"Vir a Évora implica vir à enoteca da Fundação Eugénio de Almeida. Não é só à Capela dos Ossos"

D. Francisco Senra Coelho, arcebispo de Évora e presidente da Fundação Eugénio de Almeida, Maria do Céu Ramos, secretária-geral, e Pedro Baptista, vice-presidente e enólogo responsável pela área da vitivinicultura e da oleicultura, falam sobre o fundador, Vasco Maria Eugénio de Almeida, sobre os vinhos que dão fama e proveito à fundação e, sobretudo, sobre a missão cultural e social que esta faz em Évora e no Alentejo em geral.

D. Francisco, o que é que nota na Fundação Eugénio de Almeida de especial? É a ligação a Évora, é a missão que tem, é a história do seu fundador?
Francisco Senra Coelho (F.S.C.) - Esta fundação reflete o carisma de um homem. A pessoa de Vasco Maria Eugénio de Almeida está aqui espelhada, e percebe-se, de facto, que ela traduz a sua interioridade, traduz o seu olhar e traduz a sua inserção. A sua interioridade, porque ele dá a esta fundação uma dimensão espiritual - ela tem no seu carisma, na sua missão, responsabilidades espirituais com o povo desta região. Está aqui também o seu olhar porque ele era um artista, um homem com uma grande responsabilidade para com o património, ele sentia deveres perante o património - ajudou a recuperar, em Évora e em Lisboa, o património. Como tal, não foi capaz de não deixar essa marca, essa impressão digital, que está hoje muito viva na cidade de Évora - a recuperação do património desta fundação - como um modelo e referência. Depois a sua inserção, ele era um homem inserido no Alentejo e compreendia que o Alentejo necessitava de um acompanhamento, no sentido da sua evolução. Nomeadamente, a agricultura com que ele tinha uma preocupação muito grande, através do regresso a Évora do ensino superior que o envolveu muito; uma preocupação muito grande com este povo que necessitava, em muitas circunstâncias, além de instrução, de informação, de formação técnica, também de apoio social. Esta instituição tem por isso esta marca, veja-se o que ela envolve. Ela tem uma dimensão de abraço a um povo, do tamanho do coração do instituidor. Esta fundação repercute um homem que está vivo, e está vivo nesta fundação na medida em que ela lhe é fiel. A função do arcebispo de Évora, que ele escolheu - escolheu a arquidiocese para ser a presidência desta fundação - é exatamente manter esta fidelidade para que Vasco Maria esteja vivo hoje nesta fundação e para que nós saibamos traduzir o seu coração, a sua relação com esta cidade, com esta região, o seu olhar, o seu sentir profundo de compromisso com este povo. É uma fundação muito personalizada na pessoa do seu fundador que tem um carisma muito forte.

Sei que é uma veterana da fundação, começou nos anos de 1980. A fundação é instituída em 1963, o fundador morre em 1975, o que coincide com um período complicado em Portugal e no Alentejo com a reforma agrária, que afeta todos os bens da fundação. Quando chega, nos anos 1980, a fundação está a renascer e a transformar-se no que é hoje. Pode explicar como aconteceu?
Maria do Céu Ramos (M.C.R.) -
Sem dúvida. Em 1987, quando eu entrei na fundação, já ela tinha quase a idade adulta, mas nessa altura não era nada do que é hoje. E também não era o que tinha sido aquando da sua fundação porque o legado patrimonial que o instituidor deixou como pilar da sustentabilidade económica da fundação estava envolvido no processo político e social que nessa altura dominava o país - o PREC, as ocupações da propriedade agrícola, dos centros de produção. Estávamos na fase em que se começava a recuperar o património e a devolvê-lo à sua função de suporte económico da vida e da missão da fundação. Em 1987 estava a começar-se o projeto de plantação de vinhas e produção do que hoje são os grandes ativos da fundação - as suas marcas enológicas. Estava-se também a começar, timidamente, a exercer a função filantrópica de ajuda financeira, cooperativa, à comunidade, à sociedade, aos mais necessitados, na atribuição de bolsas de estudo, mas era ainda tudo muito incipiente em função da necessidade de retoma e de relançamento das bases económicas para o cumprimento da missão.

