Chefe da diplomacia de Biden vê Europa como "parceiro de primeiro recurso"

Presidente eleito anunciou a nomeação de Antony Blinken, que viveu em França dos 9 aos 18 anos e tem uma longa carreira ligada à diplomacia, para secretário de Estado. Apesar de Trump ainda não ter reconhecido a derrota, o democrata anunciou mais nomes para a equipa de Política Externa e Segurança Nacional.

Na famosa fotografia da sala de crise da Casa Branca durante o raide que resultou na morte do líder da Al-Qaeda, em 2011, Antony Blinken está lá atrás, a espreitar por cima do ombro do então chefe de gabinete de Barack Obama, William Daley. Há muito que o democrata se move nos bastidores da diplomacia norte-americana: era então conselheiro de Segurança Nacional do vice-presidente Joe Biden. Mas, a partir de janeiro, terá um lugar central à mesa: será o novo secretário de Estado dos EUA.

Tony Blinken, de 58 anos, é a aposta do presidente eleito para voltar a colocar os EUA no caminho do multilateralismo depois de quatro anos de "América Primeiro" de Donald Trump, que na campanha disse ter acabado por se transformar numa "América sozinha". Trump ainda não reconheceu a derrota nas presidenciais de 3 de novembro, mas Biden já está a anunciar a sua equipa.

"Na Administração de Biden-[Kamala] Harris, a política internacional e a segurança nacional serão liderados por experientes profissionais preparados para restaurar uma liderança baseada em princípios no palco mundial e uma liderança digna em casa", escreveu a equipa de transição, ao anunciar os nomes.

Além de Blinken, que também trabalhou na administração de Bill Clinton e chegou a vice-secretário de Estado com Obama, o presidente eleito escolheu a veterana Linda Thomas-Greenfield, uma afro-americana, para ser embaixadora das Nações Unidas, e Jake Sullivan, outro profissional da diplomacia que ajudou a negociar o acordo nuclear com o Irão, para conselheiro de Segurança Nacional.

Na procura que a sua Administração seja o reflexo do país, Biden vai nomear também o primeiro latino para liderar o Departamento de Segurança Interna, Alejandro Mayorkas (de origem cubana), e a primeira mulher para diretora das secretas nacionais, Avril Haines, que também já tinha sido a primeira a chegar a número dois da CIA.

A lista de nomeações já anunciada culmina com o nome do ex-secretário de Estado John Kerry, que será o czar para o Clima. Uma das prioridades é o regresso ao Acordo de Paris.

Um conhecedor da Europa

"A Europa continua a ser um parceiro de primeiro recurso, não de último recurso, quando se trata de enfrentar os desafios que enfrentamos", disse Blinken numa conferência em julho, no Hudson Institute, quando falava de quais considerava serem as prioridades numa eventual administração de Biden.

O futuro chefe da diplomacia norte-americana cresceu em Nova Iorque e em Paris, onde viveu entre os 9 e os 18 anos após o divórcio dos pais, quando a mãe se voltou a casar com o advogado e autor Samuel Pisar. O padrasto de Blinken era um sobrevivente dos campos de concentração de Dauchau e Auschwitz - "ele queria saber, contou Pisar ao The New York Times em 2013, quando o enteado era vice-conselheiro de Segurança Nacional.

"Ele pegou no que me aconteceu quando tinha a idade dele e acho que isso o impressionou e lhe deu outra dimensão, outro olhar para o mundo e para o que pode acontecer aqui", acrescentou, numa altura em que Blinken e Obama estavam a lidar com as notícias de que o regime sírio podia ter usado gás contra a sua própria população.

"Quando tem que se preocupar sobre o gás na Síria, quase inevitavelmente ele pensa no gás com o qual quase toda a minha família foi eliminada", disse Pisar, que foi também conselheiro do presidente John F. Kennedy. Blinken admitiu recentemente que foi um erro os EUA não terem feito nada.

Blinken regressou aos EUA, onde estudou em Harvard e na escola de Direito de Colúmbia. Inicialmente queria ser jornalista - chegou a ser repórter da revista The New Republic -- ou produtor de cinema, mas acabou no mundo da diplomacia, onde o seu pai, que tinha um fundo de investimento e era patrono das artes, também se movia. Viria a ser embaixador dos EUA na Hungria com Bill Clinton.

