Exclusivo Consoada 2020. A revolução mais pacífica

É a grande refeição e a grande festa da mesa. O toque a reunir sente-se por todo o país, chega o momento em que nos aconchegamos no inefável conforto da família. Segue-se o almoço de Natal e depois troam as janeiras até aos Reis. As transumâncias da quadra estão limitadas e as viagens neste ano vão ser mais virtuais do que reais, mas nada nos impede de sair de nós para visitarmos de coração os que amamos. Vamos ao périplo natalício.

A organização geográfica e a força da tradição levam-nos a começar pelo Minho. Latitude, altitude, frio e pedra dura, as matanças continuam mas o fumeiro já está curado, começam a sair as melhores papas de sarrabulho e até já se arranja lampreia rio Minho acima. Fundamental é que na consoada minhota pontifique o bacalhau cozido e demais assessoria: batata cozida, couve tronchuda curtida pela geada e ovos cozidos. Assim sendo já o mundo pode acabar, mas claro que não se acaba nem as bondades culinárias para o seu desfile. Na mesa põe-se também polvo cozido, apresentado guisado em verde tinto ou na clássica configuração de arroz de polvo, o mesmo que Portugal inteiro ama. No lado doceiro é assunto bem minhoto os mexidos. Em Ponte de Lima fazem-se com pinhões, passas, vinho do Porto, mel e miolo de pão branco. E canela, claro, como quase tudo o que se faz nesta altura. As rabanadas levam mel e há sempre castanhas, nozes e figos para picar e afastar para bem longe o demónio da fome. No fundo é um gesto de gratidão para com a mãe natureza, que nos encheu de presentes tão bons. Em pequenas malgas colocamos mel e açúcar e acrescentamos vinho quente, quase a ferver, o conforto assim o pede, e é mais um demónio que se exorciza, o do frio. Indescritível o aroma que fica no ar e o quanto nos recondiciona a alma. Deitar a mão aos bolinhos de jerimu - abóbora-menina - de que ninguém quer estar longe é outro grande imperativo de consciência para o minhoto na proximidade do Natal.

Em Trás-os-Montes a couvada de bacalhau marca o coração da ceia, e prepara-se canja de galinha, segundo a tradição para os que iam à missa do galo e queriam confortar o estômago. A galinha é cozida com hortelã e depois desfiada para dentro do caldo contundente e energizante que entretanto se produziu, juntamente com os miúdos da bicha. Também se serve vinho aquecido com canela. Em contraponto com a sumptuosidade transmontana, matriz quase luterana que obriga à eliminação total do símbolo, saem os caretos, os enfarruscados e a malta nova em festa, como que a evocar um Natal pagão e profundamente popular. Acontecimento telúrico, escreveu alguém, e é inteiramente verdade. O maciço continental, que liga de forma umbilical o nordeste transmontano ao norte da Europa é de extrema simplicidade e incrivelmente alegre. Atenção à caça de época, perdizes e veado particularmente, e aos excecionais caldos extraídos de ossos da suã (espinhaço) e do melhor fumeiro do mundo, que é o do eixo Valpaços-Bragança. O transmontano come em silêncio, mas à mesa está em festa. Na doçaria saem formigos em abundância, fórmula semelhante à que acabámos de visitar no Minho, e por Murça e não só produz-se um toucinho-do-céu de antologia. Do Natal ao Entrudo come-se tudo, dita bem a ansiedade latente nos rigores silenciosos da mesa natalícia.

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