Sarkozy na justiça. A reforma pouco tranquila do presidente bling-bling

Nesta segunda-feira, Nicolas Sarkozy torna-se o primeiro ex-presidente francês a ser julgado por corrupção. O homem que liderou a França entre 2007 e 2012, destacando-se pelos gostos luxuosos e a vida amorosa mediática, enfrenta uma longa série de processos judiciais.

Uma espécie de "galo anão" com quem as discussões eram "com frequência exasperantes" e que "transitava da adulação à fanfarronada sem nunca se afastar do seu primeiro objetivo, por vezes disfarçado, que era situar-se no centro da ação e atribuir-se o mérito a tudo o que valesse a pena que fosse atribuído um mérito". É desta forma que o ex-presidente dos EUA Barack Obama descreve Nicolas Sarkozy no seu livro de memórias Uma Terra Prometida, agora editado. Ora que o presidente "bling-bling", como lhe chamou o Libération, o homem que cultivava o convívio com celebridades e milionários, casado com uma ex-modelo feita cantora, sempre vestido com fatos de corte impecável, e exibindo relógios de luxo, gostava de chamar as atenções não é novidade. Mas se só o tempo dirá qual o legado do seu único mandato presidencial - de 2007 a 2012 -, Sarkozy já garantiu um lugar na história, mas não pelas melhores razões: nesta segunda-feira, 23 de novembro, torna-se o primeiro presidente de França a ser julgado por corrupção.

A 1 de julho de 2014, Nicolas Sarkozy foi indiciado por corrupção ativa e tráfico de influências. As acusações referiam-se à gravação de conversas telefónicas entre o ex-presidente e o seu advogado relacionada com o alegado financiamento líbio da campanha para as presidenciais de 2007. A justiça suspeita que o ex-presidente francês tenha tentado obter informações junto de um juiz sobre um processo que o envolvia. Em troca, terá proposto intervir para lhe garantir um posto de prestígio no Mónaco. O Caso das Escutas chega agora à barra do tribunal.

"Sarkozy, o homem, pulverizou o presidente institucional ao encarnar a democracia do indivíduo e uma classe política do espetáculo", escrevia Laurent Joffrin, diretor do Libération, poucos dias depois de o presidente ter mergulhado o país num frenesim mediático ao confirmar a relação com Carla Bruni. Para o jornal de esquerda, Sarkozy "integrou perfeitamente a cultura dos reality shows, que alia a exposição da intimidade, o discurso popular e uma competição feroz. A novela da sua vida amorosa exibida em folhas de revista brilhantes é apenas um exemplo disso".

Nicolas Paul Stéphane Sarkozy de Nagy-Bocsa nasceu em Paris em 1955. Filho de um imigrante húngaro e com sangue judeu do lado da mãe, este estudante irregular hesita entre seguir Jornalismo ou Direito, mas acaba por se formar no segundo.

Enquanto vai gerindo a carreira de advogado, começa também a interessar-se pela política e em 1983 é eleito presidente da Câmara de Neuilly-sur-Seine, nos arredores de Paris. Desde muito jovem parte da juventude gaulista - a União dos Jovens para o Progresso -, em 1975, no Congresso de Nice, conseguiu chamar a atenção de pesos-pesados como Jacques Chirac ou Charles Pasqua com um discurso em que se destacava a tirada: "Ser jovem gaulista é ser revolucionário."

É à frente da Câmara de Neuilly que a sua vida política e a sua vida privada se começam também a cruzar. Casado com Marie-Dominique Culioli, mãe dos seus dois filhos mais velhos, num dia de agosto de 1984 Sarkozy conhece Cecilia Ciganer Albeniz, quando a jovem de 27 anos lhe entra pela câmara dentro para se casar com o apresentador de televisão Jacques Martin, 24 anos mais velho do que ela. O autarca presidiu à cerimónia, mas, diz quem o conhece, nunca mais esqueceu a morena alta filha de um cigano romeno e de uma espanhola.

Os Martin e os Sarkozy até se tornaram amigos, mas três anos depois, a paixão entre Cecilia e Nicolas foi mais forte do que as convenções. Quando saiu de casa em 1987, Cecilia levou as duas filhas. E depois de um longo litígio entre Sarkozy e a primeira mulher, em 1996 Nicolas e Cecilia casaram. Um ano depois nascia o filho Louis.

Entretanto, Sarkozy ia subindo os degraus da política. Eleito deputado em 1988, chega a ministro cinco anos mais tarde, quando Édouard Balladur lhe entrega a pasta do Orçamento. Projetado mediaticamente graças à gestão dos sequestro de 21 crianças num infantário de Neuilly, nos anos seguintes Sarkozy voltará ao governo em 2002 como ministro do Interior, ocupando nos anos seguintes as pastas da Economia, das Finanças e da Indústria antes de voltar ao Interior em 2005, destacando-se pelos seus métodos musculados e a sua guerra aos jovens delinquentes (a "racaille").

