"É má estratégia entrar numa guerra com o governo italiano"

Antigo conselheiro da Comissão Europeia classifica o chumbo da proposta do orçamento italiano como "uma má estratégia". O economista político britânico Philippe Legrain acredita que a decisão dos comissários é uma "bomba que lhes explode nas mãos", numa guerra que "servirá para fortalecer" os populistas italianos nas próximas eleições. Nesta entrevista ao DN, Legrain identifica riscos no "tom confrontacional" entre Roma e Bruxelas. Se colapsar, "Itália pode simplesmente derreter o euro", avisa.

Há um braço-de-ferro entre Roma e Bruxelas. E agora?

Tanto quanto parece, o orçamento italiano representa uma violação das regras. Mas a questão é, em primeiro lugar, se as regras fazem sentido. E, em segundo lugar, se será politicamente inteligente para a Comissão Europeia entrar numa guerra com o governo italiano, numa altura em que têm muitos outros problemas.

Considera que é uma má estratégia da Comissão Europeia?

Tendo em conta a atitude confrontacional que o governo italiano tem com a União Europeia e o euro, politicamente é uma bomba que lhes explode nas mãos [da Comissão], já que o governo quer abrir uma batalha com Bruxelas para fortalecer o apoio popular, com vista às eleições europeias. E a Comissão começou a jogar esse jogo. Não tenho qualquer simpatia pelo Movimento Cinco Estrelas ou pela Liga, mas penso que é pouco sábio entrar nesta guerra.

A Comissão tinha outra opção?

Avançar com um défice de 2,4 por cento num país com elevado desemprego não deveria ser um crime. Tendo em conta isso, eles estão a avançar com um défice com a finalidade de fazerem aquilo para que foram eleitos, que no caso da Liga do Norte é a redução de impostos e no caso do Movimento Cinco Estrelas introduzirem o rendimento social. Parece-me que eles tem a legitimidade democrática para fazer o que se propõem a fazer.

Insisto. Poderia a Comissão aceitar este orçamento havendo regras violadas?

A Comissão tem flexibilidade pela forma como aplica as regras, e tem mostrado flexibilidade umas vezes e não tem mostrado noutras. Mesmo quando se restringem às leis, podem adotar uma postura mais confrontacional ou menos confrontacional. Do ponto de vista político, a Comissão está a tentar pressionar muito. Contra isso pode dizer-se que a Alemanha foi tratada diferentemente há uns anos atrás. Pode dizer-se que é pouco sábio porque provocar uma crise com Itália pode espalhar-se para outros países, com os spreads a subirem um pouco para outros países, incluindo Portugal.

A decisão desta terça-feira foi inédita, mas a estratégia não tanto. Vamos assistir a um déjà vu dos anos mais turbulentos da crise?

Há dois cenários. Um é o governo italiano não ceder e não voltar atrás - e não creio que caiba à Comissão Europeia fazê-los voltar atrás -, porque, no máximo, o que a Comissão Europeia pode fazer é impor uma multa. E Itália poderá simplesmente recusar-se a pagar. A ameaça para Itália são os mercados de capitais. Se os mercados entrarem em pânico, isso pode forçá-los a ceder. O risco é que, por outro lado, podem ser politicamente fortalecidos pela crise. De qualquer forma, nunca será a Comissão a fazer que o governo italiano ceda. De qualquer maneira, cederão sempre pela força dos mercados.

Mas isso é também um risco imenso no caso de Itália...

Se a estratégia em Bruxelas é: se os mercados entrarem em pânico, é um problema de Itália e Itália que o resolva, isso não é verdade. Itália é um mercado imenso, uma enorme economia. O tratamento imposto à Grécia, a Portugal ou à Irlanda não pode ser imposto a Itália. Se estala uma crise e o governo não ceder, isso pode implodir o euro.

A estratégia de quantitative easing do BCE voltaria a evitar um colapso?

Os instrumentos através dos quais a crise na zona euro foi travada, com o Mario Draghi a fazer o que foi necessário, está alicerçada na ideia de que os governos aceitam um programa de assistência e as condições associadas. Não parece que isso seja uma coisa provável para o governo italiano aceitar fazer. Durante a crise, também outros governos fizeram coisas que não queriam fazer, porque receavam os mercados. Obviamente isso pode acontecer outra vez agora. Mas, até acontecer agora, não penso que a Comissão Europeia vá alterar a sua atuação.

Voltamos ao mesmo: o risco é maior no caso da economia italiana.

Em 2015, houve um momento em que a Grécia teve a sua dívida praticamente na posse de todos os países da zona euro e, portanto, o potencial para o pânico era pequeno. Mas agora temos um enorme mercado de capitais em Itália, com muita da dívida italiana nas mãos da banca, que já está a sofrer internamente. Também há alguma dívida nas mãos de bancos estrangeiros e, nesse sentido, há o potencial para o contágio. Contágio porque, se a Itália entrar em incumprimento ou deixar o euro, a ideia de que será possível isolar o resto da zona euro é uma loucura, porque a Itália pode simplesmente derreter o euro. É uma química perigosa.

Em algum momento alguém terá de ceder. Consegue antecipar...

Avançar para uma rejeição do orçamento, abrir um procedimento por défice excessivo, avançar para sanções e provavelmente uma multa, que é a forma como o processo se agrava, não parece ser uma forma de fazer o governo italiano mudar de ideias. Eles podem dizer que não concordam com as metas orçamentais e que foram eleitos nessa base. Que as coisas que fazem são para agradar aos cidadãos italianos e fazem o que as pessoas querem. Ter uma guerra com a Comissão vai fortalecer o Movimento Cinco Estrelas e a Liga nas próximas eleições europeias.

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