Graças a Deus. Ou graças a nós.

Fomos abalados pela execução de Samuel Paty, professor de História e Geografia, a 16 de outubro, frente à escola onde trabalhava, nos arredores de Paris. A causa próxima do crime foi a exibição, numa aula de Ensino Moral e Cívico, de duas das caricaturas de Maomé publicadas pelo Charlie Hebdo. A disciplina de Ensino Moral e Cívico é obrigatória ao longo de todo o currículo do ensino não superior, desde o ataque ao Charlie Hebdo em 2015, que é um dos temas do programa. Os seus objetivos são: respeitar os outros, adquirir e partilhar os valores da República (liberdade, igualdade, fraternidade, democracia, cidadania, laicidade, liberdade de expressão) e construir para si mesmo uma cultura cívica.

Choca a crueldade do crime. Perturba ter sido cometido por um jovem de 18 anos, residente em França, onde a sua família se refugiou há 12 anos, fugindo de perseguição religiosa. Impressiona o atentado ocorrer no país que viu eclodir a Revolução Francesa, que se rege pelo princípio de "o governo do povo, pelo povo e para o povo", que é o reduto da laicidade, onde se desenvolveu o conceito moderno de cidadania.

Redime-nos a mobilização espontânea dos que vieram para a rua defender os alicerces da sociedade francesa, contrariando o medo do vírus e do fundamentalismo, o medo da aplicação de princípios religiosos tradicionais e ortodoxos a todas as áreas da sociedade, sem admitir qualquer evolução ou mudança. Pergunto-me quantos cidadãos em Portugal se teriam mobilizado desta forma em situação semelhante.

O assassínio de Samuel Paty evoca outros atentados motivados pelo fundamentalismo islâmico, como o cerco da escola de Beslan, em 2004, ou o ataque a Malala Yousafzai, em 2012. Podemos ser levados a acreditar (como tenta a extrema-direita) que o problema é o islão, que é a religião islâmica que incita a esta violência contra a escola e a liberdade de expressão. Mas não é assim. Outros fundamentalismos fomentam ódios idênticos. Pense-se nas agressões, ameaças, perseguições a professores, no Brasil de Bolsonaro, incentivados pelo Escola sem Partido, movimento de matriz católica, de que as igrejas evangélicas se apropriaram. Em última instância, é também fundamentalismo religioso o que motiva, em Portugal, aqueles que impedem os seus filhos de frequentar as aulas de Cidadania e Desenvolvimento.

A causa profunda da execução de Samuel Paty é o fundamentalismo religioso, atualmente fortalecido e legitimado por movimentos extremistas, islâmicos, e não só, que pululam nas sociedades contemporâneas. O fundamentalismo religioso é a antítese do respeito pelos direitos humanos, é a proliferação das trevas e do medo. A escola pública é o farol que ilumina a sociedade e promove o respeito pelo outro, a tolerância, a solidariedade. E, para o conseguir, tem de ser laica.

Portugal está muito longe de ter uma sociedade perfeita, temos um longo caminho a percorrer e duras batalhas a travar. Temos vindo a construir, porém, nas últimas quatro décadas, uma escola laica e uma sociedade maioritariamente tolerante e respeitadora dos diversos credos e também do agnosticismo e do ateísmo. Graças a Deus. Ou graças a nós. Somos livres de escolher.

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

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