Essas bases económicas têm que ver sobretudo com as terras de que a fundação é proprietária. Estamos a falar de terras de que dimensão?
M.C.R. -
São cerca de 6500 hectares em várias propriedades, quase todas concentradas no concelho de Évora. É um legado essencial que Vasco Maria Eugénio de Almeida deixou à fundação nos estatutos que ele próprio instituiu. Sim, digamos que o serviço da terra e a terra ao serviço da missão são a lógica de criação de valor económico para traduzir em valor social que preside ao projeto de Vasco Maria Eugénio de Almeida.

É desta produção da terra - o vinho, o azeite, a amêndoa também, a cortiça - que vem o rendimento que permite depois toda a obra artística, filantrópica, social. Mas não é uma produção da terra qualquer, é uma produção da terra que ganhou um prestígio especial, sobretudo nos vinhos. Como é que se constrói esse prestígio?
Pedro Baptista (P.B.) - É uma questão interessante porque, muitas vezes, estamos habituados a olhar para a produção agrícola, mesmo para a produção agroindustrial, como uma commodity que tem um valor quase único e transversal em todo o mercado. A Fundação Eugénio de Almeida, concretamente a atividade no setor vitivinícola que começou com a plantação de vinhas na década de 1980, mas também com a exploração de uma vinha mais antiga que existia na propriedade da família, ainda prévia à constituição da fundação, que tinha sido plantada na década de 1950 e que foi, nos anos 80 do século passado, a base e o início desta exploração, teve sempre como objetivo a produção de produtos de qualidade, neste caso o vinho e, mais tarde, o azeite. Quis fazê-lo de forma consistente, ou seja, desde o início na expansão do setor vitivinícola como de outras atividades agrícolas, a fundação associou-se à ciência para que a implementação dessas atividades fosse feita efetivamente com todo o conhecimento disponível para que se conseguisse obter produtos de qualidade, produtos que mostrassem a originalidade da região onde estão inseridos. No caso do vinho, vinhos produzidos com denominação de origem controlada - Évora/Alentejo - e com indicação geográfica - alentejano, com esta ligação à região, aos solos, ao clima que, como sabemos, tem um contributo importantíssimo.

As marcas - Pêra-Manca, Cartuxa, EA - acabam por não só trazer o tal rendimento económico como reforçam a notoriedade e o prestígio da fundação. Sente isso?
P.B. - Sinto que há efetivamente uma ligação muito grande entre o que é o prestígio, o reconhecimento do que é um trabalho que é o fruto da missão da fundação, e o que são as marcas. Esse valor das marcas tem que ver, do meu ponto de vista, com esta base que referi e que foi construída e alimentada ao longo dos anos de uma forma muito especial. Ou seja, é na consistência deste trabalho ao longo dos anos, que foi começado, no caso da produção de vinhos, em 1982 com a recuperação de algumas vinhas e a plantação das primeiras nesta nova fase da fundação, que assenta o valor das marcas associadas.
O consumidor quando reconhece numa marca como Cartuxa, Pêra-Manca ou EA o seu valor, não o reconhece associado a uma colheita específica, reconhece-o sobretudo pela continuidade de um trabalho feito, tendo sempre como objetivo um produto efetivamente único e de qualidade. Da mesma forma que a fundação assenta, enquanto fundação, também num trabalho de continuidade, num trabalho consistente através da sua missão. Portanto, acaba por ser, naturalmente, um somar de um posicionamento consistente, oferecendo à comunidade quer os frutos do resultado da missão quer os seus produtos, neste caso concreto agroindustriais com uma consistência de qualidade ao longo dos anos.

