Urgências hospitalares enfrentam inverno com mais espaço e apoio de centros de saúde

Nos três maiores centros hospitalares do país aguarda-se com ansiedade o inverno, a primeira estação em que a gripe sazonal coexistirá com o novo coronavírus e outras doenças. Os planos estão a ser ultimados, mas já se sabe que passarão por um aumento do espaço físico das urgências, uma maior colaboração com os cuidados de saúde primários e com os projetos de hospitalização domiciliária.

No parque de estacionamento do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, foi criado um novo serviço de urgência dedicado à covid-19. No Porto, o São João está a fazer obras para aumentar o espaço das urgências e o Centro Hospitalar Lisboa Central também já o fez. À medida que o inverno se aproxima, os principais hospitais do país colocam em marcha um plano para aumentar o tamanho e a eficiência da principal área na resposta à covid e a outras patologias. Os projetos incluem ainda uma maior articulação com os cuidados de saúde primários e o reforço da vigilância dos doentes que previsivelmente vão procurar este serviço.

Embora ainda não seja conhecido o prometido Plano de Inverno da Direção-Geral da Saúde e do ministério, as orientações seguidas pelos três maiores centros hospitalares do país são idênticas e, segundo o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), estendem-se a todo o território. Ao DN, Alexandre Lourenço só lamenta a inexistência, neste momento, de uma estratégia nacional que uniformize e articule a resposta entre todos os serviços de saúde.

"Os hospitais sozinhos não vão conseguir lidar com o próximo inverno", sentencia o presidente da APAH. "As urgências foram a principal resposta à covid durante o primeiro impacto [da pandemia], mas esta resposta só já não me parece viável: têm de haver outros pontos de receção de doentes na rede, como a linha SNS 24 e os cuidados de saúde primários. Caso contrário, as urgências dos hospitais vão ficar completamente entupidas, como já acontece só com a gripe sazonal. Mas isto exige tempo, planeamento e liderança."

No Centro Hospitalar Lisboa Norte - o maior do país, que inclui os Hospitais de Santa Maria e Pulido Valente -, a antevisão do aumento de casos de infeção pelo novo coronavírus já produz efeitos. Nas últimas semanas, foi inaugurado um novo serviço de urgência dedicado à covid-19 "que tem tudo para assistir desde o doente mais simples até ao doente em perigo de vida", conta, ao DN, o presidente do conselho de administração deste centro hospitalar, Daniel Ferro.

Foi instalado no parque de estacionamento do Santa Maria e equipado com aparelhos que permitam responder a todas as eventualidades, incluindo reanimações, tendo possibilidade de receber até 21 doentes críticos em simultâneo. "É praticamente uma duplicação das urgências. Se tivermos o dobro ou o triplo da afluência da primeira fase da pandemia, estaremos preparados", afirma o administrador hospitalar.

Esta é a terceira versão de uma urgência no exterior do maior hospital do país, que foi sendo reorganizada e aperfeiçoada nos últimos meses, eliminado as "insuficiências" anteriores. Agora, "está preparada para aguentar o tempo que for necessário", diz Daniel Ferro. Já a urgência existente dentro do edifício hospitalar servirá para receber os doentes sem suspeita de covid.

Hospital de Santa Maria duplicou a capacidade de respostas nas urgências com uma nova ala dedicada à covid.

Por sua vez, o Centro Hospitalar Lisboa Central (que inclui os hospitais de São José, Santo António dos Capuchos, Santa Marta, Dona Estefânia, Curry Cabral e a Maternidade Dr. Alfredo da Costa) explicou, em resposta ao DN, que também tem vindo a aumentar o tamanho das urgências e que "em função da evolução da situação, caso seja necessário, e o plano deve prevê-lo, os espaços são adaptados a essas necessidades".

A norte, o Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, encontra-se a fazer obras nas urgências com o mesmo objetivo, o de aumentar a capacidade. Estão a deslocar serviços administrativos próximos da atual ala para conseguir maior distanciamento entre os doentes sempre que possível, método reforçado com barreiras acrílicas.