Em 1987, o futuro secretário de Estado (tem de ser confirmado no Senado como todos os nomeados) publicou o livro Ally Versus Ally: America, Europe, and the Siberian Pipeline Crisis, sobre a disputa entre os EUA e vários aliados europeus por causa da construção de um gasoduto soviético.

Em 1993, e depois de uma carreira no Direito, Blinken começou a trabalhar no gabinete de Política Europeia do Departamento de Estado, sendo um dos responsáveis pelos discursos de Clinton sobre política externa. Acabaria mais tarde por fazer parte do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, com as áreas de política europeia (incluindo o dossiê complicado da Bósnia) e canadiana.

No final da presidência de Clinton, em 2002, Blinken foi nomeado diretor da equipa da Comissão de Negócios Estrangeiros no Senado, quando Biden estava na liderança. Acabaria por trabalhar na campanha presidencial de 2008 do senador, regressando à Casa Branca quando Obama escolheu Biden para vice-presidente. De conselheiro de Segurança Nacional do número dois de Obama passaria para o Departamento de Estado, onde foi vice de John Kerry, tendo pegado em temas como o Iraque ou a Síria.

"Blinken ajudou a liderar a diplomacia na guerra contra o Estado Islâmico, o reequilíbrio para a Ásia e a crise global de refugiados", segundo o perfil oficial publicado pela equipa de transição. Em 2016, em plena crise de refugiados, falou com Grover, uma personagem da Rua Sésamo, sobre o tema.

"O Tony Blinken é uma superestrela, e isso não é uma hipérbole", disse Biden, segundo o mesmo artigo do The New York Times, com o então vice-presidente a dizer que Obama tinha "reconhecido isso após quatro anos e roubando-o". Blinken acrescentou: "Pode fazer qualquer trabalho, qualquer trabalho."

A nível pessoal, Blinken, que é judeu, é casado com uma católica, antiga assessora da então primeira-dama Hillary Clinton (que foi ao casamento de ambos) e tem dois filhos pequenos. E tem uma banda, com dois singles disponíveis no Spotify.

Reconstruir laços

O presidente eleito foi convidado nesta segunda-feira para visitar a União Europeia e participar num Conselho Europeu, por forma a ajudar a remendar as relações transatlânticas. O convite foi feito pelo presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, e, caso seja aceite, poderá ocorrer ainda no primeiro semestre, durante a presidência portuguesa da União Europeia.

Blinken, que conhece a Europa de perto, poderá vir mais cedo, já que um dos objetivos a nível da política externa de Biden será voltar a colocar os EUA em vários tratados que Trump optou por rasgar, desde o Acordo do Clima de Paris ao do nuclear iraniano, sem esquecer também o tratado de armas nucleares com a Rússia, que está a chegar ao fim.

Num podcast em outubro, Blinken descreveu o Brexit como a "bagunça total", pelo que a sua escolha poderá não agradar aos britânicos.

Numa conferência, em julho, no Hudson Institute, Blinken estabeleceu aquelas que acreditavam ser as prioridades em matéria de política externa para Biden: "Presumivelmente, numa Administração Biden, veríamos uma maior ênfase na região Indo-Pacífico, maior ênfase no nosso próprio hemisfério, além de algum envolvimento sustentado, espero que com África. E, obviamente, a Europa continua a ser um parceiro de primeiro recurso, não de último recurso, quando se trata de enfrentar os desafios que enfrentamos. Por uma questão de tempo e orçamento, acho que iríamos fazer muito menos no Médio Oriente."

Além de remendar as relações com os antigos aliados que foram abaladas com a presidência de Trump, Blinken terá também de reconstruir o Departamento de Estado, muitas vezes alvo do próprio presidente republicano.

Apesar de o Departamento ter evitado os cortes de orçamento de mais de 30% que foram propostos nos últimos três anos, viu partir muitos dos seus diplomatas mais seniores e de nível intermédio, optando pela reforma ou por deixar o serviço tendo em conta as perspetivas limitadas de avançar na carreira graças a uma administração que acreditam não valorizar a sua experiência, segundo a AP.

Seja como for, Blinken será uma mudança em relação aos secretários de Estado de Trump: Rex Tillerson, entre 2017 e 2018, e desde então Mike Pompeo, que muitos acusam de usar a política externa para fazer política interna, de olhos postos numa eventual candidatura à presidência.

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