Ficção sobre cascas de banana

O novo romance de Mario Vargas Llosa, Tempos Duros, traz mais uma contribuição à coleção de disparates em torno de Carmen Miranda. A querida Carmen, brasileira de Várzea de Ovelha, freguesia de São Martinho da Aliviada, concelho de Marco de Canaveses, distrito do Porto e palcos do Rio de Janeiro, continua sujeita a delírios biográficos. É como se a sua exuberância como artista e como pessoa autorizasse os escritores a criar fantasias à sua volta, sem nenhuma comprovação factual. Sei disso porque, nos cinco anos que lhe dediquei para escrever meu livro Carmen - Uma Biografia, publicado em 2005, o maior trabalho foi para desbastar as invencionices e lendas que investigadores imaginativos teceram sobre ela. A de Vargas Llosa é apenas a mais recente, e não das mais brilhantes.

Um dos principais personagens do seu livro é um americano, Edward L. Bernays, consultor empresarial, conferencista, agente de artistas (um deles, Enrico Caruso), publicitário e criador do conceito de relações públicas. Bernays existiu de verdade e foi mesmo tudo isso ou mais. Uma das suas maiores façanhas foi popularizar o consumo mundial de banana a partir do seu trabalho para a United Fruit, a gigante da exploração de bananas na América Central. O proprietário da United Fruit, Sam Zemurray, russo radicado nos Estados Unidos, era um empresário sem qualquer escrúpulo. Conquistara os territórios bananeiros de Honduras, Guatemala, Nicarágua, El Salvador, Costa Rica, Colômbia e outros países à custa de guerras contra rivais, tiros pelas costas, corrupção de autoridades, apoio a ditadores e escravização de indígenas. Apesar de todo o seu poder - as suas terras no continente competiam em extensão com as de muitos países europeus -, os próprios americanos viam Zemurray como um gangster, e ele não gozava de prestígio entre as esferas oficiais.

Zemurray contratou Bernays para mudar essa imagem, e Bernays instruiu-o a investir em educação, saúde e filantropia nas terras sob o seu domínio. Isso limparia a sua imagem e torná-lo-ia mais palatável para Washington e faria que o povo americano vencesse o seu preconceito contra a banana, que viam como um alimento para macacos. Bernays conseguiu o milagre, e a banana passou a integrar o pequeno-almoço de muitas famílias americanas. Uma das maneiras de conseguir isto, segundo Vargas Llosa, foi "levar para os Estados Unidos a cantora e bailarina brasileira Carmen Miranda, que fez um sucesso enorme com seus chapéus de cachos de bananas".

Eu sei, os romancistas, ao contrário dos biógrafos, não precisam se apegar à verdade. Mas, quando se trata de usar personagens reais em suas tramas imaginárias, deveriam ser um pouco mais cuidadosos com os factos. E Vargas Llosa escorregou feio.

Ele mesmo diz, na primeira página do seu livro, que Bernays e Zemurray se conheceram em 1948. Significa então que só a partir dali Bernays começou a trabalhar com a United Fruit. Ora, em 1948, Carmen já estava havia nove anos nos Estados Unidos - fora para lá em 1939, contratada pelo megaempresário teatral Lee Shubert, que a conhecera no Rio, no Carnaval daquele ano, quando ela se apresentava no Casino da Urca. A fantasia de Carmen no palco - que incluía um turbante encimado por uma pequena cesta de fruta, composta de uma banana, uma pera e um abacaxi - realmente fascinou-o, pelas cores e pela originalidade. Mas o que convenceu Shubert a levar Carmen para Nova Iorque foi a sua vivacidade, a voz afinada e insinuante, o jogo de braços e mãos e o brilho dos seus olhos verdes, capazes de fuzilar um espectador na última fila. E Carmen só aceitou a proposta porque já não tinha o que fazer no Brasil. Era a maior estrela do disco, da rádio e do cinema brasileiros e, para os padrões locais, uma mulher rica. Esgotara as possibilidades da época. E Nova Iorque - a Broadway - era um desafio. Que ela aceitou e venceu assim que entrou em cena no novo musical de Shubert, The Streets of Paris, em maio de 1939. Isso é facto, é história. Não é ficção.

Portanto, quem levou Carmen para a América foi Lee Shubert, não Edward Bernays. Além disso, o seu turbante, a princípio frutífero - uma cansada anedota dizia que, se Carmen, por algum motivo, se visse com o frigorífico vazio, bastar-lhe-ia comer o turbante -, sempre teve os mais variados recheios. Em seus filmes, Carmen usou turbantes decorados com flores, plumas, borboletas, miniaturas de guarda-chuvas, utensílios de cozinha e até um farol fálico, que acendia e apagava. O único filme que a associou ostensivamente a bananas foi Sinfonia de Estrelas (1943), em que o diretor Busby Berkeley a filmou diante de um cenário gigante de bananas, como se elas fossem o prolongamento do seu turbante. Foi, sem dúvida, um grande momento da carreira de Carmen, mas não o suficiente para reduzi-la a esse estereótipo.

O único vestígio de veracidade na narrativa de Vargas Llosa deve-se ao facto de que, em 1949, o público americano pode ter associado Carmen a uma personagem criada por Bernays para a United Fruit: a Chiquita Banana - uma referência à marchinha Chiquita Bacana, de João de Barro e Alberto Ribeiro, lançada no Carnaval carioca daquele ano por Emilinha Borba. O logótipo com o nome Chiquita Banana e o desenho da rapariga com o turbante de fruta tornaram-se uma marca popular. Mas ela tanto poderia lembrar Carmen quanto qualquer rapariga entre as milhares que, desde a chegada dela aos Estados Unidos, dez anos antes, adotaram os seus turbantes e passaram a recheá-los com o que compravam na quitanda. Em 1949, turbantes de fruta já eram acessórios corriqueiros nas lojas de roupa americanas.

Vargas Llosa é um grande romancista. Mas, ao misturar ficção e realidade, costuma escorregar nas cascas de banana que ele próprio deita ao chão.

Jornalista e escritor brasileiro

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