Além de todas as atividades culturais e de recuperação do património, há a vertente social. Soube que agora, por causa da covid, lançaram a cantina social. É esta parte social que dá mais satisfação na missão da fundação ou é apenas mais uma valência porque ela tem de ser completa?
F.S.C. - Pegando na pergunta anterior e na resposta anterior, eu penso poder ler na vivência desta fundação a afirmação de que este território, de que esta região, o Alentejo, tem grandes potencialidades e Vasco Maria Eugénio de Almeida percebeu isso com clareza. Na altura dele, o Alentejo era o celeiro de Portugal - no contexto do Estado Novo -, hoje, nós fazemos um trabalho, como o engenheiro Pedro Baptista acaba de dizer, que confere o selo da qualidade à Fundação Eugénio de Almeida que prova com a sua qualidade, a qualidade destas terras, deste povo e desta gente. Há aqui uma confirmação de que o Alentejo tem de facto potencialidades, porventura ainda muitas mais, que têm de ser descobertas e têm de ser levadas a cabo para que nós percebamos como, de facto, esta região é capaz de contribuir para o país, para o bem-estar, para a qualidade de vida dos portugueses. Aquilo que se faz procura ser uma prova nesse sentido, também ao nível patrimonial. A recuperação patrimonial estimula a qualidade nesta cidade daquilo que é a recuperação e que é o património da cidade. É dentro deste âmbito que a questão social se insere, ou seja, a fundação, nesta sua preocupação de fazer sentir a capacidade desta região, tem de estar ao serviço de uma situação concreta que surgiu, que foi a pandemia de covid-19, e fazê-lo com qualidade. A cantina social, este serviço social que surgiu, que serve até 200 refeições, é marcada por muita qualidade. É marcada pela escolha do sítio, que é uma referência para muitas pessoas que vêm a Évora, onde se tomam refeições com muito nível e é aí também que se servem as refeições às pessoas mais carenciadas, é no mesmo sítio.

Está a falar da enoteca?
F.S.C. - Da enoteca, exatamente, que é um sítio quase obrigatório quando o turismo rola normalmente. Estamos agora a viver um momento muito especial, que não é de facto típico. Vir a Évora implica quase obrigatoriamente vir à enoteca. Não é só à Capela dos Ossos, começa a ser também necessária essa outra componente que cada vez mais se vem descobrindo. É interessante o fascínio pelo vinho, o modo como as pessoas veem a enoteca e descobrem a raiz profunda desta cultura, deste Alentejo. Então, é daí que vem a partilha da possibilidade de atingir 200 pessoas, que instituições que normalmente servem refeições - estou a pensar, por exemplo, na Caritas, na Santa Casa da Misericórdia, na Cruz Vermelha, na Pão e Paz -, ao não serem capazes de responder a todos os problemas que cresceram muito na procura e ultrapassam a sua possibilidade, nos enviam e nós complementamos. Para além desta dimensão de qualidade que se procura pôr no encontro pessoal, na personalização do trato, no respeito, na capacidade de estimular a confiança, a esperança, na humanização, a fundação tem um longo caminho de compromisso, e fê-lo sempre na qualidade que impõe a discrição. Ou seja, a fundação está agora a servir estas refeições por urgência, e fá-lo-á o tempo que for necessário, mas há muitos anos que tem um contrato de parceria com uma grande instituição da cidade e, enfim, com um timbre muito conhecido, que é a Caritas, onde todos os meses entrega um quantitativo para que esta exerça a sua função. Sem a fundação aparecer, esse significativo tributo é administrado pela Caritas com toda a competência e qualidade, não sendo nenhum desse contributo para a administração da Caritas, para o uso dos seus próprios serviços. Uma das condições da nossa relação é que ele é todo para chegar ao utente. Há muitos anos que a fundação apoia a população de Évora, neste silêncio, eu diria quase neste respeito, em que não se sabe que uma parte muito significativa dos serviços da Caritas são apoiados pela Fundação Eugénio de Almeida.

