Entre o passado e o futuro, o que mudará de facto?

Afirmar que, no pós-covid 19, o mundo não será o mesmo é rigorosamente lapalissiano. A questão é: será melhor ou pior do que o presente? De súbito, alguns começaram a ver (com aspas ou sem elas) a atmosfera das grandes megalópoles menos poluídas, golfinhos nos canais de Veneza e leões nas ruas de Harare. Outros enterneceram-se com os pequenos gestos de solidariedade mútua que, em todo o mundo, os homens começaram a praticar entre si. Uns quantos passaram a acreditar que o modelo de desenvolvimento da humanidade nos últimos quarenta anos está com os dias contados.

Sim, como bem referiu nestas páginas um outro cronista, talvez nos tenhamos dado conta de que continuamos a ser uns pobres e simples mortais. Mas estamos realmente dispostos a construir um outro tipo de futuro, baseado no respeito pela natureza, na empatia e na solidariedade entre os indivíduos, as classes e as nações, no correto uso social da tecnologia, na sã convivência de todas as crenças e ideias que possam contribuir para solidificar o humanismo?

Duvido. Pelo contrário, receio que a atual pandemia ofereça pretextos a todos aqueles que estão apostados a destruir as conquistas alcançadas até ao momento, impedindo-as de ser alargadas e aprofundadas.

As forças interessadas em fazer o mundo retornar ao passado continuam a ser muito poderosas. Antes de identificá-las, esclareço, para que conste, que não me refiro particularmente à China, por três razões abaixo desenvolvidas. Primeiro, sendo o modelo chinês (capitalismo de Estado+sistema político monolítico, de base ideológica marxista-leninista e confucionista, e não "comunismo", que não passa de um rótulo) conhecido, como é conhecida a forma de o enfrentar (defender sem tergiversações o modelo político liberal), nada indica que o mesmo tenha tamanho "poder de sedução", por mais hábil e soft que seja, para converter o mundo inteiro. Não, o mundo não vai transformar-se numa "grande China".

Segundo, as várias teorias conspiratórias acerca da provável criação do novo coronavírus em laboratórios chineses, com a pretensão de "dominar o mundo", não tiveram até agora qualquer comprovação científica (a propósito, lembram-se das "armas de destruição massiva" alegadamente possuídas pelo Iraque?).

Terceiro, e não sendo economista, atrevo-me a prever que, a médio prazo, a China perderá algum do seu peso económico comparativo, pois algumas das indústrias europeias e americanas hoje instaladas em território chinês poderão eventualmente regressar aos seus países, quanto mais não seja para evitar a repetição da total dependência ocidental das cadeias de abastecimento chinesas, como se constatou na atual crise pandémica.

Dito isso, acrescento que a extrema-direita ocidental é, quanto a mim, o principal perigo com que a humanidade se confrontará no pós-covid 19. Sendo um movimento, se não originário, pelo menos ideologicamente formulado e sistematizado nos EUA, poderá estender-se (já está a fazê-lo) a outras regiões, como a Europa, a Ásia (vide as Filipinas, para não falar da Índia), a América Latina (o exemplo brasileiro é bizarramente assustador) e a África, com ou sem "adaptações culturais", inspiradas em modelos de poder ditos tradicionais. O seu principal ideólogo, Steve Bannon, não tem escondido a pretensão de levar a "revolução" ultradireitista a todo o mundo.

São vários os exemplos de como o pensamento de extrema-direita está por detrás das estratégias para lidar com a covid-19 adotadas em certos países. O Prémio Nobel de Economia Paul Krugman alertou há dias, por exemplo, que os movimentos de extrema-direita norte-americanos estão a organizar e financiar as manifestações realizadas nos EUA a favor da reabertura imediata das atividades económicas.

Acontece que algumas dessas estratégias passam pelo recurso a uma retórica antichinesa que, dando-se ares de posicionamento geopolítico, não passa de autocrático e pouco original estratagema para desviar as atenções para as falhas próprias. Um exemplo grotesco foi dado pelo ministro brasileiro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, quando afirmou que o novo coronavírus é "um comunavírus criado pela China para implantar o comunismo (sic)".

A maka é que líderes democratas com responsabilidades mundiais, como a chanceler Ângela Merkel, parecem inclinados a embalar nessa onda. Já vimos esse filme num passado não muito longínquo. A aliança do liberalismo ocidental com a extrema-direita, por causa do seu anticomunismo primário, não dá certo.

O futuro parece estar a chegar com cheiro a passado.

Jornalista e escritor angolano, diretor da revista África 21

Mais Notícias

Outras Notícias GMG