Saúde reforçada com planeamento militar no combate à pandemia

As autoridades de saúde de Lisboa recrutaram quatro oficiais especialistas das Forças Armadas para ajudarem no planeamento e na gestão dos meios hospitalares disponíveis para doentes covid-19.

Com os hospitais sob pressão crescente por causa do aumento do número de doentes internados com a covid-19 na região de Lisboa, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) está a recorrer às valências de planeamento estratégico das Forças Armadas para apoiar as decisões de gestão dos meios hospitalares.

Segundo fonte oficial da ARSLVT, dirigida pelo médico Luís Pisco, "o Núcleo de Apoio à Decisão (NAD), pelas suas competências em matéria de coordenação de operações. logística e informação, integra elementos das Forças Armadas".

Esta equipa de militares integra quatro oficiais especialistas em planeamento, mais um médico e um enfermeiro de reserva - todos militares no ativo que foram escolhidos e destacados pelo Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA)

O ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, sublinhou que esta "é uma necessidade quando os hospitais têm todos de funcionar em estreita coordenação", destacando que "cada vez mais o planeamento para toda a região de Lisboa e vale do Tejo é mais consistente".

Em declarações aos jornalistas na terça-feira, à margem de uma conferência sobre a resposta do Exército à pandemia, o ministro confirmou que estão quatro militares a trabalhar com a ARS Lisboa e Vale do Tejo, constituindo "um núcleo de apoio à decisão para efeitos de planeamento e de apoio ao presidente na distribuição de recursos".

Habituados ao planeamento a longo prazo para diversos cenários, os militares do NAD fazem previsões para a evolução da ocupação das camas hospitalares, face ao progresso da pandemia, e estudam a melhor estratégia para otimizar a capacidade dos hospitais.

Estes oficiais, apurou o DN, estão a preparar estudos na área estatística e de organização para melhorar a capacidade dos hospitais. Habituados ao planeamento a longo prazo para diversos cenários, os militares do NAD fazem previsões para a evolução da ocupação das camas hospitalares, face ao progresso da pandemia, e estudam a melhor estratégia para otimizar a capacidade dos hospitais.

A diferença entre a atual situação e a da primeira vaga é que, desta vez, as autoridades de saúde pretendem manter, o máximo possível, os atendimentos normais nos hospitais e, por isso, esta otimização de recursos assume maior relevância.

Especial complexidade

A decisão da criação do NAD foi anunciada no passado dia 15, quando, em comunicado, a ARLSVT reconheceu que "a coordenação da utilização da capacidade instalada nos estabelecimentos hospitalares integrados do Serviço Nacional de Saúde constitui uma responsabilidade essencial" na "adequada articulação entre os serviços prestadores de cuidados de saúde".

Este núcleo reunirá informação e apresentará propostas ao Grupo Regional de Gestão Centralizada (GRGC), criado na mesma altura pela ARSLVT, que conta com a colaboração de "elementos de vários grupos de profissionais de saúde" e serve também de intermediário entre o conselho diretivo e os hospitais da região de Lisboa.

Avançou a Administração Regional que estas duas equipas, a funcionar desde a semana passada, no âmbito de um "novo modelo de gestão centralizada de camas hospitalares", foram criadas porque "essa coordenação envolve especial complexidade face à exigência de equilibrar o melhor possível a resposta a todas as necessidades de saúde dos cidadãos, implicando capacidade de adaptação e ajustamento contínuo num cenário de incerteza".

O DN pediu à ARSLVT e ao EMGFA mais informação sobre a participação dos militares, mas ambas as entidades recusaram responder. O porta-voz do EMGFA remeteu para a ARLSVT e esta para o comunicado, dizendo que "nada mais" havia a "acrescentar".

Críticas à falta de coordenação

A falta de coordenação na gestão das camas hospitalares na região de Lisboa já tinha merecido várias críticas de médicos, que denunciaram a dificuldade em reencaminharem doentes com covid-19 para outros hospitais.

Em declarações à Antena 1, Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise covid-19 da Ordem dos Médicos, tinha sido mais uma das vozes que criticaram a falta de uma gestão integrada a nível regional.

"Obriga os profissionais de saúde a terem de contactar para diferentes instituições hospitalares à procura de vagas. É tempo precioso que um profissional de saúde, muitas vezes diferenciado, perde para fazer um trabalho quase burocrático", frisou.

Desde que os números de infeções voltaram a subir, os hospitais Fernando Fonseca (Amadora-Sintra) e Beatriz Ângelo (Loures) começaram a relatar um aumento de internamentos que estava a deixá-los próximo da lotação. A 8 de outubro, o presidente da ARSLVI, anunciou a criação de uma "coordenação centralizada dos casos", para os distribuir pelas unidades com camas disponíveis.

Militares anteciparam planeamento

O planeamento estratégico das Forças Armadas no combate à covid-19 tem estado na dependência direta do chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas, almirante António Silva Ribeiro, quer a nível de planeamento quer da coordenação de operações militares.

Em entrevista recente ao DN, este oficial-general da Marinha não deixou de valorizar as competências das Forças Armadas que podem também ser utilizadas em situações de crise sanitária. "Este conceito de duplo uso das forças militares é algo que está a ser trabalhado há mais de uma década no nosso país. Empenhar as as Forças Armadas em operações militares, mas, ao mesmo tempo, aproveitar essas competências excecionais que as Forças Armadas têm para servir os cidadãos nas emergências civis de qualquer natureza", sublinhou.

Silva Ribeiro revelou que desde fevereiro, antes mesmo do estado de emergência decretado em março, o EMGFA começou "a desenvolver um conjunto de trabalhos de planeamento que permitissem acorrer às necessidades do país", como base numa estratégia "baseada em três pilares: prevenir, preservar e responder".

Os militares surgiram em várias frentes de apoio à sociedade civil. Em lares de idosos, a distribuir refeições a sem-abrigo, a transportar material para as autoridades de saúde, na produção de equipamentos, na inovação científica, a preparar e a disponibilizar instalações para acolher doentes - como foi o caso recente da Base Aérea de Beja, onde estão cerca de 70 idosas infetadas do Lar de São José, em Beja - e até a reforçar hospitais com pessoal médico - como foi no hospital de Beja, onde um surto de covid-19 entre o pessoal médico quase levou ao encerramento do serviço de cirurgia, que só não aconteceu porque quatro médicos militares foram destacados para completar a escala.

No EMGFA foi ainda criada, logo no início da pandemia, uma "equipa do conhecimento", constituída por jovens médicos, enfermeiros e farmacêuticos, que ​pesquisam, recolhem e analisam as ideias que estão na vanguarda científica das investigações noutros países em matéria de combate ao novo coronavírus e propõem o seu desenvolvimento e criação no nosso país.

Conforme o DN já escreveu, o acompanhamento é feito através de plataformas online, revistas científicas e através da troca de informações com as Forças Armadas congéneres, centralizada através dos adidos militares nos vários países, como destaque para a Itália e Espanha.

"Estes países estão em modo de combate e este acompanhamento permite-nos ter um panorama global sobre o que se está a fazer e tomar decisões com base científica para o futuro", explicou na altura ao DN o responsável para o Planeamento e Coordenação do EMGFA, que supervisiona a "equipa do conhecimento".

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