Catedrais sem importância

Há pouco menos de dois meses, quando centenas de prioridades foram drasticamente revistas e ainda não se sabia ao certo se isto era o fim do mundo ou uma suspensão provisória das suas regras habituais, várias contagens decrescentes começaram em simultâneo. Era uma questão de tempo até alguém dizer que a pandemia era a Mãe Natureza a curar-se do seu próprio vírus (nós); era uma questão de tempo até alguém dizer que o covid-19 era uma fabricação ou uma conspiração; e era uma questão de tempo até alguém dizer que coisas como o futebol não são assim tão importantes.

Gary Lineker, uma pessoa cujas palavras só têm a relativa importância que têm por ter passado a vida inteira a jogar ou a falar sobre futebol, venceu ao sprint a terceira competição num tweet de 12 de Março, em que escreveu, nem mais nem menos, "O futebol não é assim tão importante". Muita gente aplaudiu o sentimento - tão humilde, tão lúcido - e o mesmo foi repetido nas semanas seguintes por várias pessoas que devem os salários e a carreira a escalar onzes iniciais em 4-3-3 ou a discutir diariamente linhas de fora-de-jogo na televisão: o futebol, bem vistas as coisas, não é assim tão importante.

Não é útil nem razoável ficar muito irritado com estas vaporosas homilias, pois os seus autores com certeza sentem estar apenas a cumprir uma responsabilidade cívica, trazendo um salutar sentido de proporção a algo globalmente desagradável. Mas que proporções estão exactamente a ser calibradas? Que um livre directo de Mathieu ou uma lista de convocados do Paços de Ferreira não são "assim tão importantes", em comparação com dezenas de milhares de pessoas a morrer porque se afogaram nos próprios pulmões, não é um facto que alguém conteste ou de cuja pertinência precise de ser lembrado.

Claro que o futebol não é assim tão importante. O futebol, as igrejas, os museus, as livrarias, as esplanadas e os parques infantis são objectivamente menos importantes do que a diferença não subtil entre alguém estar vivo ou morto. Mas também há diferenças não subtis entre maneiras de estar vivo, caso contrário ninguém precisaria de mais nada a não ser um ventilador e uma intravenosa. Para milhões de pessoas, o futebol não é apenas uma actividade profiláctica à qual dedicam várias energias emocionais e discursivas que não são facilmente transferíveis (e que são agora obrigadas a escoar para a improvisação de opiniões fortes sobre pão caseiro e epidemiologia); é também um de muitos ingredientes prosaicos que tornam a condição de estar vivo algo mais do que a soma aritmética de água, proteína e um batimento cardíaco.

A declaração de Lineker é mais fácil de compreender como uma correcção aplicada a outra esfera retórica, da qual ele próprio faz parte integrante: a linguagem de exorbitante romantização do jogo que alimenta o marketing desportivo e o hype mediático (e é voluntariamente adoptada por muitos adeptos) e se manifesta a intervalos regulares para lembrar o mundo de que "Não há nada como o futebol. Nada" - tweet de Lineker, Maio de 2019. Ou citar a célebre frase de Bill Shankly: "O futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais importante do que isso" - tweet de Lineker, Fevereiro de 2019.

É o tipo de retórica que converte todo o fenómeno desportivo em momentos decisivos, narrativas heróicas, imagens icónicas e montagens em câmara lenta, e parte do princípio tácito de que o único valor do futebol é a sua capacidade para produzir histórias épicas ou instantes inesquecíveis. Como qualquer linguagem publicitária, isto capitaliza uma determinada verdade emocional, ao mesmo tempo que distorce ou apaga todas as outras, nomeadamente o facto de, grande parte do tempo, o futebol não ser um veículo de acesso ao épico ou ao sublime, mas apenas comédia e tédio, especulação frívola e ruído ambiente, zapping indolente e viagens de autocarro, escaramuças urbanas e o tempo a passar.

A retórica exaltada do "mais do que um jogo" exige ao futebol mais do que dele precisamos, embora não o faça realmente, pois a exigência é apenas uma postura - uma canção de embalar dirigida menos aos adeptos não profissionais do que àqueles que mais precisam de a ouvir: as pessoas investidas em não subtrair os custos das várias patologias e dormências colaterais do desporto ao lucro literal e metafórico que dele retiram. "O futebol não tem importância" é o antídoto temporário de quem ganha a vida a vender a ideia de que "nada é mais importante". Se a única banda sonora que conhecem é Wagner ou o Nessun Dorma, o oposto só é imaginável como silêncio.

A verdade é que o futebol é muitas vezes muzak, e é esse muzak que faz mais falta, agora que o silêncio é tudo o que resta. Para o preencher, algumas pessoas por todo o mundo têm feito esforços consideráveis para se interessarem pelo campeonato bielorrusso (a única competição que não foi suspensa) ou reverem vários jogos clássicos, que canais como a Eleven Sports ou a SportTV+ têm transmitido. Nenhuma das soluções é inteiramente satisfatória: a primeira por ser demasiado exótica, a segunda porque o exercício de comparar memórias fragmentárias com o arquivo histórico é muito mais agradável quando obedece a um impulso momentâneo do que quando é a única opção.

Uma terceira alternativa - mais exótica e muito mais insatisfatória, mas com a virtude de esclarecer algumas questões essenciais - é ver um filme como United Passions. Estreado em 2014, e financiado directamente pela FIFA, dramatiza em 110 minutos a história da organização, desde as origens até ao século XXI, centrada em três dos seus presidentes (Jules Rimet, João Havelange e Sepp Blatter). O curioso objecto é hoje recordado principalmente pela distinção de ser o filme menos lucrativo de sempre no mercado norte-americano e por ter sido renegado por quase todos os participantes, desde o realizador à maioria do elenco. O produto final é de facto tão fabulosamente mau como estes factos sugerem: um pedaço de propaganda incompetente, em que metade do tempo é dedicado à hagiografia dos santos burocratas que perseguiram o sonho de usar o futebol para "unir nações" e "dar esperança às pessoas", e a outra metade a retratar Sepp Blatter - um dos grotescos mais oleosos que o desporto produziu - como um mártir anticorrupção, traído pelas pessoas que se sacrificou para proteger.

United Passions é tão ridículo hoje como era em 2014 e como será em 2030, mas este período de hibernação do fenómeno que exalta ajuda a salientar um das suas desonestidades secundárias, com uma clareza que não seria possível noutra altura. Pela primeira vez, quem gosta de futebol viu aquilo que até aqui era uma experiência de pensamento impossível acontecer em tempo real, e este jejum involuntário permitiu avaliar com maior precisão a qualidade e a quantidade do que se perde quando o futebol deixa de acontecer.

O vocabulário de grande parte do filme - o familiar FIFA speak sobre "unir povos", "valores universais" e "dar às pessoas de todo o mundo algo com que sonhar" - não soa mais nem menos falso do que em Janeiro deste ano, mas soa de tal forma incompleto que mais parece um erro de categoria. Porque o futebol de que hoje se sente falta não é o que transcende o mundo exausto das nossas expectativas, mas o que faz parte da rotina mundana em que tudo o resto funciona: algo que é muito mais pequeno do que a sua mitologia promocional e, por isso, muito mais importante.

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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