"Cada vez mais pessoas iniciam o processo psicoterapêutico apenas porque lhes parece giro"

Uma viagem de autodescoberta em prol da saúde e do bem-estar mental é o desafio lançado pelo livro Descomplicar a Mente, assinado pelas psicólogas clínicas Rute Agulhas e Alexandra Anciães, um tema que ganhou nova urgência com a pandemia e o confinamento.

Em tempos tão adversos como estes, a saúde mental exige tantos cuidados como a física. Stress, ansiedade e perturbações do sono são alguns dos problemas mais recorrentes, identificados pelas psicólogas clínicas Rute Agulhas e Alexandra Anciães no livro Descomplicar a Mente - Cuidar da Nossa Saúde Mental para Uma Vida Plena e Feliz (edição Oficina do Livro). Embora, como sublinham as autoras, este não substitua um acompanhamento profissional, o objetivo dos muitos exercícios incluídos na obra é aprofundar o autoconhecimento e mostrar que o recurso a um psicólogo não é um bicho-de-sete-cabeças.

Como nasceu este trabalho a duas, apresentado como um livro de autocuidado em matéria de saúde mental?
Rute Agulhas (R.A.) - Foi a nossa editora, a Rita Fazenda, que nos desafiou a fazer um livro sobre saúde mental dirigido ao público em geral, uma vez que ambas já temos alguns voltados para os profissionais desta área. A partir daí, estabelecemos como grande objetivo desmitificar a ideia de que a psicologia é só para pessoas com problemas muito profundos.

Ainda existe um estigma associado à saúde mental?
R.A. - Existe muito nos adultos, mas também o encontramos nas crianças, o que reflete a própria atitude de quem as acompanha. É verdade que já temos uma percentagem crescente de pessoas que encaram a psicologia como uma ferramenta importante para o autoconhecimento e até para o desenvolvimento de competências, mas essa atitude ainda não é a predominante. Este livro procura demonstrar à população em geral a ideia de que podemos beneficiar muito de algum cuidado e que a nossa saúde psicológica é tão importante quanto a saúde física para os nossos níveis de bem-estar.

Alexandra Anciães (A.A.) - É verdade que ainda existe uma população relutante em relação aos cuidados de saúde mental, mas também há o seu contrário. Temos verificado o crescimento do número de pessoas que iniciam um processo psicoterapêutico apenas porque lhes parece giro, quase como se fosse um personal training. O que é que acontece? Muitas destas pessoas estão motivadas para iniciar o processo psicoterapêutico mas não o estão para a questão da mudança e da necessidade de desenvolver competências pessoais, e é nesse momento que interrompem o processo.

A pandemia trouxe novos problemas e agudizou outros, com as exigências do confinamento e o afastamento de familiares e amigos. Essa realidade está presente no vosso livro?
R.A. - Optámos por não direcionar demasiado o livro para as questões da pandemia. Vamos falando um pouco, neste ou naquele capítulo, mas queremos que vá para além desta conjuntura e trabalhamos questões que são transversais a qualquer fase da vida. No entanto, estando nós numa situação de adversidade nova e desconhecida, não podíamos deixar de falar nela nos capítulos dedicados ao stress e à ansiedade. Neste momento, já estamos numa outra fase da pandemia em que o fator de imprevisibilidade é menor. De algum modo, as pessoas já estão a desenvolver mecanismos de defesa e resistência.

A.A. - Não podíamos deixar de abordar toda a ansiedade causada por esta imprevisibilidade e pela falta de controlo sobre o futuro. A questão afetiva, por exemplo, é muito importante. De repente, estamos a viver a perda da possibilidade de abraçar os nossos pais, irmãos, amigos, o que não é compensado, de maneira nenhuma, por sabermos que eles até podem estar do outro lado do ecrã. Não sei se esta realidade não terá consequências a médio prazo. É possível que as pessoas venham a desenvolver quadros depressivos mais severos.

Como é que uma situação destas pode afetar o desenvolvimento de crianças e adolescentes?
R.A. - A principal variável no comportamento de crianças e adolescentes perante uma situação adversa é a reação das figuras cuidadoras. Se estiverem rodeados de adultos que conseguem encontrar as estratégias adequadas, a sua capacidade de resistência será maior. Sabemos que as crianças têm menos recursos, que o seu pensamento é mais concreto e, por isso, têm menor capacidade de pensar a médio e longo prazo (uma criança de 4/5 anos não vai para além do amanhã). Se estas crianças tiverem a seu lado pais que, apesar de tudo, conseguem manter a calma e transmitir a ideia de que, não obstante o que está acontecer, a nossa vida continua (até com algumas vantagens, como uma maior disponibilidade dos pais para eles), as coisas correrão melhor.

A.A. - Aqui vejo uma vantagem para os adolescentes. Como sabemos, comunicavam-se muito através do online, talvez sem compreenderem muito bem a importância das relações interpessoais. Acredito que o facto de estarem confinados durante vários meses os despertou para essa importância. Neste momento, eles sentem muito a falta uns dos outros, e isso pode ter um efeito transformador.

R.A. - Eu também salientaria a valorização da interajuda e da empatia. As pessoas têm-se ajudado muito umas às outras, têm emergido muitos projetos de voluntariado. A rede de suporte é uma questão muito importante, da qual também falamos no livro. Essa rede - formal ou informal - é a maior proteção que podemos ter. A pandemia serviu de catalisador da emergência de movimentos comunitários. Ora, nós sabemos que esta situação de pertença e de integração num grupo é um poderoso antidepressivo.

No livro propõem um conjunto de exercícios relacionados com o fortalecimento da autoestima, com a gestão do stress e da ansiedade, com a depressão. São os problemas que mais encontram na vossa prática clínica?
A.A. - Há muitas outras questões, mas se tratássemos todas teríamos feito um livro de 30 mil páginas. Procurámos identificar algumas das mais recorrentes, chamando a atenção para o facto de estes exercícios não substituírem um processo psicoterapêutico e a necessidade de um acompanhamento profissional.

R.A. - Claro que nos estávamos a dirigir a um leitor abstrato, que não sabemos bem quem é, por isso procurámos focar-nos em perturbações com maior prevalência não só em Portugal como a nível global. Por outro lado, tivemos a preocupação de tentar encontrar uma linguagem acessível e, ao mesmo tempo, atrativa.

A vossa parceria já vai longa, com vários livros publicados. Como se conheceram?
R.A. - Conhecemo-nos há 15 anos, quando estávamos as duas grávidas. Conhecemo-nos profissionalmente no Instituto de Medicina Legal e, a partir daí, desenvolvemos uma sintonia muito boa. Até hoje.

A.A. - Habitualmente dividimos os capítulos pelas duas. No final, tudo encaixa. Há muitos leitores que nos dizem que não encontram diferença de tom ou de estilo, é como se os livros fossem escritos por uma só pessoa.

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