O homem cordial

Sérgio Buarque de Holanda escreveu um livro que circulou como referência na área do estudo e avaliação de uma realidade que seria a identificação da corrente a convergir as plurais raízes do Brasil. A recente edição tem uma nota sobre o texto, elaborada por Mauricio Acuña e Marcelo Diego, respeitando mas enriquecendo a projeção do texto original, publicado em 1948.

O tema que parece ter despertado maior número de apreciações foi a referência ao chamado homem cordial. Era um ponto de chegada que no início considerou os habitantes como "desterrados da nossa própria terra". Os analistas, ao examinarem o conceito de destino, tentam identificar as raízes do Brasil invocando as fronteiras da Europa, trabalho e aventura, herança rural, o semeador e o ladrilhador, o encontro cordial, novos tempos, nossa revolução. O grupo de qualificadores analistas é da melhor qualidade e passado, tais como António Coutinho, Cassiano Ricardo, continuando a aumentar o número de interessados por esta edição, embora Gilberto pareça no passado ter primeiro assumido e depois perdido o interesse. Tantos foram que nesta nova edição crítica de Raízes do Brasil adotaram o conceito de que "se os autores mudam, também os livros podem se alterar". Até mesmo "os clássicos".

Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda é um dos exemplos mais evidentes de um livro assumido pela vontade de voltar a sofrer mudanças, muitas delas fundamentais. Estava-se diante de um texto que não descurava o desafio, que por várias vezes foi revisto, aumentado e recordado por apreciadores, inspirados pelo diálogo com os seus diferentes contextos da publicação. Sérgio Buarque de Holanda, no sentido de fixar a definição do seu conceito de homem cordial, adotou este acordo: "Cabe dizer que pela expressão cordialidade se eliminam aqui, deliberadamente, os juízos feitos e as pretensões apologéticas que parecem incluir-se em C. R. [Cassiano Ricard]."

Este, crítico de o aparente conceito parecer étnico, regressa a Bertrand Russell quando este pergunta se "não haverá uma mão de publicar bondade para salvar o mundo do cataclismo que o espera? Não haverá jeito de instituir uma junta secreta de fisiólogos para descobrir o meio de criar bondade? Como arranjar um remédio que torne os homens menos ferozes?".

Ao contrário do que se passa com povos europeus, que reclamaram a proeza ética não reconhecida de que nenhum é alheio a uma fusão causada pelas circunstâncias, os críticos parecem mais numerosos a aceitar o conceito por "cordialidade" não ter o pluralismo de interesses e provocadores que consideram cultura como reconhecimento da igualdade das origens que convergiram para a unidade, tantas vezes fascinante, da "cordialidade" brasileira.

No livro (pág. 345), Gilberto Freire comenta ainda interessado: "É com o fim de revelar material tão rico e de um valor tão evidente para a compreensão e interpretação do nosso passado, dos nossos antecedentes, da nossa vida em seus aspetos atuais mais significativos que agrava esta coleção." O Brasil tem uma tão desejada e esperada importância no, não apenas lusotropicalismo, mas no europeu iberotropicalismo, e no impedimento de submissão do leste e sul do continente à versão da America First, que sempre a circunstância lembrou o pessimismo, confessado, antes do seu suicídio, de Stefan Zweig: não é difícil, sobretudo nesta desafiante e perigosa época que vivemos, insistir que a função do Brasil, prevista por Abade Correia da Serra, falta agora ao conhecimento americano e à ajuda útil a uma nova estrutura e governança mundial do que viria a ser, depois da guerra finda, a recuperação de uma terra única e morada comum do género humano.

É muito vasta e útil a estrutura do livro de Sérgio Buarque de Holanda, enriquecido pela vasta contribuição analista e construtiva de tantos brasileiros que partilharam o debate sobre as raízes do Brasil, isto é, então sobre o futuro do continente. Agora mais participante da inquietação mundial, mas que não pode dispensar o capital humano responsável, que a publicação de Sérgio Buarque de Holanda explica e assume.

Naturalmente é uma proposta que não pode deixar de enfrentar a necessidade de o "tempo tríbulo", de toda a evolução das comunidades: tempo de história passada e desafiante da compreensão; tempo vivido, e ocasionalmente enfrentando, como agora, desafios sem passado que apontam para a dispensa da guerra; tempo como futuro se puder ser assumido, e, lutando por ele, uma esperança que volta a crescer e assumir direção. A atualidade é tão desafiante que já é crítica. O sentido humanista não consente que a nova esperança global não seja assumida com convicção brasileira.

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