Mas além deste apoio social que é a cantina e esse, de que falou, à Caritas há também apoios a outros níveis, como as bolsas de estudo, sempre nesta perspetiva de promover o Alentejo e as pessoas do Alentejo e dar-lhes oportunidades?
F.S.C. - A nossa dimensão é mais do que assistencialista, ou seja, naquela crise concreta, aí sim, também é necessária. Acudir a uma situação de assistência a um problema é dar à pessoa a capacidade de deixar de precisar. Portanto, a nossa grande alegria é quando não faz falta vir pedir apoio aos nossos serviços. Por isso é que nós apoiamos sobretudo a promoção, através de bolsas de estudo, através de formação profissional. Com o voluntariado, promovendo depois também formação específica e agora, poderemos aprofundar isso, com iniciativas muito interessantes de formação para que, nesta época em que muitas pessoas estão sem trabalho, possam valorizar-se para, amanhã, terem possibilidades, ferramentas, para poderem viver por si. A nossa preocupação é, de facto, a dignificação da pessoa. A pessoa dignifica-se na sua liberdade, na sua autonomia e na sua inserção. É muito importante esta questão da inserção social, em que a pessoa não tenha a marca - não queria usar a palavra estigma - de não ser alguém que não é plenamente livre porque não é autónoma, portanto depende. A fundação evita ao máximo essa dependência, por isso também estimula a capacidade, a iniciativa de cada pessoa para caminhar por ela, de não manter uma dependência subsidiária. Procuramos gerar na pessoa a capacidade de ela, por ela, singrar e fazer o seu próprio caminho. A fundação tem uma tradição muito longa que cruza a solidariedade com uma exigência saudável, que é exatamente aquela que faz que não vivamos uma psicologia de dependência. É importante que se crie, de facto, a segurança e a confiança da autonomia.

Há também esta componente da fundação como empregadora, muito na área da agricultura, na produção de vinhos. Tem ideia de quantas pessoas emprega a fundação?
P.B. - A fundação emprega, a tempo completo, cerca de 210 pessoas nas diversas áreas. Naturalmente que a área agrícola e agroindustrial é responsável pela maior parte desse emprego. Nas épocas de ponta, no caso da produção de vinho e concretamente na vindima, este número quase que duplica. Naturalmente que tem um impacto muito grande na região, não só na região de Évora no seu todo como, naturalmente, no meio agrícola em particular.

Além de dar emprego, é possível dizer que também certas profissões, certos saberes, são preservados porque existe a fundação e a fundação produz produtos agrícolas?
P.B. - Naturalmente que sim. A fundação, ao manter uma atividade agrícola bastante diversa, permite realmente que esse conhecimento passe, mas a fundação é mais ativa do que isso. Também no âmbito da formação, nomeadamente na formação profissional nas áreas agrícolas, a fundação é parceira de institutos politécnicos - também de universidades, claro, mas aí numa componente mais científica -, do Instituto do Emprego e Formação Profissional. A fundação recebe, no seio das suas atividades normais, regulares, estagiários em pleno período de formação ou em período posterior à sua formação, para que possam complementar os conhecimentos mais teóricos que recebem nessas instituições com a prática de terreno que lhes é permitida na fundação. Portanto, também desta forma, duma forma muito ativa, muito empenhada com a comunidade onde está inserida, a fundação tenta efetivamente promover esta valorização das pessoas a todos os níveis e, naturalmente também, nesse campo agrícola que tem tanto que ver com a fundação.

Em traços gerais, qual é a origem desta fortuna que permite a Vasco Maria Eugénio de Almeida criar a fundação? É uma fortuna mais ou menos com um século?
M.C.R. - É verdade. O primeiro fazedor desta fortuna é José Maria Eugénio de Almeida, que na década de 1870 já tem um projeto daquilo que viria a ser o seu legado. Que é um legado de conhecimento, de valor económico, de empreendedorismo e de filantropia.

