Sequelas do Prémio Camões


Aos domingos, lá pelo meio da manhã, gosto de parar na porta da Nim para dois dedos de conversa, que termina sempre na discussão das qualidades das papaias que ela me convence a comprar. A Nim tem um posto de venda no mercado da Praça Estrela onde, durante a semana, comerceia as verduras que o marido vai buscar em Santiago e no Fogo. Como aos domingos o espaço fica fechado, ela alinha os balaios com a sua mercadoria no passeio em frente da casa, e vestida de um longo avental e um rasgado sorriso, senta-se num banquinho e espera pachorrenta pelos eventuais fregueses. Mas tu nunca descansas, pergunto-lhe. Para quê, responde encolhendo os ombros, este trabalho não cansa, estou aqui sentada, vejo passar pessoas, trocamos mantenhas e novidades, e sempre vou vendendo alguma coisa, tenho três filhos no chão para criar e o planeta não está de brincadeira. Num dia de semana entrei no mercado e não a encontrei. Que é feita da Nim, perguntei a uma vendedeira vizinha. A Nim foi ao cabeleireiro, respondeu. O quê, exclamei espantado, que lhe deu para ir ao cabeleireiro, ainda por cima num dia como hoje? Ela tem um casamento amanhã, hoje podes comprar em mim. É que a Nim tomou-me como sua propriedade: Ele é meu homem, grita para as colegas, ele só compra em mim. E para garantir isso, quando não tem papaia, ela mesma sai a procurar junto das outras para mim.

Neste último domingo, mal parei o carro junto das suas mercadorias, ela gritou, Hoje não é só papaia, hoje tens que levar papaia, banana, mandioca, feijão-verde, tudo! Mas porquê, pergunto, que tem de especial o dia de hoje? Tem que te vi na televisão, sorri com a boca toda, no Brasil, a receber um prémio! Disseram que era Camões! Viste-me a receber uma folha de papel, sorri para ela, um diploma. Não faz mal, seja o que for, fiquei muito contente, gritei para toda a gente ouvir, Meu homem, ele é meu homem! E o teu marido, perguntei, ele não se zangou? Não, ele também deu palmas, respondeu, todos gostamos quando vemos um patrício a levantar Cabo Verde lá em cima.

Cabo Verde lá em cima! Essa é a fraqueza (ou a força) do cabo-verdiano, essa vontade perene de ver Cabo Verde lá em cima. Digo ao Zeca, meu marceneiro de toda a vida e todas as obras da minha casa, Vamos pôr o diploma Camões numa moldura! Sim, claro, diz ele. Precisa tirar-lhe as medidas, mas pega nele com um respeito solene, como se tocasse num objeto sagrado. Não será melhor levares para a oficina, pergunto, depois fica-te mais à mão. Nem penses numa coisa dessas, quase grita escandalizado, estás a ver se acontece alguma coisa, um roubo, um incêndio? Isto não pode sair daqui de dentro! Zeca, digo-lhe, não estás a levar isto demasiado a sério? Ele olha-me severo, Tu também tens de começar a levar a sério uma coisa tão importante, diz, todos nós levamos.

Bem, na verdade eu também levo a sério o prémio. No entanto, todas as vezes que começo a pensar em como melhor fazer isso, vem-me logo à memória o ministro de Cultura brasileiro que, na cerimónia de entrega do Prémio Camões, distraiu-se a falar do trágico incêndio do Museu Nacional, um acontecimento que destruiu a mais antiga instituição científica do Brasil e duzentos anos de história e abalou e deixou em luto todo um país que impotente viu aquele fogo demoníaco alimentar-se e consumir um dos maiores tesouros de história natural e de antropologia... E diante de uma catástrofe tão terrivelmente monumental que realmente apertou o coração a todos nós, sou obrigado a relativizar a grandiosidade do prémio e admirar a sabedoria da Nim.

Escritor cabo-verdiano, Prémio Camões 2018

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