O faroeste numa colina em Oeiras, onde em vez de cowboys há artistas

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O faroeste numa colina em Oeiras, onde em vez de cowboys há artistas

A chegada de Rui, Michel e Daniela ao antigo quartel militar causou estranheza na comunidade. Em 2004, largaram a sua companhia de teatro nómada para fixar os pés na terra e formar "o maior centro de música do país". (Artigo publicado originariamente a 25 de maio)

O que têm em comum uma sucata no Texas e um espaço cultural numa colina de Oeiras? Foi em 1995, numa viagem aos Estados Unidos da América, que o português Rui Gago e o lusodescendente Michel Gigolo sonharam, pela primeira vez, o que viria a ser os Nirvana Studios. "Queríamos um lugar que desse resposta às pessoas que, a meio da madrugada, têm inspiração para tocar bateria e não têm onde o fazer", conta Rui. E onde "uma bailarina clássica valesse tanto quanto um graffiter".

Algures naquele ano, enquanto regateavam com um sucateiro a compra de velhas motas Harley-Davidson, em El Paso, apreciaram uns contentores por onde iam entrando inúmeras bandas para ensaiar. Simples e decrépitos contentores, é certo, mas algo ali os despertou. Aguardaram pela oportunidade de fazerem a ideia migrar para Portugal. E em 2004, quando o país vibrava com um Europeu de futebol, eles deram início ao sonho, juntamente com outra amiga. Formariam, então, "o maior centro de música do país", apressa-se Rui Gago, 49 anos, a dizer.

Difícil mesmo é não confundir o conceito, mas poucos ficarão indiferentes ao espaço. A aura fantasiosa dos Nirvana Studios faz-nos acreditar que estamos a entrar num qualquer filme do faroeste, num núcleo temático da famosa Disneyland ou até mesmo num circo. Ainda não entrámos e já pairam uma notas musicais no ar. Ténues, mas cativantes: guitarras, baterias, alguém a cantar. Outros estacionam carros e carregam materiais para cenografia.

Chegamos ao portão principal, onde jazem bicicletas velhas, entrelaçadas entre si, numa enorme escultura de metros de altura. Lá bem no alto, entre elas, há um letreiro onde "Nirvana" nos transporta para a filosofia budista e "Studios" para o velho e pretendido Hollywood. Mas nem com uma entrada tão assinalada podemos adivinhar o que por ali se passa.

Todos os dias, é casa de centenas de músicos, dançarinos, artistas plásticos ou de multimédia e ainda amantes da natureza. Todos cabem num mesmo lugar e os mais célebres ganharam até um espaço numa parede de estrelas com o seu nome, o homólogo português do famoso Walk of Fame (o Passeio da Fama de Los Angeles). Atualmente, "há aqui 200 projetos musicais e mais de 70 salas de ensaio e ateliês", contabiliza Rui. Nestes três hectares de terreno cabe ainda uma longa ecopista, que parte de um caminho durante anos deixado ao abandono, serventia do Exército português nos finais dos anos 60 e recuperado em 2011 pelos fundadores deste projeto. E, porque regras aqui há poucas, o centro está aberto 24 horas por dia.

Todos os cantos da casa nasceram à base de doações. Ferro-velho e antiguidades que se tornaram arte dão as vibrações artísticas, até algo surreais, que este trio pretendia ver neste lugar. "Cada dia mais um prego aqui e acolá", mais uma moldura, mais uma escultura, mostra-nos o fundador. Sobrevivem financeiramente à base do aluguer dos contentores e armazéns de ensaio, do lucro que se gera das Custom Villes (pequenas vivendas artísticas de alojamento temporário que construíram no terreno), mas principalmente dos espetáculos. Porque muito antes de este centro cultural ter nascido já Rui, Michel e Daniela eram um trio à boleia do mundo do teatro, da música, da dança e do espetáculo. "Fazes um espetáculo, mudas uma porta. Mais um espetáculo, uma casa de banho", conta Rui.

A volta ao mundo com camiões TIR

"Cuidado, que andam aí uns tipos com motas e camiões", alertava uma moradora da zona aos restantes locais. Os rumores chegaram a Rui, um destes "tipos", que não aguenta suster o riso quando a memória lhe assalta a mente. Foi assim que foram recebidos por Oeiras. Quando ali chegaram, a comunidade não escondeu a sua estranheza por aquele produto novo que ali nascia, no mesmo sítio que já deu chão e teto a um quartel militar que foi criado durante o Estado Novo e durou até 1984. Apelidaram-no de loucura. Rui lembra mesmo que eram olhados como vândalos.

A história deste trio de fundadores, contudo, nasceu muito antes de este projeto ganhar uma casa. Rui e Michel começaram por ser vizinhos, tornaram-se amigos e quando conheceram Daniela formaram uma companhia de teatro nómada, que só em 2003 ganharia um nome oficial: Custom Circus.Durante anos, o trio percorreu com outros artistas o país e o mundo ao volante de camiões TIR, tantas outras carrinhas e motas, parte do seu número de espetáculo.

Era mesmo com os camiões que formavam a sua arena quando aterravam em terreno baldio para um qualquer plano de festas local ou nacional para o qual tinham sido recrutados. "Percorremos Portugal de lés a lés, fizemos Espanha, mas também Angola, EUA, sul de França, norte de Itália. E quanto mais espetáculos fazíamos mais propostas íamos recebendo."

Contam já mais de 700 representações juntos, embutido num estilo tanto obscuro como futurista. A estética dos Custom Circus nasce das influências do imaginário do famoso escritor francês Julio Verne, que escreveu sobre máquinas voadores sem alguma vez ter percorrido caminho numa qualquer. Mas também do realizador George Miller, com a sua obra de ficção científica Mad Max. E ainda do fascínio pelos cenários pós-apocalípticos e pela era da industrialização.

Nascem de várias influências e colocam-se ali entre as vertentes cabaret rock, steam punk, bizarre chic e diesel punk. "Muita pirotecnia, muito fogo e sem nunca sentar o público e obrigá-lo a olhar para um ponto único durante toda a exibição", explica Rui Gago. "Temos sempre três componentes ativas: música (porque o espetáculo não é falado), performance e vídeo. São as nossas linguagens."

Tudo se iniciou nas produções teatrais de rua, mas rapidamente evoluíram para parcerias com grandes marcas nacionais e internacionais. Envolveram-se em inúmeros eventos, alguns aos quais ainda hoje ninguém fica indiferente. É o caso do Lisboa Capital da Cultura em 1994, a Expo'98 e mesmo o Euro 2004, em apresentações teatrais para marcas. Mas cansaram-se de girar em torno delas. "Porque no final tu não tens direitos sobre aquilo que criaste e todo o teu trabalho era muito efémero. A marca continuava o seu caminho normal, mas nós não", lamenta o artista.

Foi então que decidiram ficar por terra, sem nunca perder de vista os espetáculos, que ainda hoje decorrem nos Nirvana Studios.

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