'Quo vadis', Francisco?

Eu bem me esforço por não comentar assuntos relacionados com a Igreja Católica. Logo eu, nascido e criado à luz dos ensinamentos da Santa Madre. Batizado, frequentador da catequese, com a comunhão solene, a profissão de fé e o crisma feitos.

Vivo entre a vontade de deixar os temas da Igreja para os fiéis, a noção da importância que as suas tomadas de posição têm para pessoas próximas de mim e para a comunidade de que faço parte e uma confusa sensação íntima sobre a religião em que fui criado e as pedras que o Pedro começou a alinhar.

O meu afastamento da fé e da organização teve nada de revolucionário - talvez graças ao meu adorado São Tomás, nada na minha vida é -, foi um desvanecer, um apagamento, um entristecimento gradual.

Depois do afastamento completo houve a fase do militantismo ateu, um matafradismo violento. A verdade é que esse matafradismo é a prova de que esse afastamento nunca foi, afinal, completo. "Se além da educação que tiveste, como te poderias separar totalmente se vives numa sociedade em que o Estado não se consegue verdadeiramente separar da religião, as escolas católicas são subsidiadas com dinheiros públicos, em que os bispos e cardeais estão presentes em cerimónias de Estado e uma infinidade de privilégios que de facto a Igreja desfruta?" Isto dirão os meus companheiros de ateísmo e combate à Igreja. Será, não o nego, mas a consciência disso em nada altera o que sinto. Diria até que, no meu caso, me afasta ainda mais de tudo o que a instituição e, por feliz ou infeliz arrasto, a religião defendem ou promovem.

Gostava que o meu afastamento, já antigo, me permitisse dizer que os ensinamentos da Igreja Católica me tinham trazido mais coisas boas do que más, mas não seria verdade. No fundo, queria que a minha separação fosse como aqueles divórcios que o tempo leva a que do casamento sejam lembrados os bons momentos e esquecidos os maus.

As boas lições são as comuns aos homens de boa vontade, sejam muçulmanos, adventistas do sétimo dia, ateus ou judeus, as más lições são piores do que as ensinadas pelos homens ruins porque são vendidas como boas.

Os valores, as ideias, os preconceitos fora desses, repito, comuns aos homens de boa vontade, que me foram transmitidos não fizeram de mim um homem melhor, pelo contrário. Ficaram demasiados complexos, demasiados sentimentos de culpa, demasiadas coisas de que me tento afastar e não consigo.

"O mundo existe para todos, porque todos os seres humanos nascem nesta Terra com a mesma dignidade", diz o Papa Francisco na última encíclica, Fratelli tutti.
Não foram estes os ensinamentos que a Igreja me deu, não é essa a sua história desde há muito tempo. A Igreja é feita de homens, e estes erram. Pois, foram demasiados a errar. E continuam a errar e a promover o erro e a desumanidade. Ainda nesta semana, Francisco o veio berrar aos quatro ventos quando veio pedir o mínimo respeito pela dignidade dos homossexuais. Podia continuar. Podia falar do desrespeito pelas mulheres que a Igreja promove, dos milhões de católicos divorciados a quem é negada o exercício pleno da sua fé e de todos os homens, todas as mulheres que a Igreja não reconheceu nem reconhece dignidade.

O encantamento com que fui lendo a última encíclica papal, Frattelli tutti, foi-se misturando com uma espécie de angústia, perguntas que me ia esforçando por afastar: e se tivesse sido isto? E se fosse esta a prática, tivessem sido estes os ensinamentos? Se fosse este carinho, esta hospitalidade para as nossas fraquezas, esta compreensão da nossa natureza, ter-me-ia afastado da Igreja? Se fosse este o entendimento da nossa vida em comunidade que o Papa Francisco mostra nesse texto, a minha fé teria continuado firme?

Bem sei, fraca a fé que precisa de tantos atos humanos para se manter. Consigo, ignorante e vagamente, imaginar os disparates teológicos que estas perguntas encerram. Mas não foi Mateus (18:18) que nos mostrou as palavras de Jesus Cristo "Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu"? A mim desligaram-me na terra e entupiram-me a comunicação. No fundo, desligando-me na Terra com atos e omissões negaram-me a possibilidade da fé, até a possibilidade de Deus.

Sim, isto de ser um ateu católico não é fácil e inquieta.

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