Um novo contrato social para com os nossos velhos

Que tristeza o que estamos a perder, cortando gerações. Quem ouviu as histórias dos velhos que agora morrem de covid-19, quem lhes agarrou a mão e sorriu?

A minha avó não sabe que o mundo está em pandemia. Foram precisos 92 anos para a vida lhe tirar o tino de que sempre se orgulhava - "estou velha mas muito boa da minha cabeça", dizia muitas vezes. Mas aconteceu, e se calhar até a protege da tristeza em que o mundo lá fora se tornou com esta doença nova. Entre momentos em que sabe quem é e onde está, e outros em que vive perdida entre a sua vida mais antiga e a nova, só dela, vê esse mundo do cadeirão da sua sala. Ainda está na sua casa, em Ponta Delgada, nos Açores. No outro dia, riu-se ao ver pessoas com máscaras, na televisão.

Embora longe dos netos e dos bisnetos - por causa do vírus que desconhece -, é privilegiada e está protegida pelos seus. Não está só, nunca estaria numa família a que deu tudo e que lhe retribuiu tornando-a um dos seus pivôs e esteve sempre disponível para ela. Não está abandonada nem à mercê da doença que se propaga como pode e parece encontrar nas fragilidades da nossa sociedade a sua grande oportunidade. Uma dessas fragilidades é a forma como tratamos os velhos - posta em causa por este vírus.

"Se cuidar de um bebé tem prazo marcado pela evolução biológica, cuidar de um velho aumenta continuamente o prazo."

O que nos dizem as estatísticas: os idosos são mais de 40% do total de mortes por covid-19 no país e quatro em dez viviam em lares.Estas mortes passaram de 15% do total, há duas semanas, para um terço - segundo a Direção-Geral da Saúde. A Organização Mundial da Saúde já tinha avisado que metade das mortes por coronavírus na Europa seriam em lares. Segundo a London School of Economics, foram também nos lares 42% a 57% das mortes na Bélgica, no Canadá, na França, na República da Irlanda e na Noruega. No Reino Unido, 20%. Na Alemanha, um terço. Em Espanha é pior: 69%.

Em Portugal não se sabe bem quantas pessoas vivem em lares. Só nos ilegais haverá 35 mil. Muitos são velhos para os quais as famílias deixaram de ter condições - porque o Estado não as apoia, porque a fasquia dos recursos que é necessário ter quando alguém fica "dependente" ou "inoperacional" é muito alta. Muito alta mesmo. Porque não há apoio suficiente para os cuidadores - mesmo os que querem muito sê-lo. Se cuidar de um bebé tem prazo marcado pela evolução biológica, cuidar de um velho aumenta continuamente o prazo. E a biologia está cada vez mais resistente - assim diz o aumento da esperança de vida.

"Cada morte, uma vida, muito para contar. E quem as ouviu, essas histórias? Quem cuidou dessas mãos que tantas cuidaram? Quem recebeu esses olhares, ainda curiosos, ainda expectantes."

O resultado, voluntário, ou involuntário, é o mesmo: os velhos estão armazenados em instituições. Foi assim que a nossa sociedade se organizou. E isso, que até agora podia ser apenas duvidoso do ponto de vista moral, está a tornar-se letal com o covid-19. É óbvio que um vírus muito contagioso e que ataca sobretudo células envelhecidas tem palha para incendiar nos lares de terceira idade, onde encontra ambas as condições preenchidas.

Agora pensem no que estamos a perder. Cada morte, uma vida, muito para contar. E quem as ouviu, essas histórias? Quem cuidou dessas mãos que tantas cuidaram? Quem recebeu esses olhares, ainda curiosos, ainda expectantes - porque se a morte não os levou, é porque a chispa ainda lá está... Que tristeza quando uma morte por covid-19 transforma-se apenas num encolher de ombros, num epílogo como um desabafo, o suspiro de alívio por uma vida terminada entre um teto cinzento, uma janela baça, uma papa enfiada na boca. Silêncios incómodos em quartos frios ou salas que são antecâmaras de um fim que só prolonga o sofrimento por não vir.

E, daqui para a frente haverá um novo desafio às nossas consciências: vamos confiná-los, aos mais velhos, como começa a sugerir-se?

O que esta doença que ataca os mais velhos nos deve fazer recordar é o que andamos a perder por termos cortado os laços geracionais - e isto é certamente menos verdade nos países do Sul, o que talvez explique o maior nível de mortalidade. E, daqui para a frente haverá um novo desafio às nossas consciências: vamos confiná-los, aos mais velhos, como começa a sugerir-se? Vamos prendê-los a uma solidão forçada pela liberdade dos outros? Devemos encolher os ombros e deixar que esta espécie de eutanásia aconteça?

São perguntas para as quais só a consciência tem resposta. E, como sempre quando isso se verifica, a resposta é simples, mas nem sempre fácil.

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