Trump, a Rússia, os serviços secretos e uma equipa de interinos

O presidente norte-americano nomeou na quarta-feira o embaixador na Alemanha diretor interino dos serviços de informações. É o 31.º membro da administração nomeado de forma temporária, um recorde revelador da forma como Donald Trump conduz a sua equipa.

Mais um despedimento, mais uma nomeação interina, e nova controvérsia, com o filão russo a continuar a dar pano para mangas. Joseph Maguire, diretor interino do serviços nacionais de informações, que supervisiona 17 agências, entre as quais a CIA, foi substituído no cargo depois de Donald Trump ter sabido o que se passou na sessão de 13 de fevereiro com a Comissão dos Serviços Secretos da Câmara dos Representantes.

Shelby Pierson, ​​​​​​assessora de Maguire, disse aos representantes que a Rússia estava mais uma vez a intrometer-se nas eleições norte-americanas para favorecer Donald Trump. Segundo contam o The New York Times e o The Washington Post, o presidente ficou furioso e, na semana passada, repreendeu Maguire pela "deslealdade" da sua equipa numa discussão ocorrida na Sala Oval.

Maguire testemunhou perante o Congresso sobre a queixa de um denunciante acerca da ligação do presidente com o homólogo ucraniano Volodymyr Zelensky. "À luz das recentes notícias sobre a queixa do denunciante, quero deixar claro que tenho mantido a minha responsabilidade de seguir a lei a cada passo do caminho", disse Maguire sobre o tratamento da queixa. "Acho que o denunciante fez a coisa certa", concluiu.

Maguire era o favorito de Trump para substituir de forma efetiva Dan Coats. Este demitiu-se em agosto último depois de reiterar a conclusão das agências de informações de que a Rússia interferiu na campanha de 2016, em especial através da manipulação das redes sociais, para apoiar o candidato republicano em detrimento de Hillary Clinton.

O que deixou Trump irado não foi a ameaça russa, mas o facto de que os democratas iriam usar a informação contra ele. Segundo o The New York Times, o presidente também ficou irritado com a presença de Adam Schiff, o responsável democrata pela investigação que levou ao impeachment de Trump por abuso de poder e obstrução ao Congresso.

Schiff afirmou que se Trump estava a interferir na partilha de informações com o Congresso, parecia que estava "novamente a pôr em risco os esforços para parar a intromissão estrangeira".

Trump tem estado em guerra aberta com os serviços de informações e de segurança desde que foi eleito, queixando-se de um "Estado profundo" que manobra contra si.

Fidelíssimo de Trump

Ao anunciar na quarta-feira que o substituto do interino Maguire é o interino Richard Grenell, embaixador na Alemanha, atirou mais uma acha para a fogueira.

A folha de serviços de Grenell enquanto diplomata está manchada desde a primeira hora, ou quase. Em maio de 2018, no dia seguinte à sua acreditação em Berlim, o ex-porta-voz dos EUA nas Nações Unidas e comentador da Fox News, ameaçou as empresas alemãs que mantêm negócios com o Irão. "Quero de facto dar mais força a outros conservadores por toda a Europa, a outros líderes", disse Grenell no mês seguinte ao pasquim de extrema-direita Breitbart, em contravenção com os deveres de neutralidade em relação à política interna por parte dos diplomatas

Grenell é tido como um apoiante fiel de Trump e desvalorizou a interferência russa nas eleições de 2016. "Táticas russas ou aprovadas pela Rússia, como guerras cibernéticas e campanhas de desinformação, ocorrem há décadas", escreveu numa opinião na Fox News.

Grenell disse no Twitter que ele não iria manter-se em permanência no cargo e que Trump iria "em breve" selecionar outra pessoa. Mas não perdeu tempo em dizer que o vice do seu novo cargo, Andrew Hallman, não era mais necessário.

Furor democrata

Os democratas expressaram indignação pela nomeação de Grenell, e não pelo facto de ser o primeiro homossexual assumido na equipa de Trump e à frente dos serviços de informações.

A presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, que roubou o protagonismo de Trump no discurso sobre o Estado da União, ao rasgar uma cópia do dito depois de o presidente não a cumprimentar, disse que o nova-iorquino sabe que Grenell não conseguiria a confirmação do Senado e como tal mostra "desprezo pelo sistema de pesos e contrapesos da Constituição".

"Infelizmente, o presidente Trump colocou mais uma vez os seus interesses políticos à frente dos interesses de segurança nacional dos Estados Unidos, nomeando um diretor nacional das informações interino, cuja única qualificação é a sua lealdade absoluta ao presidente", disse.

O senador Ron Wyden, democrata da comissão dos serviços secretos, acusou Trump de dar prioridade à "obediência inquestionável em detrimento da segurança do povo americano". "O apoio de Grenell à extrema-direita europeia, os seus conflitos gratuitos com os nossos aliados alemães e a sua falta de experiência em informações desqualificam-no em todos os aspetos", disse.

Para o senador Ed Markey não se espera outra coisa que não seja "permanecer um yes-man político para Trump tal como está a ser em Berlim".

"Nomeou o mais político - e indelicado - embaixador dos EUA para o que supostamente seria o papel menos político - e sem dúvida delicado", escreveu Ned Price, que desempenhou as funções de assessor do presidente Barack Obama. Para Price, Trump "abandonou a encenação de que vê utilidade nos serviços secretos".

No mesmo sentido reagiu o ex-diretor da CIA, John Brennan, que comentou o caso como "uma decapitação virtual" dos serviços de informações.

Em resposta, a secretária de imprensa da Casa Branca, Stephanie Grisham, garantiu que Grenell "está comprometido com uma abordagem não política e não partidária como chefe da comunidade de informações".

Perseguição aos opositores

Desde que foi absolvido pelo Senado dominado pelos republicanos, Trump tem vindo a limpar o Departamento de Justiça, o Conselho de Segurança Nacional e o Pentágono de funcionários que considera desleais. Entre as baixas estão o tenente-coronel Alex Vindman e o embaixador na UE Gordon Sondland, testemunhas no inquérito do processo de destituição, mas também o irmão gémeo de Vindman, advogado do Conselho de Segurança Nacional sem envolvimento no caso, e o chefe da política do Pentágono, John Rood.

Para reforçar a vendetta, o homem que se recandidata pelo partido republicano readmitiu na Casa Branca John McEntee, um assistente pessoal de Trump que foi demitido pelo ex-chefe de gabinete John Kelly por suspeitas de estar viciado no jogo, um risco de segurança para a presidência. Depois de ter sido escoltado para fora da Casa Branca em 2018, McEntee deve agora ser promovido para liderar o gabinete da equipa presidencial, segundo o Axios.

Funcionários da administração disseram ao Axios que Trump se sente "cercado de cobras" e quer livrar-se de todas as pessoas que considere desleais. Daí que McEntee terá passado a palavra aos responsáveis pelas diferentes agências para que estes identifiquem as "pessoas más" em funções através de nomeação política.

Recordista de interinos

Antes da nomeação do embaixador Grenell, a especialista em administração pública Anne Joseph Connell fez um balanço das nomeações interinas. Estas fazem parte da política norte-americana no início dos mandatos enquanto o processo de aprovação da equipa pelo Senado se desenrola. Com o diplomata há 31 interinos na era Trump, mais do que nos oito anos de Reagan (25), nos quatro de Bush (20), e nos dois mandatos de Clinton (27), W. Bush (22) e Obama (23).

Não são apenas mais como trabalham durante mais tempo. Os dirigentes provisórios contam com 10,2% do tempo total do trabalho desta administração quando na era W. Bush contaram apenas 1,4% do tempo e na era Obama 2,6%.

Para Connell este expediente para contornar o Senado contribui para "a inércia da agência, a confusão entre os trabalhadores não políticos e a diminuição da responsabilidade da agência". Na essência - prossegue - "ainda que detenham o mesmo poder formal dos líderes confirmados, os funcionários interinos são menos capazes de exercê-lo - devido à diminuição da adesão dos trabalhadores abaixo deles, das comissões competentes do Congresso e do público em geral".

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