com Ultima, sua compatriota; com Hilda, uma aristocrata inglesa -, Munthe teve esparsos amores em vida, o mais célebre de todos com Vitória de Baden, princesa de sangue alemão que viria a ser rainha da Suécia. Não se sabe, nem interessa, se a ligação foi platónica ou carnal, mas o facto é que teve enorme intimidade mútua, por vezes pouco discreta, a ponto de o médico-escritor oferecer lingerie à sua régia paciente. Afectada dos brônquios, Vitória passava longas temporadas em Capri, longe dos frios de Estocolmo. A relação com Axel, feita de cumplicidades várias, com destaque para o apego aos bichos, serviu-lhe de compensação a um casamento desastroso com Gustavo V, monarca homossexual de simpatias nazis que se verá envolvido em graves escândalos, chegando a ser chantageado por um dos seus amantes, criminoso de delito comum, condenado já por roubo e homicídio. Ao morrer nos braços do seu médico, mentor e amante, que lhe embalsamará o corpo, Vitória ter-lhe-á dito, já do outro lado: "Vem depressa."

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