Estamos a falar do bisavô do fundador?
M.C.R. - Estamos a falar do bisavô do fundador, da primeira geração Eugénio de Almeida. José Maria Eugénio de Almeida é empresário, político, par do Reino, provedor da Casa Pia de Lisboa e, como empresário, tem o monopólio do tabaco, do sabão e da pólvora e, por isso, faz uma grande fortuna. Desenvolve também outros ramos de atividade, tem uma chapelaria e outras atividades comerciais e industriais. Isto sempre acompanhado de grandes preocupações com os empregados - cantinas, alojamentos, benefícios sociais que, nesse contexto de emergência industrial, geravam atenção e preocupação. Portanto, é um empresário com preocupações sociais, eu diria que é um ator da responsabilidade social avant la lettre. Faz uma grande fortuna, mas faz também um grande trabalho social. Destaca-se na sociedade do seu tempo, por isso é par do Reino, por isso é provedor da Casa Pia de Lisboa.

Há continuidade desse espírito filantrópico nas gerações seguintes, até chegar o fundador da Fundação Eugénio de Almeida?
M.C.R. - Há. A Casa Pia de Lisboa é também administrada pelo filho Carlos Maria e, na verdade, é um legado quer de valores, quer de visão, quer de trabalho, que é passado de geração em geração. O lema da família é Deus, Labor et Constantia (Deus, Trabalho e Perseverança) e é o lema que passa até Vasco Maria Eugénio de Almeida. Os valores, a visão e a prática do empreendedor e empresário com responsabilidade social, filantropo, mecenas, é o cunho deixado por José Maria, continuado por Carlos Maria e José Maria e que conhece em Vasco Maria o último desta linhagem e que, por isso, não tendo descendentes vivos, constitui a fundação em homenagem aos seus pais e avós. Ele assume no seu testamento a homenagem à família, quer no nome com que cunha a fundação quer no reconhecimento que faz de toda a herança que recebeu, material e imaterial. Deixa todos os bens que foram acumulados, preservados e ampliados, já para não falar de colocados ao serviço ao longo de quatro gerações, dentro da fundação para que este legado tenha continuidade, renovação, resiliência e possa servir de uma forma perene. A fundação, em regra, por definição, tem uma vocação perene, sem limite de tempo. Ocasionalmente pode haver uma fundação criada para um determinado período, mas a Fundação Eugénio de Almeida, como a maioria delas, é um projeto de serviço, de filantropia, de serviço à comunidade, ao bem comum, em aberto. Portanto, precisa de ter muito claro quais são os seus valores, qual é o legado e os fins que deve servir, para se fazer uma atualização permanente, uma leitura atualista da vontade do fundador. Ser-lhe fiel, mas ser adaptada aos tempos. Portanto, José Maria foi o grande fautor da riqueza material e, diria, da visão que depois inspira as gerações seguintes; Carlos Maria, o seu filho, cuidou muito bem dos bens do pai, muito especialmente porque sendo agrónomo - José Maria era lente em Direito, Carlos, seu filho, é agrónomo - investe já muito nas terras que hoje são da fundação e tem uma tese de licenciatura, de conclusão dos seus estudos agronómicos, sobre a importância das vinhas no desenvolvimento do Alentejo. Também é interessante, retrospetivamente, pensar como o futuro se inspirou nesse trabalho. A terceira geração, o pai de Vasco Maria Eugénio de Almeida, tem porventura um papel menos relevante, ou menos passível de ser capturado em obra, mas com Vasco todo o saber, a riqueza, a visão, foram transportados ao longo das várias gerações e traduzidos numa instituição. É este ato de institucionalização, com estatutos, com regras, com fins, com desígnios, com órgãos próprios de governança, que cria a filantropia operacional e que cria esta oportunidade concreta de renovação daquilo que é o ADN de uma família numa obra intemporal.

