"A melhor forma de assustar os adolescentes é dizer que assim voltamos ao confinamento"

O número de infetados com covid-19 está a crescer entre os mais novos. Quase que duplicou nas faixas etárias dos 10 aos 19 anos e dos 20 aos 29. Com o fim do ano letivo à porta, aumenta a preocupação. E há razões para isso.

A Pilar tem 16 anos, vive em Paço de Arcos e está no 10.º ano na Escola Secundária Quinta do Marquês, em Oeiras. Fez anos a 11 de março e já não teve festa, mas mesmo durante o período de confinamento foi autorizada pelos pais a sair de casa, para ir caminhar, andar de skate ou encontrar-se com amigos, poucos, desde que respeitasse as regras necessárias para se proteger do novo coronavírus.

Conhece, por isso, bem, o antes e o depois do confinamento e diz, na sua descontração natural, que acha tudo isto muito estranho. "No início da quarentena, quando a escola acabou, muito pouca gente podia sair de casa e os que podiam tinham muito cuidado, sempre em sítios ao ar livre, como o paredão ou o parque, e com distanciamento. Agora, depois do desconfinamento, apesar de não ter mudado nada porque o vírus não acabou, as pessoas mudaram o comportamento e já não têm cuidado nenhum. Mesmo os pais que não deixavam os filhos sair para lado nenhum, agora deixam-nos sair para todo o lado. Acho que não faz muito sentido".

Com os espaços de diversão noturna, como bares e discotecas, ainda fechados, multiplicam-se as "reuniões de grupos de cidadãos em espaços públicos ou abertos ao público", que em junho têm vindo a registar-se com maior frequência, segundo fonte da PSP.

Nos últimos dias, a Polícia de Segurança Pública foi chamada a intervir para dispersar ajuntamentos em Braga, no Porto, em Setúbal, em Carcavelos e um pouco por todo o país. Um amigo da Pilar fazia parte do grupo que no estacionamento da Pastorinha, em Carcavelos, se juntou para homenagear um amigo da escola. "Eram só dez e queriam fazer um memorial a um menino da minha escola que morreu e fazia 17 anos nesse dia, mas houve vários grupos que combinaram coisas ali e acabaram por se encontrar, mas não era para ser tanta gente", explica.

O amigo da Pilar queria homenagear um amigo, mas a maioria dos grupos que se junta aqui e ali tem outros objetivos. Com os espaços de diversão noturna, como bares e discotecas, ainda fechados, multiplicam-se as "reuniões de grupos de cidadãos em espaços públicos ou abertos ao público", que em junho têm vindo a registar-se com maior frequência, segundo fonte da PSP.

"Inicialmente e no geral coadunavam-se com as regras de saúde pública em vigor, nomeadamente por se registar distanciamento social e os grupos serem de reduzida dimensão, mas com o progressivo desconfinamento, temos vindo a registar um menor cuidado no cumprimento dessas regras, principalmente por parte dos cidadãos mais jovens. Este tipo de episódios têm vindo a registar-se pelas principais urbes, sobretudo no litoral e durante a noite, em locais tão díspares como parques de estacionamento, postos de abastecimento de combustíveis, praias ou parques e jardins".

"Acho que nos preocupamos, mas não é pelo facto de a doença ser perigosa, é mais pelo medo de, se o vírus se propagar, haver maior probabilidade de termos que ficar outra vez de quarentena", diz Pilar.

Coincidência ou não, o número de novos casos entre as faixas etárias mais jovens quase que duplicou desde o início do desconfinamento. A 4 de maio eram 770 os infetados com covid-19 entre os 10 e os 19 anos e 2973 entre os 20 e os 29. Números que a 22 de maio tinham subido para 975 entre os primeiros e 3806 entre os segundos e que hoje, 22 de junho, se saldam em 1522 entre os 10 e os 19 anos e 5657 entre os 20 e os 29.

Números que preocupam Pilar, que selecionou um grupo de amigos com quem podia estar e "tenta manter o distanciamento e os cuidados, mais ou menos", mas não tanto pela doença em si.

"Acho que nos preocupamos, mas não é pelo facto de a doença ser perigosa, é mais pelo medo de, se o vírus se propagar, haver maior probabilidade de termos que ficar outra vez de quarentena. Não temos medo do vírus, temos é medo do confinamento", diz, apostando que quando as aulas acabarem, os encontros vão aumentar, de frequência e de convivas.

