Da magia para o policial: J.K. Rowling regressa ao ecrã

A estreia da segunda temporada da série C.B. Strike reitera a posição da escritora britânica entre os autores que têm quase todos os romances adaptados ao cinema ou à TV. Aqui, a química dos protagonistas é a nota perfeita dos episódios.

Não podíamos estar num registo mais terra a terra e distante dos affairs de Hogwarts. C.B. Strike: Lethal White, a segunda temporada da série que tem levado ao ecrã os romances policiais de J.K. Rowling, sob o pseudónimo Robert Galbraith, acaba de chegar à HBO Portugal e renova a curiosidade no universo que a autora criou à parte da grande "fábrica" Harry Potter e Monstros Fantásticos. Desde logo, um universo sóbrio e adulto onde não entram criaturas mágicas e tudo remete para o fator humano, entre investigações mais ou menos complexas e uma dupla que encaixa maravilhosamente no espírito clássico das histórias noir: o detetive privado Cormoran Strike (por Tom Burke, que fez de Orson Welles no recente Mank, de David Fincher) e a sua bela e expedita assistente, Robin Ellacot (Holliday Grainger, a Lucrécia de Os Bórgias).

Se só agora se dá pelo lançamento de uma temporada de C.B. Strike, isso acontece porque quando a plataforma HBO surgiu em Portugal, em 2019, a série já existia. E embora se trate da adaptação de quatro livros, cada um correspondente a um caso policial, vale mesmo a pena começar pelo episódio número um - de momento, estão disponíveis os sete da primeira temporada (2017-2018) e apenas um da segunda, caindo depois mais três. Os quatro primeiros episódios assentam no caso do homicídio de uma modelo e, em linha com este, é-nos apresentada a personagem central, o detetive Strike, veterano da guerra do Afeganistão que tem uma perna amputada e disfarça as dores da prótese, a princípio, com um rosto duro e sinais de violência interior, mas sem exagero na postura do típico homem autodestrutivo.

Por sua vez, Robin, luminosa e confiante, entra logo em cena como rececionista estagiária caída do céu cuja competência se revela muitíssimo superior à tarefa de atender o telefone do escritório. Quando os dois alinham os talentos detetivescos está formado um vínculo "colorido" dentro do cinzentismo elegante do policial...

Na sequência de outras duas investigações, entra-se na dita segunda temporada, Lethal White, em que o casamento de Robin com o namorado "sem qualidades" se torna uma dor extra para Strike, aumentando aquela tensão amorosa mesclada de genuína relação de trabalho. Ele também arranja uma namorada para contrariar a solidão noturna (ou tentar um equivalente a Robin?) - por sinal, alguém que gere uma loja de roupa vintage, e assim reforça a ideia de um estilo noir à anos 1940 -, mas neste ponto já se percebeu que o aspeto fundamental da série, mais do que uma fórmula de thriller, é a sugestão romântica do par profissional. Algo que atravessa os episódios e se cola à própria dinâmica das pistas. Desta vez, a química entre os dois vai misturar-se com as cartas baralhadas de um caso que mete política e cena underground, a começar por um jovem perturbado que recorre a eles para confessar ter sido testemunha de um assassinato quando tinha 6 anos, ao mesmo tempo que um ministro alvo de chantagem contrata Strike, afirmando ter a consciência limpa. As duas coisas parecem não ligar, mas isso é porque a realidade ainda não foi suficientemente escavada. O detetive e a sua companheira predispõem-se a pegar na pá.

Os livros de Robert Galbraith

Antes de Lethal White, os romances The Cuckoo's Calling, The Silkworm e Career of Evil foram a base dos sete episódios da primeira temporada. Em Portugal estão editados pela Presença apenas estes três últimos, respetivamente: Quando o Cuco Chama, O Bicho-da-Seda e A Carreira do Mal. Desta saga conhecida pelo nome do detetive, Cormoran Strike, falta a tradução portuguesa de Lethal White e do quinto volume, Troubled Blood, que saiu em setembro de 2020 envolto em polémica. Nessa altura, J.K. Rowling foi etiquetada de transfóbica pelo jornalista Jake Kerridge, do The Telegraph. Segundo este, a mensagem do livro é "nunca confiar num homem com um vestido", referindo-se a uma personagem secundária que se acreditava ser um travesti assassino em série; versão que veio logo a ser desmentida pelos críticos do The Guardian e da The Spectator, que alegaram ter lido realmente o romance, ao contrário do colega do The Telegraph. Porém, a onda de má-língua já estava (re)instalada nas redes sociais.

As mesmas redes sociais que, logo ao primeiro policial - Quando o Cuco Chama (2013) -, tinham lançado o palpite de que Robert Galbraith seria um pseudónimo de Rowling. A pista foi seguida pela jornalista India Knight, que chegou à identidade da autora através de uma pequena investigação, e poucos dias depois de o revelar provocou um aumento de 4000% nas vendas do livro... Rowling estava a testar os seus fãs? Talvez. O que se sabe é que teve prazer em usar um pseudónimo. Daí que a saga continue a ter a assinatura Robert Galbraith.

Para a série, o principal achado foi sem dúvida o ator Tom Burke. Ele assume a expressão definitiva do sujeito que carrega as suas feridas pelas ruas de Londres, muitas vezes nos cenários menos glamorosos da cidade - veja-se o pobre escritório onde trabalha e dorme -, e que, parecendo amarrotado por dentro, não deixa de mostrar um sorriso gentil quando o lugar-comum ditaria a atitude casca-grossa. Um perfil moderado que resulta num misto de Humphrey Bogart e Orson Welles. Quer dizer, a descontração anti-heroica do primeiro, a estatura física e o semblante do segundo. A própria J.K. Rowling, que com esta nova adaptação confirma um lugar cativo entre os poucos escritores cujos romances foram (quase) todos adaptados ao cinema ou à televisão, confessou que Burke é muito mais atraente do que a imagem mental que tinha da sua criação literária.

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