Desta vez, o Carlos não aviou a prosa

A minha memória mais remota do Carlos Santos Pereira é ele a sentar-se na secção internacional do DN e a disparar três ou quatro palavrões em russo, servo-croata ou húngaro. Provavelmente tinha acabado de chegar de moto da antiga Jugoslávia, bastava olhar para o blusão de cabedal preto e para o capacete em cima da mesa. "Ora vamos lá aviar uma prosa", terá dito a seguir, como tantas outras vezes que trabalhei ao lado dele nesses anos 1990 em que brilhava em reportagens para a RTP e o DN, depois de já ter ganho nome como repórter de guerra ao serviço do Expresso e do Público. No nosso jornal, chegou por iniciativa do Mário Bettencourt Resendes, diretor que acreditava que o jornalismo não conhecia fronteiras e que os leitores tinham direito a saber o que se passava em Lisboa, em Trás-os-Montes ou nos Balcãs.

Por duas vezes consegui que o Carlos voltasse a escrever no DN, a última das quais no ano passado, quando fui diretor interino. Com a entrada da Rosália Amorim para a direção, ficou confirmada a presença regular do jornalista nas nossas páginas. Era mais uma garantia de qualidade num jornal com 156 anos, que teve Eça na inauguração do canal de Suez e Ferro a entrevistar Hitler.

Especialista da Europa de Leste, e também de temas de geopolítica, o mais recente artigo que lhe publicámos foi em abril sobre a retirada americana do Afeganistão, fazendo as analogias possíveis com a retirada soviética. Na sexta-feira, combinámos um texto de análise sobre o Médio Oriente. Creio que as últimas palavras foi para me perguntar se podia ir até aos 11 mil caracteres. Na manhã de segunda estranhei não ter nenhum mail do Carlos. Ele nos últimos anos costumava escrever noite dentro. Depois, o choque da morte, informação que li no Facebook do José Milhazes, jornalista veterano que o conheceu em Moscovo, nos tempos da União Soviética. Desta vez, a prosa não seria aviada.

Esta é uma homenagem ao Carlos Santos Pereira, o homem, um repórter capaz de cobrir uma guerra enquanto as balas assobiam por cima da cabeça, mas também de se sentar na redação e escrever uma análise sobre a origem deste ou daquele conflito. O seu livro Da Jugoslávia à Jugoslávia, que deve ter já uns 25 anos, é um belo testemunho dessa sua capacidade. Mas faço aqui também uma homenagem ao jornalismo de qualidade, aquele que sabe ser importante estar em Telavive como em Gaza, em Cabo Delgado como em Ceuta, na Bielorrússia como em Xinjiang. É um jornalismo exigente, no qual Carlos era um mestre. Se alguém em Portugal merece o tal epíteto de repórter de guerra, é ele.

Felizmente que continuam a existir jornais exigentes, e jornalistas que dizem, como um slogan já clássico da TSF, "por uma boa história, por uma boa notícia, vamos ao fim da rua, vamos ao fim do mundo". Mas, admita-se, é caro ir até ao fim do mundo. E a crise no negócio dos media não deixa de afetar as possibilidades de voltar a haver jornalistas lá longe onde às vezes o que acontece nos diz tanto: lembram-se dos quatro portugueses que ficaram em Timor mesmo quando a ONU já não lhes podia garantir segurança contra as milícias pró-Indonésia? Ou do Carlos Fino e do Nuno Patrício, a dupla da televisão pública que nos mostrou em direto o início da intervenção americana no Iraque em 2003? Falei de custos, falo também de coragem. E, voltando ao Carlos, era um tipo tão corajoso que fazia questão de contar as guerras que via contrariando as ideias feitas. Foi o que fez na ex-Jugoslávia, como muitos ainda se recordarão.

Só não acabo a repetir os tais palavrões que o Carlos tanto usava para brincar com a Lumena Raposo ou a Ana Glória Lucas porque não tenho a piada dele.

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