Recentemente adquiriram a Tapada do Chaves. Além do valor simbólico da marca, isso significa que a fundação não se limita ao que foi a herança do património do fundador, ela tem horizontes de desenvolvimento económico, mas com que filosofia?
P.B. - Essa questão que põe muito bem, da valorização da marca, é também esta perspetiva de serviço da fundação de recuperação de uma marca que faz parte da história dos vinhos alentejanos, à semelhança de marcas como Cartuxa ou Pêra-Manca de que já falámos. A Pêra-Manca é a que se perde mais no tempo desde há cinco séculos enquanto referência de vinhos desta região; a marca Cartuxa é mais recente até do que a Tapada do Chaves, mas é uma marca fortemente relacionada com o Alentejo enquanto região produtora de vinhos de qualidade; a Tapada do Chaves é uma marca que esteve afastada das luzes da ribalta e que a fundação entendeu que valia a pena recuperar pelo património que ela representa.

É Alentejo, mas não é Évora...
P.B. - É verdade. É Alentejo/Portalegre, uma zona mais a norte, com as suas especificidades, mas, no fundo, são essas especificidades que dão a identidade única aos vinhos produzidos na adega Cartuxa em Évora.
A Tapada do Chaves representa historicamente, e que é claramente transposto para os dias de hoje, aquilo que é a identidade dos vinhos desta região de Portalegre, também no Alentejo.

Uma aquisição destas não altera, reforça até, a identidade da Fundação Eugénio de Almeida?
P.B. - Acreditamos que contribui seriamente para o reforço da imagem da Fundação Eugénio de Almeida enquanto produtora, enquanto uma identidade que partilha a todos os níveis, desde a produção até à missão - a sua razão de existir -, produtos de qualidade.