E nem as notícias de que há mais jovens internados vos assustam? "Quem não sai de casa está sempre a publicar coisas sobre isso e a dizer 'olhem para isto, parem de sair', mas quem sai não está muito preocupado. Eu acho que a melhor forma de, entre aspas, assustar as pessoas da minha faixa etária para que tenham mais cuidado é mesmo dizer que se continuar assim é provável que voltemos ao confinamento".

O professor Daniel Sampaio esboçaria talvez um sorriso se ouvisse a Pilar, mas para o psiquiatra e especialista em adolescência é fundamental que os adolescentes tomem consciência dos riscos que correm. Sabe que a equação é difícil, mas é precisamente por isso que não é de agora que advoga que deveria existir uma estratégia de prevenção especificamente dirigida a esta faixa etária.

"Do ponto de vista da saúde mental, é essencial que eles convivam, não se pode ter adolescentes fechados em casa, mas tem que se passar a mensagem de que têm que ter muito cuidado, proteger-se e não minimizar a doença, porque já há neste momento evidência de que também os jovens podem ter formas graves da mesma. Aliás alguns estão internados no hospital de Santa Maria", diz.

Na opinião de Daniel Sampaio, esta é uma semana crucial porque na sexta-feira acabam as aulas, o tempo está bom e eles vão tocar a reunir.

"É preciso falar com os jovens diretamente, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa tem tentado isso, mas é preciso que os organismos da saúde se reúnam com associações juvenis e vão onde os jovens estão para passar a mensagem que é: saiam, estejam com os amigos e os namorados ou namoradas, mas em grupos pequenos, mantendo o distanciamento e protegendo-se. A noção de risco para um adolescente é completamente diferente da de um adulto, mas temos que chamar a atenção para o risco usando o facto de infelizmente haver jovens com doença grave internados nos hospitais", diz o psiquiatra.

A coordenadora da unidade de internamento de contingência de infeção viral emergente do hospital de Santa Maria, Sandra Braz, que recentemente viu aumentar bruscamente o número de doentes entre os 18 e os 30 anos concorda com Daniel Sampaio.

"É preciso transmitir a informação de uma forma mais clara, sem mal entendidos como aconteceu com a questão dos assintomáticos - os doentes mesmo sem sintomas transmitem a doença -, e isto passa por ações estruturadas e concertadas junto dos jovens e da comunidade. Ir aonde eles estão. Algumas figuras públicas que sejam admiradas pelos mais jovens poderiam ajudar, por exemplo, a passar a informação de forma correta, baseada não na experiência de cada um, mas na informação dos profissionais de saúde".

"Os adolescentes merecem atenção, porque faz parte da adolescência testar a autoridade, desafiar, experimentar, querer pertencer ao grupo e quando estão juntos são muito de partilhar comida, copos, garrafas, telemóveis, mas, apesar de tudo, os pais têm maior influência sobre eles", diz Sandra Braz.

Mas, ao contrário de Daniel Sampaio, os adolescentes não são a maior preocupação de Sandra Braz. "Parece-me mais fácil que um adolescente se torne responsável, se lhe dermos informação, do que os adultos jovens como os que tenho internados aqui, que parece que estão a brincar com isto tudo. Os adolescentes são por definição curiosos e tentam informar-se e procurar as fontes corretas, os jovens adultos acham que sabem tudo e não precisam de procurar nada, por isso acho que estão em maior risco".

De acordo com a médica, estes são jovens que no trabalho tomam todos os cuidados, mas quando estão com amigos acham que não há precauções a tomar. "Associaram a ideia de desconfinamento a que estava tudo bem e podiam relaxar, acham que a doença só é transmitida por quem tem sintomas, o que não é verdade, e dizem que só têm 18 anos uma vez e não vão limitar as suas escolhas. Isto é preocupante. Os adolescentes merecem atenção, porque faz parte da adolescência testar a autoridade, desafiar, experimentar, querer pertencer ao grupo e quando estão juntos são muito de partilhar comida, copos, garrafas, telemóveis, mas, apesar de tudo, os pais têm maior influência sobre eles", diz Sandra Braz.

Os números confirmam a opinião da médica. 5657 infetados entre os 20 e os 29 anos para 1522 entre os 20 e os 29. O verão e as férias escolares serão a prova de fogo. A PSP estará atenta e promete vigilância dos espaços públicos "em particular, aos ajuntamentos com mais de dez ou 20 pessoas e ou em que não seja observado o distanciamento social, recorrendo a todos os poderes legais para fazer cessar tais situações de risco de contágio acrescido", garante fonte desta força policial.

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