No Hospital de São João, no Porto, decorrem obras para aumentar a urgência dentro do edifício e vão ser colocados acrílicos entre os doentes.

"A ideia não é recebermos mais doentes; nós já temos muitos doentes. É que aqueles que venham possam estar mais afastados. É recebê-los melhor. Nós sabemos que o risco de contágio nas infeções respiratórias existe, e neste caso ainda mais, mas temos de evitar ao máximo que alguém saia daqui com covid, inclusivamente os profissionais", diz, ao DN, a diretora do serviço de urgência do São João, Cristina Marujo.

A obra deverá estar concluída em outubro e representará um aumento de cerca de 40% do espaço que existe atualmente. O que os médicos acreditam ser suficiente para enfrentar uma possível nova vaga do vírus, sem ter de recorrer a uma solução improvisada no exterior do hospital, como aconteceu no início deste ano. Também não estão a contar, aponta Cristina Marujo, receber a mesma quantidade de doentes que tiveram no início da pandemia, quando a região registou o maior número de casos de covid no país.

"Achamos que os doentes chegarão em menor número. O problema é que que os doentes suspeitos não vão parar; pode ser um doente com uma gripe que será tratado como suspeito e, por isso, temos de preparar-nos", continua a especialista.

Para além disto, o importante seria, aponta a diretora das urgências do São João, acompanhar as alterações físicas com mais profissionais de saúde. Ao contrário do que é mais comum noutros hospitais - onde as urgências são essencialmente asseguradas por médicos especialistas noutras áreas que fazem "um banco" de 12 ou 24 horas uma ou duas vezes por semana -, a principal unidade hospitalar do norte tem uma equipa de urgência, desde 2003, composta por 20 profissionais. O que, segundo Cristina Marujo, continua aquém dos supostos 42 necessários.

Articulação estreita com os cuidados primários

O Hospital de São João já tinha um projeto pioneiro de articulação com as unidade de cuidados primários do Porto Oriental e de Valongo, que permitia ao hospital, mediante sobrelotação, sugerir aos utentes com "as pulseiras azuis e verdes" atribuídas na triagem e que correspondem aos casos mais ligeiros serem atendidos nos centros de saúde, com capacidade para os tratar.

"É difícil chegar ao número de doentes que nos procuram todos os dias, porque vêm ao hospital os graves e os ligeiros. E, enquanto estamos a ver alguns doentes menos graves, chegamos mais tarde aos críticos, penalizando, não intencionalmente, aqueles que mais precisam de nós. Não é por mal, mas também não queremos deixar mal os menos graves. Tentamos sempre resolver", diz Cristina Marujo.

O São João tem para si reservado um número de consultas nos centros de saúde, que pode ativar a qualquer momento, e, assim, quando um doente é reencaminhado para a saúde primária, já vai referenciado. Agora "parece-nos haver alguma vontade nacional de estender isto", diz a diretora do serviço de urgência do São João.

Em Lisboa, no Santa Maria, o presidente do conselho de administração fala também numa "relação estreita" com os cuidados primários. "Vamos fazer um protocolo que definirá, para cada patologia, quais são os doentes que vão ser assistidos pelas equipas de saúde familiares e quais os que ficam no hospital. No fundo, iremos repartir no próximo inverno a afluência ao serviço de urgência", explica Daniel Ferro. "Tal como o hospital se está a preparar para o inverno, o mesmo acontece nos centros de saúde", acrescenta.

O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Rui Nogueira, também acredita que o plano de inverno tem obrigatoriamente de passar por uma maior articulação com os centros de saúde, mas diz-se preocupado com a falta de indicações por esta altura. "Ainda não está nada definido e estamos muito preocupados com esta ausência de planificação", diz, ao DN. "Há duas certezas: uma é que vamos ter um inverno daqui a nada e a outra é que este inverno vai ser diferente de todos os outros."