Esta fundação e Évora não se conseguem já dissociar. Tal como a universidade é essencial em Évora também esta fundação é essencial para a cidade e a região?
F.S.C. - Sem dúvida, até porque faz parte do conselho de administração a presença da universidade, na pessoa da sua reitora, a Prof. Dra. Ana Freitas, que é um dos membros institucionais da fundação, com a arquidiocese e o Instituto Superior de Teologia de Évora, optando depois por dois membros à sua decisão. Eu diria que Évora tem a sua fundação, ou seja, que se revê na sua fundação por um conjunto imenso de possibilidades que esta lhe tem aberto. Reparemos que Évora, Património da Humanidade, cidade-museu, tem de facto uma quantidade extraordinária de exemplos patrimoniais, de arte. Podemos quase fazer a viagem pela história da arte em Évora, por este mosaico, por esta maravilha que é o vitral com diversas cores que são as pegadas da humanidade, já antes do império romano, com a riqueza pré-histórica em Évora e no concelho. É exatamente neste contexto que a modernidade e a contemporaneidade se impõem, porque senão Évora parava no tempo. Podemos dizer que ficava sem ligação. Era um museu para se visitar, mas não era, de facto, uma cidade em dimensão global, inserida nos desafios do nosso tempo. O Museu de Arte Contemporânea é uma dádiva da Fundação Eugénio de Almeida, e todo o trabalho que se desenvolve a nível da arte, a nível das dimensões estéticas que a fundação propõe, com atividades e com programas imensamente interessantes, ricos, abertos à população da cidade de Évora, é um abraço constante e é uma possibilidade de ter em Évora o mundo. Eu diria que na globalização, a Fundação Eugénio de Almeida se tornou uma janela, uma porta que abre Évora ao mundo e abre o mundo a Évora. Há uma outra questão que eu gostaria também de colocar - se Évora sente esta presença da fundação, a fundação também sente a presença de Évora. Ou seja, Évora dá uma identidade muito forte à fundação porque é uma cidade com um desafio enorme na sua dimensão de receber. Évora tem estado num crescimento, e acreditamos que vai continuar, ao nível do turismo, de acolhimento turístico, impressionante. Évora é uma cidade pontuada no mundo como referência, basta ser Património da Humanidade. Portanto, é uma das portas também abertas à humanidade para o conhecimento da nossa cultura portuguesa. Não é possível passar por Évora sem perceber a Fundação Eugénio de Almeida. Esta acaba por ser também uma porta para o mundo, para aquilo que é a nossa dimensão de portugalidade, ou seja, da nossa cultura. As pessoas procuram, de facto, encontrar-se com a fundação não só pelas suas possibilidades vitivinícolas, pela questão patrimonial, mas porque percebem que a cidade de Évora tem na sua acrópole a sede da fundação, que esta casa ao lado da catedral, neste conjunto da cidade, faz uma distinção e faz uma prova, uma experiência da beleza desta cidade. As obras de recuperação foram, graças a Deus, tão bem conseguidas que tornam de facto este local um lugar cidadela onde as pessoas passeiam, onde as pessoas passam e se encontram com um bom pedaço da Évora de sempre, a Évora medieval, a Évora renascimental. O património, o recheio da casa dos condes de Basto, hoje a Casa Eugénio de Almeida, constitui uma visita riquíssima, o seu valor arquivístico, a sua biblioteca... Por isso, penso que a Fundação Eugénio de Almeida contribui para que o povo eborense sinta uma certa segurança. Não podemos esquecer que Vasco Maria Eugénio de Almeida era um homem de braços muito largos, com uma tenda muito alargada no seu coração. Também na saúde, o apoio que ele deu ao Hospital do Patrocínio fez deste um dos hospitais hoje recuperados, concluídos e ao serviço da saúde pública, do Serviço Nacional de Saúde. Em muitos aspetos - o aeródromo de Évora, a Cartuxa de Évora, que é uma simbologia tão forte, que traz hoje a redescoberta do valor espiritual que ali se viveu. É impressionante a quantidade de gente que visita a Cartuxa.

Vai voltar a ser um espaço religioso...
F.S.C. - Mas terá sempre uma diferença entre a Cartuxa dos cartuxos, portanto a Cartuxa cartusiana, e a cartuxa enquanto edifício, enquanto arquitetura, enquanto estrutura monástica que está ali e estará ali sempre. Portanto, é uma pegada de uma espiritualidade, de um carisma de São Bruno, mas foi habitado pelos cartuxos que são uma ordem religiosa e eremítica, que não preveem a possibilidade de visita nem de acolhimento, de hospedagem. A comunidade que vai vir é eremítica e cenobítica. É próprio da vida monástica na história da Igreja haver um espaço de acolhimento para qualquer pessoa que deseje passar dias, estar ali, viver, conviver, fazer a experiência orante, fazer o silêncio, fazer o deserto, fazer o encontro consigo próprio, fazer uma terapia espiritual, de purificação interior, poder fazê-lo. Esta congregação religiosa que, em breve, teremos tem esse espaço previsto de acolhimento. Sendo que a igreja, a grande igreja da Cartuxa monumental, não era o espaço onde os monges rezavam, eles rezavam num espaço interior mais reduzido. Essa será a igreja que as irmãs vão usar para rezar e estará aberta permanentemente à população de Évora que queira rezar com elas. Portanto, será uma Cartuxa, agora com uma ordem monástica feminina, de osmose entre a espiritualidade que ali se vive e a sede, a solidão, muitas vezes o vazio e até a escuridão que, por vezes, muitas pessoas sentem na vida e procuram, em oásis, recompor o seu interior e curar-se espiritualmente. Eu colocaria esta fundação assim como a hera e a parede - é muito difícil arrancar a hera da parede porque destruímos a planta.

A fundação e Évora são assim também?
F.S.C. - Exatamente como a hera e a parede.

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