Argélia: a morte do líder de facto vai calar os protestos?

Após a demissão do presidente Bouteflika, o general Ahmed Gaid Salah liderou o período de transição que levou à contestada eleição de Abdelmadjid Tebboune. Há dez meses que os argelinos saem à rua a pedir uma mudança no sistema político herdado desde a independência da França, em 1962.

O general Ahmed Gaid Salah, que era considerado o poder por detrás tanto do ex-presidente Abdelaziz Bouteflika (afastado em abril) como de Abdelmadjid Tebboune (eleito no dia 12 e cuja tomada de posse foi na semana passada), morreu nesta segunda-feira, vítima de problemas cardíacos. Mas poderá a morte do líder de facto da Argélia acalmar o movimento de protesto que dura há dez meses e pede uma mudança de sistema no país?

O general, que tinha 79 anos, era um dos membros da velha guarda que lutaram pela independência da Argélia, conquistada à França em 1962 após sete anos de guerra. No Exército de Libertação Nacional desde os 17 anos, o general fez os estudos militares na academia de Vystrel, na ex-União Soviética.

"A Argélia perde, nestas dolorosas circunstâncias, um dos seus valentes heróis que se manteve até ao último momento fiel ao seu rico percurso em grandes sacrifícios que não cessou de fazer desde a sua adesão, em tenra idade, nas fileiras do Exército de Libertação Nacional, dentro do qual subiu como soldado, oficial e em seguida comandante mujaedine, leal à sua pátria e ao seu povo", segundo o comunicado do Ministério da Defesa (ele era vice-ministro), citado pela agência argelina APS.

Em 2004, foi nomeado chefe do Estado-Maior do Exército pelo presidente Abdelaziz Bouteflika, que sempre apoiou (é apelidado pelo jornal argelino El Watan como tendo sido o mais leal dos seus seguidores). Seria contudo central na sua saída do poder em abril, após duas décadas à frente dos destinos do país.

Foi Gaid Salah que anunciou, a 26 de março, que o artigo 102 da Constituição iria ser aplicado. Este previa o afastamento do presidente por problemas de saúde - Bouteflika, com 82 anos, tinha sofrido um acidente vascular cerebral em 2013 e eram raras as suas aparições em público.

Desde a independência que o exército tem sido o centro do poder na Argélia - foi num golpe dos generais que lideraram a guerra contra os insurgentes islamitas desde 1992 que Bouteflika chegou à presidência em 1999. Após a saída do presidente, o general tornou-se o líder de facto do país. Estava à frente do governo interino criado para responder aos protestos do Hirak (movimento popular) que começaram precisamente quando Bouteflika, apesar de doente, anunciou que era candidato a um quinto mandato consecutivo.

Apesar de ter feito uma limpeza no que diz respeito à corrupção entre a elite política (um dos alvos foi o irmão de Bouteflika, Said, visto como seu possível sucessor) e pressionado para a realização de eleições presidenciais, o general Gaid Salhah rapidamente se tornou o alvo do Hirak, até porque rejeitou os apelos da oposição para reformas profundas.

Os manifestantes consideravam o governo interino ilegítimo, acusavam-no de ser um resquício do velho sistema (ele era um dos últimos veteranos da guerra da independência ainda no poder) e defendiam uma mudança completa no sistema político.

O movimento pró-democracia, que sai todas as sextas-feiras às ruas de forma pacífica, boicotou as presidenciais, que considerou uma simples manobra de regeneração do sistema que existe desde 1962. Havia cinco candidatos, todos da chamada velha guarda. As eleições de 12 de dezembro, que tiveram a mais baixa participação de sempre, foram ganhas pelo ex-primeiro-ministro Abdelmadjid Tebboune, de 74 anos, que por ser tão próximo de Salah era apelidado nas redes sociais de "o escolhido".

A cerimónia de tomada de posse foi na quinta-feira passada, tendo Gaid Salah estado presente e sido galardoado com a medalha de ouro de mérito, reservada normalmente a chefes de Estado, pelo novo presidente. Tebboune declarou três dias de luto no país após o anúncio da sua morte, com o general Said Chengriha, que era comandante das forças terrestres, a assumir interinamente o cargo de chefe de Estado-Maior do Exército.

Nas redes sociais há quem fale num "assassínio", considerando que a morte do general é oportuna. "Quando uma fonte argelina me telefonou para me anunciar a morte do general Ahmed Gaid Salah, utilizou esta frase: Gaid Salah foi assassinado esta manhã por uma crise cardíaca provocada pelos seus inimigos no seio da instituição militar", escreveu o jornalista franco-argelino Mohammed Sifaoui.

Tebboune prometeu, na tomada de posse, introduzir o limite de mandatos para os presidentes, assim como atrair mais jovens para política. Anunciou ainda o desejo de implementar uma nova estratégia económica, destinada a afastar o país da dependência do lucro do petróleo e do gás. O presidente reiterou ainda que a constituição garante o direito ao protesto, no que foi feito como uma tentativa de estender a mão ao Hirak. Chefe da diplomacia desde março, o antigo embaixador da Argélia em Portugal Sabri Boukadoum foi nomeado primeiro-ministro interino.

A morte de Gaid Salah não irá calar os protestos, com os manifestantes a continuar a contestar a eleição do presidente e rejeitando os seus apelos ao diálogo. Poderá contudo lançar a Argélia num novo período de incertezas.

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