Presidente da União para um Movimento Popular (UMP, hoje Os Republicanos) desde 2004, não espanta quando anuncia a candidatura às presidenciais de 2007, que acaba por vencer, roubando parte do eleitorado da Frente Nacional (de extrema-direita) graças ao discurso securitário e derrotando a socialista Ségolène Royal na segunda volta.

Ao seu lado no dia da posse está Cecilia e os filhos de ambos, mas a relação entre os dois há muito atravessava uma crise. Se Cecilia foi durante muitos anos uma espécie de conselheira informal do marido, em 2005 escapou para Nova Iorque, onde viveu uma relação com o publicitário Richard Attias. Voltou para Paris, mas, pouco depois de ser eleito, o novo presidente francês divorciou-se mesmo da mulher que nunca escondeu que não se via como primeira-dama.

Pelo meio, Cecilia teve ainda tempo de aparecer nas primeiras páginas de todos os jornais, mas devido ao seu papel nas negociações para libertar o médico e as cinco enfermeiras búlgaras detidos na Líbia e condenados à morte por suspeita de terem contaminado com VIH perto de 400 crianças. Cecilia deslocou-se por duas vezes a Tripoli para negociar em nome da UE a sua libertação, que acabou por acontecer em julho de 2007.

Com Cecilia de volta os braços de Attias (casam-se em 2008), Sarkozy fica solteiro. Mas por pouco tempo. Depressa surgem os rumores sobre a sua relação com Carla Bruni. A ex-modelo cuja família teve de fugir de Itália devido às ameaças das Brigadas Vermelhas conhece Sarkozy através de um amigo comum em novembro de 2007 e em fevereiro a visita dos dois e do filho dela, Aurélien, à Disneyland Paris, seguida pelos paparazzi, confirma a relação. Casam-se no dia 2 de fevereiro de 2008 numa das salas do Eliseu. Em outubro de 2011, são pais de Giulia.

Um dos factos mais marcantes da presidência Sarkozy foi a relação do presidente com o líder líbio, Muammar Kadhafi. Se a visita oficial deste a França em dezembro de 2007, aparecendo ao lado de Sarkozy com toda a pompa e circunstância, gerou uma onda de críticas, quando a Primavera Árabe alastrou da Tunísia e Egito para a Líbia, o presidente foi convencido, sobretudo pelo filósofo Bernard-Henri Levy, da necessidade de França ter um papel no derrube do ditador. E a 19 de março de 2011, os franceses juntaram-se aos aliados numa intervenção militar que levaria à morte de Kadhafi. Uma ação militar que valeu a Sarkozy um aumento de popularidade.

Mas não o suficiente para lhe garantir um segundo mandato. Em maio de 2012, Sarkozy é derrotado na segunda volta das presidenciais pelo socialista François Hollande, curiosamente ex-marido de Ségolène. Afastado da vida política desde então, apesar de uma tentativa de regresso que o viu perder a primária do centro e da direita para as presidenciais de 2016, Sarkozy tem enfrentado a justiça em vários casos, passando inclusive por várias horas de interrogatórios judiciais.

Uma longa série de processos

Nesta segunda-feira, quando o julgamento começar - está previsto terminar a 10 de dezembro -, não só Sarkozy se torna o primeiro presidente francês julgado por corrupção, como este é apenas o início de uma longa série de processos judiciais para o antigo chefe de Estado.

De 17 de março a 15 de abril de 2021 está já marcado o processo por despesas excessivas na campanha presidencial de 2012 reveladas pelo caso Bygmalion. Este refere-se a um sistema de dupla faturação e de faturas falsas para atribuir à UMP despesas da campanha para evitar ultrapassar o plafond autorizado.

Sarkozy não é diretamente acusado de ter conhecimento da fraude no centro da qual se encontra a Bigmalion, uma empresa de prestação de serviços, mas é suspeito de ter feito despesas extra quando não podia ignorar que o orçamento estava prestes a ser ultrapassado. Até por já ter sido alertado para o facto pelos seus contabilistas.

Em aberto está ainda o processo por financiamento ilegal, através de fundos líbios, da sua campanha de 2007. Ora, a retirada da queixa de uma das principais testemunhas, o intermediário Ziad Takieddine, a 11 de novembro, veio abrir a porta ao encerramento do caso. Sarkozy pode respirar de alívio para já, mas a justiça francesa promete não o deixar gozar de uma reforma tranquila.

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