Morte religiosamente assistida deixa de ser obrigatória

Portugal está em vias de passar a ter a morte medicamente assistida como opção à, até agora obrigatória, morte religiosamente assistida. Como vão ficar sem o monopólio, numa hipocrisia sem tamanho, os que não querem a eutanásia por motivos religiosos queriam um referendo, mas só estariam disponíveis para aceitar o resultado desse referendo se o povo votasse maioritariamente contra a eutanásia. Um dogma é um dogma e nenhuma igreja deixa que os seus fiéis se juntem aos infiéis para decidir o contrário do que é suposto ter Deus decidido em nome de todos.

Rejeitada a consulta popular, a Conferência Episcopal Portuguesa veio queixar-se dos deputados por não quererem "auscultar o povo, impossibilitando um debate mais amplo e uma reflexão mais aprofundada sobre tema tão essencial para cada cidadão e para a sociedade no seu todo", como se a discussão tivesse começado agora, como se não houvesse muitas pessoas a sofrer numa vida que não as vai levar a lado nenhum senão a uma morte dolorosa e que anseiam pela paz que merecem.

A falta de respeito por essas pessoas que sofrem ou possam vir a sofrer e desejem para si próprias a eutanásia não tem tamanho. Os bispos desenterraram mais um argumento de última hora, de muito mau gosto, misturando a pandemia com o direito individual de antecipar a morte, mesmo que em condições muito restritas. "Se as coisas estão mal, então ajudamos-te a morrer", diz a Igreja Católica, atribuindo a solução aos deputados que rejeitaram o referendo e aprovaram, ainda que apenas na generalidade, o direito a morrer com assistência médica. Vale que o seu Deus é misericordioso.

Vezes sem conta me declarei favorável à eutanásia e outras tantas aceitei a necessidade de fazer um referendo. Obviamente, disponível para aceitar um resultado diferente daquele que defendo.
Percebo o argumento dos que dizem que a liberdade e a autonomia individual não se referendam, mas este é um direito que não se exerce sozinho e a única forma de podermos dar a estabilidade que uma matéria destas tem de ter é mesmo com um referendo. A alternativa é ter a eutanásia dependente das maiorias conjunturais que se formam no Parlamento.

Aprovada agora desta forma, haverá toda a legitimidade democrática para revogar esta lei com uma maioria de sentido contrário. Percebo ainda melhor o argumento dos que temem que num referendo o debate deixe de ser racional, quando se ouve dizer, por exemplo, que os filhos vão querer matar os pais.

Aqui chegados, e na impossibilidade de recorrer ao divino, os católicos e crentes de outras religiões vão recorrer a Marcelo Rebelo de Sousa, um Presidente da República católico que se prepara para ser novamente candidato e que tem, por isso, a obrigação de dizer o que pensa sobre a eutanásia e sobre o referendo à eutanásia. O problema é que Marcelo quer o voto de eleitores de todos os partidos e fica como um agnóstico no meio da ponte.

Jornalista

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