Título de Lauda, vitória de Senna, birra de Mansell, voo de Patrese e coragem de Villeneuve

Hélder de Sousa foi chefe do gabinete de comunicação do Grande Prémio de Portugal durante 12 anos. Viveu as emoções do "Grande Circo" por dentro e aceitou o desafio de escolher os cinco que mais o marcaram. A prova rainha do desporto automóvel regressa este fim de semana a Portugal.

A Fórmula 1 regressa neste fim de semana a Portugal (de sexta a domingo), após 24 anos de ausência, e tem casa nova. O Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão, será a quarta pista nacional a receber a prova rainha do automobilismo, vulgarmente conhecido como Grande Circo.

A história do Grande Prémio de Portugal começou em 1958 nas ruas da Boavista, no Porto, e passou ainda pela mata de Monsanto, em Lisboa, mas foi no Circuito do Estoril que ganhou mais memórias. Algumas delas recordadas para o DN por Hélder de Sousa.

O antigo corredor de automóveis e jornalista esteve por dentro da organização do evento português durante mais de uma década (de 1984 a 1996) como chefe do gabinete de imprensa do Grande Prémio de Portugal e destaca cinco eventos. A começar pelo Grande Prémio de 1984: "Havia um espírito patriota entre todos os envolvidos para que resultasse e até de certa forma impressionar o grande patrão, que era o Bernie Ecclestone, para que o evento voltasse no ano a seguir."

1984 - o regresso: Lauda campeão por meio ponto

A prova do Estoril era a última das 16 do calendário do Mundial de 1984 e ainda não havia campeão. O Estoril foi encaixado no Mundial um pouco à última hora e exigiu um grande esforço de todos os envolvidos para cumprir as exigências da organização. O velho Niki Lauda e o jovem Alain Prost, ambos pilotos da McLaren TAG Porsche, lutavam pelo título. Lauda aproveitou um pião de Nigel Mansell para o ultrapassar e terminar em segundo, acabando por se sagrar campeão por meio ponto em relação ao Prost, o vencedor da corrida. No final, o francês deu-lhe o lugar mais alto do pódio como o reconhecimento do título mundial.

"Foi um Grande Prémio icónico nessa medida, pois permitiu um título por meio ponto. Foi nesse ano que Senna rodou pela primeira vez no Estoril, com o fraquíssimo Toleman-Hart, e subiu ao pódio, no terceiro lugar. Era o início de uma história que teria desenvolvimentos no ano a seguir", recordou o antigo jornalista.

1985 - o mais falado: primeira vitória de Senna

Não parou de chover um segundo. Os pilotos foram caindo que nem tordos. Só nove terminaram a corrida e o Lotus de Senna foi um deles, com mais de uma volta de avanço a sete dos oito adversários. O Grande Prémio de Portugal de 1985 acabou ao fim de 67 voltas e não 70 como previsto, uma vez que estavam esgotadas as duas horas previstas nos regulamentos para terminar a corrida.

Senna tinha feito a pole position e acabou por conseguir o primeiro triunfo da carreira no Estoril, fazendo ainda a volta mais rápida, e ao volante de um Lotus, que ainda conhecia mal. Foi o início da magia de Ayrton na F1. "Dava para perceber que era um talento puro, um superdotado e um diamante para ser lapidado", recordou o ex-jornalista, que nunca esquecerá a primeira de 41 vitórias de Ayrton na Fórmula 1.

1991 - desclassificação histórica: a birra de Nigel Mansell

Mansell foi um dos maiores protagonistas da corrida portuguesa. Em 1991, o piloto britânico assumiu a liderança da corrida na 18.ª volta, mas quando foi à box fazer a troca de pneus algo correu mal. Ele arrancou antes de tempo, o pneu traseiro direito saiu do eixo e o carro ficou parado na pit-lane. O pneu ficou a rolar na pista, Mansell fez marcha-atrás para os mecânicos meterem outra roda e voltou à pista e fez uma recuperação fabulosa desde o do 17.º lugar, antes de ver a bandeira preta de desclassificação imediata.

(A razão para a desclassificação: Mansell não poderia ter feito marcha atrás com o motor do carro, teria de ser empurrado pelos mecânicos. É contra os regulamentos, considerado manobra perigosa, utilizar o motor do veículo para recuar no pit-lane.)

"Numa birra sem precedentes, o britânico recusou sair de pista, mas nada havia a fazer. Senna foi segundo e aumentou a vantagem no Mundial para Mansell. Este é também o ano em que Pedro Matos Chaves tenta partir da grelha de partida, mas não consegue a qualificação. O carro, um Coloni-Ford, não prestava para nada e ele foi o oitavo da qualificação e ficou de fora", lembrou Hélder de Sousa.

1992 - o acidente a 250 km/h: o voo de Patrese


O Grande Prémio de Portugal de 1992 ficou marcado pelo famoso voo de Riccardo Patrese (Williams Renault) na 43.ª volta. Quase bateu numa passagem pedonal aérea antes da meta. Patrese não se apercebeu de que Gerhard Berger queria entrar nas boxes e bateu-lhe na traseira do McLaren, o carro levantou voo... foi uma situação muito assustadora para toda a gente.

"Seguia a uns 250 km/h, mas apesar do voo e da aterragem violenta no solo e de o carro ficar sem uma roda, o piloto ficou ileso, mas em choque e incrédulo com o que tinha acabado de acontecer."

1996 - o último: a ultrapassagem de Villeneuve a Schumacher

O último Grande Prémio em solo português (1996) ficou marcado pela ultrapassagem, por fora, na curva da parabólica, de Jacques Villeneuve a Michael Schumacher. Foi na famosa curva, que antecede a entrada na reta da meta. "Fazê-la por fora era meter o carro numa zona suja, perigosa, e o Jacques Villeneuve teve muita mas muita coragem em fazê-la", recordou o português.

O canadiano acabou por vencer e Damon Hill foi segundo, ganhando balanço para o título no Japão na última prova do Mundial. Pedro Lamy participou ao volante de um Minardi e acabou em último...

Eis os vencedores do GP Portugal

1958 - Stirling Moss (Vanwall)
1959 - Stirling Moss (Cooper/Climax)
1960 - Jack Brabham (Cooper/Climax)
1984 - Alain Prost (McLaren/TAG Porsche)
1985 - Ayrton Senna (Lotus/Renault)
1986 - Nigel Mansell (Williams/Honda)
1987 - Alain Prost (McLaren/TAG Porsche)
1988 - Alain Prost (McLaren/Honda)
1989 - Gerhard Berger (Ferrari)
1990 - Nigel Mansell (Ferrari)
1991 - Riccardo Patrese (Williams/Renault)
1992 - Nigel Mansell (Williams/Renault)
1993 - Michael Schumacher (Benetton/Ford)
1994 - Damon Hill (Williams/Renault)
1995 - David Coulthard (Williams/Renault)
1996 - Jacques Villeneuve (Williams/Renaul)

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