Incríveis histórias da Supertaça. Um árbitro em fuga, rezas e até uma proposta indecente

FC Porto e Benfica disputam esta quarta-feira (20.45 horas), em Aveiro, o primeiro troféu da época. Será a 12.ª vez que os dois rivais disputam um troféu que tem sido dominado pelos dragões, pois levaram a melhor em dez ocasiões

Quem vai conquistar o primeiro troféu da temporada? A resposta vai ser dada esta quarta-feira, a partir das 20.45 horas (RTP 1), em Aveiro, quando FC Porto e Benfica entrarem em campo para decidir quem vai erguer a Supertaça e, consequentemente, quem vai passar o Natal com um sorriso de orelha a orelha.

Em campo vão estar as duas equipas que mais vezes se defrontaram na disputa deste troféu criado em 1979. Foram onze vezes que FC Porto e Benfica lutaram por este título que opõe o campeão nacional ao vencedor (ou finalista vencido) da Taça de Portugal. E isto num total de 25 jogos, pois tempos houve em que a Supertaça se disputava a duas mãos e que foi preciso recorrer a finalíssimas para apurar o vencedor.

Os dragões têm um amplo domínio, pois dos 21 troféus que conquistou, dez foram precisamente diante dos encarnados, que em apenas oito vezes levaram a taça para casa, sendo que apenas numa delas tendo os portistas como adversário. Um domínio avassalador, traduzido também nos 13 jogos ganhos pelos azuis-e-brancos e apenas cinco vencidos pelas águias.

Curiosamente o primeiro jogo entre estes dois rivais foi favorável ao Benfica, a 1 de dezembro de 1981 no Estádio da Luz, com dois golos de Nené a fazerem a diferença de 2-0 na primeira mão. Só que, na semana seguinte, o FC Porto deu a volta, vencendo por 4-1 com um hat trick de Jacques e outro golo de José Alberto Costa, tendo Jorge Gomes marcado para os lisboetas. Era a primeira Supertaça conquistada pelos dragões, que assim iniciavam um domínio esmagador.

Foi só em 1985-86, após mais duas Supertaças perdidas, que o Benfica conseguiu conquistar este troféu frente ao FC Porto, graças a um golo de Diamantino Miranda na Luz, sendo que nas Antas se registou um empate a zero, graças a uma grande exibição do guarda-redes Manuel Bento.

Quando Futre condenou Neno

O regresso à normalidade deu-se, no entanto, na temporada seguinte. O empate 1-1 no Porto abria excelentes perspetivas para os encarnados. Só que, em Lisboa, dois golos de um Paulo Futre "endiabrado" e dois "superfrangos" de Neno" permitiram aos dragões levarem de novo o troféu para casa à custa do grande rival. O guarda-redes do Benfica estava inconsolável no final da partida, lembrando que no terceiro golo tinha sido "atraiçoado pela bola, que estava muito escorregadia" e por isso fugiu-lhe das mãos.

A verdade é que este jogo decidiu o destino de Neno, que no final da época deixou a Luz para três anos em que esteve emprestado a V. Setúbal e V. Guimarães. Quem mostrou respeito pelo guarda-redes foi Futre que admitiu ter beneficiado de "momentos de infelicidade" do Benfica.

A fuga de José Pratas

Na década de 1990 disputaram-se os clássicos mais dramáticos, polémicos e incríveis da Supertaça. Para apurar o vencedor da edição de 1991-92, foram precisos nove meses... A 18 de dezembro de 1991, o Benfica venceu em casa por 2-1, tendo o FC Porto respondido com um triunfo por 1-0 a 29 de janeiro de 1992. Como os golos fora não contavam para desempatar, foi necessário disputar uma finalíssima que só foi realizada com a temporada seguinte em andamento, a 9 de setembro de 1992, em Coimbra. Uma partida em que aconteceu de tudo...

Eram tempos em que a guerra e a troca de "galhardetes" entre as direções dos dois clubes era uma constante e isso traduzia-se nos jogos. O ambiente estava muito quentinho no relvado até que, aos 72 minutos, foi o descalabro. Isaías abriu o marcador depois de Vítor Baía não ter segurado uma bola num lance com Rui Águas. O árbitro José Pratas validou o golo e, num ápice, os jogadores do FC Porto, liderados pelo capitão João Pinto, correram na direção do juiz de Évora, que fugiu deles a sete pés. Foi uma perseguição que durou umas centenas de metros, que deixou toda gente incrédula.

Esses momentos de alta tensão que foram explicados por Pratas, 18 anos depois numa entrevista. "Não foi uma fuga, foi uma reação natural de quem se sente atacado e ameaçado. Devia ter acabado com o jogo por insubordinação da equipa do FC Porto", disse Pratas, deixando a entender que ficou marcado pelo episódio: "Nem preguei olho! Cada vez que fechava os olhos lá vinham o Couto e o Paulinho Santos direitos a mim..."

O jogo acabou por recomeçar e o FC Porto acabaria por beneficiar de um penálti marcado por João Pinto, que levou a partida para o desempate por penáltis, durante os quais o incrível aconteceu.

É que o Benfica chegou a estar a vencer por 3-0. Estava com uma mão no troféu, mas na linha lateral começou outro espetáculo paralelo. Pinto da Costa, presidente portista, ajoelhado, rezava com uma fé que move montanhas... e não é que o resultado virou mesmo? Os encarnados não voltaram a transformar mais nenhum penálti e o FC Porto ganhou por 4-3.

A viagem que não aconteceu

Em 1992-93, novo reencontro e outra vez a necessidade de se disputarem três jogos com um intervalo de... um ano, sendo que a partida decisiva se disputou na época seguinte. Uma originalidade bem portuguesa. O FC Porto voltou a vencer, nos penáltis, outra vez em Coimbra, numa final em que os adeptos das duas equipas se envolveram em confrontos, obrigando a polícia a intervir.

E como não há duas sem três, a Supertaça de 1993-94 voltou a ser disputada em três partidas. No início da época, dois empates 1-1 e 0-0, obrigaram a nova finalíssima que, desta vez, se realizou no final da época em Paris. A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) levou o jogo para o Parque dos Príncipes, para dar uma prenda aos emigrantes. Só que a empresa que organizou do jogo, em parceria com a FPF, propôs aos dois clubes que viajassem no mesmo avião para que pudessem poupar nas despesas. A resposta das direções dos dois emblemas foi óbvia: um redondo não, afinal, as péssimas relações tornavam essa proposta verdadeiramente indecente.

Curioso é que, para este jogo de final de época, as duas equipas apresentavam-se sem algumas das suas principais estrelas como João Pinto, Drulovic e Yuran por parte do FC Porto; Preud'Homme, Isaías, Vítor Paneira, Mozer, Edilson e João Vieira Pinto do lado do Benfica.

Acabou por ser um bom jogo do qual saiu vencedor o FC Porto, pois claro, graças a um golo de Domingos no início da segunda parte, minutos antes de António Veloso dar por concluída a carreira, após ser substituído pelo jovem Edgar.

Dois anos depois, o FC Porto venceu a Supertaça a mais emblemática de todas aquelas que tem no seu currículo. É que após vencer em casa por 1-0, os dragões foram ao Estádio da Luz golear por 5-0. Uma noite perfeita para a equipa treinada por António Oliveira, que deixava o Benfica ainda mais mergulhado numa crise que havia de se prolongar durante mais alguns anos. Depois disso, os dragões ainda venceriam mais dois troféus perante o rival, o último dos quais em 2010, em Aveiro, o mesmo palco onde vão estar esta quarta-feira para mais uma história que tem sido contada em tons de azul.

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