7 dias, 7 propostas por Sandra Sousa

1.Espetáculo online
Ø ILHA
Cláudia Varejão e Joana Castro
Online
Domingo, 24 de janeiro

Eis que, de novo, o caminho volta a ser digital. Por opção e porque não há opção.
Por opção dos que se alimentam de cultura e se veem privados dos concertos, das peças, das exposições.E porque os artistas não têm opção que não seja fazer prova de vida online e manter as pontes com o público.
Mal foi anunciado o novo confinamento, o Teatro Municipal do Porto apresentou o programa online que, na verdade, já vinha trabalhando pela constatação de que é um caminho aberto e sem retorno. Neste sentido, convidou oito artistas para um projeto desenhado especificamente para as plataformas online, em que um realizador e um artista performativo são convidados a criar um objeto digital que cruze universos e percursos. A dupla Cláudia Varejão, realizadora, e Joana Castro, performer, concebeu Ø Ilha, composto por diversas paisagens dentro de uma só paisagem, num encontro possível entre a vida e a morte.
A vida tem de continuar. A cultura também.

2.Ciência
Deus-cérebro
Série documental, RTP 1
Segunda, 25 de janeiro
22h45

2020 ficará na memória como o ano da pandemia, mas ficará para a história como o ano da ciência. O ano em que se superaram prazos e limitações, conhecimentos e desconhecimentos, para produzir ciência em tempo recorde. O ano em que os políticos se viraram para a ciência, com todos os erros e incertezas que a definem, enquanto processo de busca de conhecimento e de verdade. E os que o não fizeram receberam a fatura em mortalidade recorde, como acontece nos EUA e no Brasil.
Nesta série documental portuguesa sobre o cérebro humano, com alguns dos mais reputados cientistas do mundo, António Damásio explica que o que melhor define a inteligência humana é a capacidade de pensar o futuro, de o perspetivar.
Porque é que nos tornámos inteligentes? O que liga a inteligência às emoções? Que impacto têm as emoções no desenvolvimento do cérebro? É possível morrer de amor? À clareza dos depoimentos soma-se uma notável captação e composição de imagem, realização e conceção gráfica.

3. Leitura
Ensaios
Amos Oz, João Luís Barreto Guimarães
Terça, 26 de janeiro

Caros Fanáticos;Fé, fanatismo e convivência no século XXI, Amos Oz. Três ensaios e uma poderosa reflexão sobre o ódio identitário que potencia "vagas de rejeição do outro". O primeiro ensaio, que dá título ao conjunto, é uma adaptação de conferências dadas pelo escritor israelita na Alemanha, sobre o fanatismo islâmico, da Al-Qaeda ao Daesh. Amos Oz chama-lhe questões controversas, de vida ou morte. É assim em Israel. É assim em muitas outras latitudes, agora também na soleira da nossa porta.
Movimento de João Luís Barreto Guimarães apresenta-se como uma poesia de observação e de memória. Para a arte, João Luís Barreto Guimarães convoca quase tudo, das reflexões existenciais aos objetos do quotidiano, dos deuses ao ralo do lavatório, dos buracos negros à cadeira do café. Acaba de publicar Movimento, escrito maioritariamente antes da pandemia, mas com algumas páginas de confinamento. Ainda assim, Movimento.
Vita Nova , versão em livro do Fórum do Futuro que é um espaço de discussão e reflexão, iniciado em 2014, no Porto. A pandemia interrompeu o debate presencial mas não suspendeu o pensamento. Vita Nova reúne textos sobre ciência, arte, filosofia e tecnologia. Destaque para os trabalhos: As raças perdidas da ficção científica, de Octavia Butler, e História de MX Muffin e do Batom Revolutionary Red Rouge. de Sophia A-Maria, com desenhos de Tosh Basco.

