África, Portugal, Brasil

Em textos anteriores, aludi ao destino reservado a África no sistema mediático-cultural português: o silêncio ou o gueto. Posso estender essa observação ao Brasil, onde a situação talvez seja ainda pior. Em ambos os casos, essa realidade contrasta quer com a história desses dois países quer com a sua realidade antropológica, demográfica e cultural profunda. Por outro lado, é - vou dizê-lo - uma má estratégia de marketing.

De facto, e como se depreende da tradução literal de "marketing", este último consiste em nada mais nada menos do que "fazer mercados". Ora, quer em Portugal quer no Brasil há um mercado potencial para o noticiário relativo à atualidade africana e, também, para os seus produtos culturais. O que acontece, porém, é que esse potencial mercado não é devidamente trabalhado, o que - não tenhamos dúvidas - se deve a um fator ideológico: o preconceito eurocêntrico que predomina nas duas sociedades.

A demografia ajuda-nos a refletir concretamente sobre o tema. Nesse sentido, o caso do Brasil é escandaloso. A maioria da população brasileira - cerca de 55%, pelo menos - é constituída por descendentes de africanos. Mesmo relevando que os mesmos são, igualmente, os mais discriminados, com menos rendimentos e com menos formação académica, logo, com menos acesso a jornais, livros e outros produtos culturais, o silêncio dos grandes media locais em relação a África e a omissão das contemporâneas manifestações artístico-culturais africanas por parte das diferentes instâncias e entidades culturais do país são injustificáveis, embora facilmente explicáveis: afinal, a própria realidade e as manifestações artístico-culturais da sua principal comunidade demográfica (os afro-brasileiros) também são discriminadas e omitidas, com relativa exceção da música.

Nos últimos anos, entretanto, a situação dos negros melhorou um pouco e, com ela, a sua visibilidade. Há sinais, assim, de que o sistema mediático-cultural do país começa a dar-se conta de que, afinal, há um mercado para certas manifestações artístico-intelectuais produzidas por afro-brasileiros que até recentemente tinham um espaço muito reduzido, como, só para dar estes dois exemplos, a literatura e o ensaio académico.

É verdade que ainda há um longo caminho a percorrer, mas esse facto é encorajador. Por outro lado, isso pode abrir espaço a um maior interesse da atualidade africana, em todas as suas vertentes, por parte da imprensa e das instituições artístico-culturais (editoras, galerias, gravadoras, teatros, cinemas, casas de espetáculos e outras).

Quanto a Portugal, a sua conhecida relação histórica com África deixou marcas na respetiva sociedade que só não são devidamente valorizadas por causa do preconceito eurocêntrico que mencionei no início. A presença física de africanos (do norte ao sul do Sara) em Portugal remonta ao século VII, passa pelo período da escravatura e da colonização e estende-se até hoje. Além da porção africana na composição genética da população portuguesa, a cultura portuguesa tem, seguramente, traços africanos que merecem ser mais estudados.

O fim da colonização e as guerras que se sucederam em algumas das antigas colónias portuguesas em África provocaram uma onda de emigração de cidadãos africanos, de várias cores, para a antiga metrópole. Segundo um relatório de 2019 do Serviços de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de Portugal, os cabo-verdianos são a segunda maior comunidade de imigrantes no país, a seguir aos brasileiros. Os angolanos são o segundo maior grupo de africanos residentes no mesmo, estando o seu número a crescer desde o referido ano, por causa da crise económica vivida no seu país.

O SEF assinalou também um aumento de imigrantes africanos oriundos de outros países africanos, que não as antigas colónias de Portugal. É preciso não esquecer também os africanos que já se naturalizaram portugueses e os portugueses que viveram em África e com cuja realidade ganharam afinidades.

Ou seja: há um mercado (um público) para temas e expressões africanas em Portugal. A imprensa e o sistema cultural português, contudo, não os procuram, salvo exceções pontuais e episódicas. Neste momento, por exemplo, há uma onda de manifestações em vários países africanos e a imprensa portuguesa (e a brasileira) não diz uma linha. Talvez esteja à espera de traduzir alguma reportagem do The Guardian ou do The New York Times. Para facilitar, sugiro o El País, cuja cobertura africana é muito maior do que a da imprensa portuguesa e da brasileira juntas.
Por outro lado, se alguém quiser ler um autor africano não lusófono, terá de comprar uma edição em inglês ou francês. Se quiser ver uma exposição de um artista plástico ou assistir a um show de um grande músico africano, terá de ir a Paris ou a Londres.

Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21.

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