Médicos de Família queixam-se de falta de orientações nacionais.

O médico de família critica a atuação da Direção-Geral da Saúde, que ainda não manifestou intenção de ouvir a associação e de perceber o que se está a passar no terreno, onde muitos centros de saúde têm falta de objetos tão básicos como telefones e gente para os atender.

"Eu sei que há muitas unidades que já estão a organizar-se localmente para ver como é que vão fazer, mas sem haver uma orientação genérica, de base, julgo que é muito precário", sugere Rui Nogueira, lembrando ainda que é preciso tempo para informar os cidadãos sobre o plano a seguir. "Em março e abril, nós conseguimos conter a onda por causa das pessoas, que nos facilitaram muito o trabalho. Nós temos de ser muito disciplinados de novo no uso dos serviços, quer seja no hospital quer seja nos centros de saúde."

Contornar outras expectativas

Outras estratégias para o próximo inverno passarão por antecipar algumas urgências e contorná-las com soluções como a hospitalização domiciliária (quando uma equipa hospitalar vai a casa do paciente), por um maior recurso aos hospitais de dia e consultas atempadas a doentes crónicos numa tentativa de evitar possíveis episódios de urgência.

"Quando temos doentes que recorrem com frequência ao serviço de urgência e com frequência são internados, o desafio é termos estruturas alternativas e criarmos um circuito de exames mais rápido", planeia o presidente do Centro Hospitalar Lisboa Norte.

Também a nível da estrutura organizativa, "os principais desafios do Centro Hospitalar Lisboa Central [CHULC] são responder à procura associada diretamente à covid-19 e manter o máximo de atividade possível para responder à procura associada a outras patologias".

Querem, por isso, "garantir a segurança dos doentes e dos profissionais através do reforço de medidas concretas que envolvem também uma comunicação concreta e clara". Referem-se a "linhas de apoio técnico e psicológico já existentes, e com os utentes, através de um sistema de informação mais direto - reforçado nos próprios serviços e através do Portal do Utente do CHULC (a plataforma digital, composta por determinadas valências que evitam deslocações desnecessárias ao hospital, e que conta já com mais de dez mil inscritos)".

"O próximo inverno é o maior desafio que os nossos hospitais irão ultrapassar"

Estas e outras orientações poderão estar incluídas no Plano de Inverno nacional que está a ser preparado pelas autoridades de saúde, não havendo ainda data oficial para apresentação do mesmo. O que se sabe em linhas gerais, referidas pela secretária de Estado adjunta da Saúde, Jamila Madeira, em conferência de imprensa a 15 de julho, é que este projeto deverá envolver a continuação do reforço de recursos humanos, da reserva nacional estratégica e de meios para a medicina intensiva e para a saúde pública. Para além de um aumento da capacidade laboratorial do país e de um investimento na área da telessaúde.

Certa é a preocupação de todos com o período que se avizinha. Se até aqui o Serviço Nacional de Saúde garantiu sempre resposta aos doentes urgentes e aos infetados/suspeitos de covid, uma nova vaga pandémica pode trazer novas dificuldades, que começam a ser antecipadas a partir da experiência vivida noutros países.

Para o presidente dos hospitais de Santa Maria e Pulido Valente, "o próximo inverno é o maior desafio que os nossos hospitais irão ultrapassar", porque "o período covid vai coincidir com um período de alta nas outras áreas não covid, contrariamente ao que aconteceu neste primeiro momento. Até aqui, nós tivemos menos afluência de patologias noutras áreas. Temos de nos preparar muito bem".

Alexandre Lourenço, o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, reforça: "Vamos conviver com infeções respiratórias bastante alargadas na comunidade. E essas infeções respiratórias, quer pela perceção dos doentes quer pelo tratamento inicial que terão nos hospitais, têm um volume completamente diferente."

"Vamos conviver com situações de muita pressão sobre o sistema de saúde", antevê Alexandre Lourenço.

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