4.Música
Melody Gardot
ÁLBUM - Sunset In The Blue
Quarta, 27 de janeiro

Imobilizada, no final da juventude, por um acidente, a música funcionou para Gardot como terapia. Para resistir à dor, para reaprender quase tudo, compôs e gravou algumas músicas quando ainda estava incapaz de andar. Chamou-lhes Bedroom Lessons. A arte vocal desta norte-americana, que trocou New Jersey por Lisboa e Lisboa por Paris, é mais do que musicoterapia em tempos de reclusão, é um suplemento de alma.
O último álbum, Sunset in the Blue, é um cruzamento do jazz com a bossa nova, com uma delicada envolvência orquestral, expressa em idiomas vários. Um trabalho feito em plena pandemia, superou o confinamento com gravações à distância e fez pontes com Sting ou António Zambujo. A cantora norte-americana diz que o álbum é um testemunho vivo do espírito de colaboração entre os artistas, dos inúmeros recursos disponíveis para quebrar as tradicionais formas de gravação e a certeza de que é possível seguir em frente e criar boa música. Portugal está lá. Na língua, na música, na magnífica paisagem da Arrábid..C"est magnifique!

5.Teatro
Turismo Infinito
RTP PALCO -ONLINE
Quinta, 28 de janeiro

Depois da Comédie de Reims, do Teatro Paulo Autran, em São Paulo, do Teatro Español, em Madrid, Turismo Infinito regressou ao palco onde se estreou para celebrar os 100 anos do TNSJ .Foi a 7 de março de 2020. Lembro-me bem porque o Jornal 2 foi feito do teatro, com quem lhe deu passado e alimenta o futuro, com honras de chefes de Estado e de Governo. No dia seguinte, fecharam para confinamento. Fechámos todos. Ficou a incursão teatral pelas várias hetoronímias de Fernando Pessoa, desde o desassossegado Bernardo Soares ao turbulento Álvaro de Campos, sem esquecer o bucólico Caeiro. Com a marca de Ricardo Pais. Para ver ou rever.

6.Filme
Barba Ruiva
RTP 2
Sexta, 29 de janeiro
23h00

Um jovem médico, que ambiciona trabalhar na corte acaba por ser colocado num hospital público. É ali que percebe que a pior doença que se pode ter é ser pobre. Tem como paciente uma jovem condenada à prostituição, como referência, Barba Ruiva, o homem que lidera a instituição e que será determinante no seu percurso de vida. Expoente máximo do humanismo e existencialismo em Kurosawa, o médico faz da profissão uma missão. Impossível não pensar nos dias de hoje e e, como a pandemia bate duas vezes nos mais desfavorecidos.

7.Três propostas
Streaming, Serralves e Antena 2
Sábado, 30 de janeiro

São 16 longas-metragens de expressão alemã, a maioria em estreia nacional, para ver sem sair de casa. A abertura faz-se com Berlin Alexanderplatz, de Burhan Qurbani. Na seção Visões, destaque ainda para Schwesterlein (Irmãzinha) que une uma dupla de luxo na representação, Flatland (Planuras), uma (há muito devida) apropriação feminista do género western e a comédia negra Glück Gehabt (Golpe de Sorte).Numa plataforma de streaming portuguesa.
Outra proposta é a de uma visita virtual aos vários espaços de Serralves.Um percurso orientado por especialistas, que permite conhecer melhor as exposições e o património arquitetónico da fundação. O dourado do sol nos jardins, o crepitar das folhas à passagem dos visitantes, o chá da casa... ficam para mais tarde. Talvez na primavera, se a tempestade passar.
Nesse mesmo dia, às 10h00, sugiro escutar, na Antena 2, o programa A Lira de Orfeu, de Martim Sousa Tavares, que promete cruzar tópicos, repertórios e intenções, refletir sobre o mundo, tendo a música por instrumento.Vale a pena recuperar Metamorfoses, escrito a partir de Kafka, de alguns mestres da literatura fantástica ucraniana como Gógol, Bulgakov e Babel.Inclui música de Boccherini/Berio, Mahler, Shostakovich e Hans-Peter Frehner. Um bálsamo que inquieta.

Sandra Sousa é coordenadora e apresentadora do Jornal 2 na RTP

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