Bolsonarinho. Tem 6 anos, veste-se de polícia e ama o presidente do Brasil

Pedro Guerra, mais conhecido como Capitão Guerra Mirim, anda de boina, algemas, pistola e cassetete de plástico, tem posters de Bolsonaro pelo quarto e os seus vídeos e fotos são um fenómeno online.

"Laurinha, o que você quer no Natal?", pergunta Jair Bolsonaro durante uma cerimónia pública. "Pai, eu quero conhecer o Capitão Guerra Mirim", responde a filha mais nova do presidente da República. O diálogo, com base numa fotografia verdadeira de pai e filha durante uma cerimónia pública, é fictício, claro. E faz parte das páginas, com milhares de visualizações e comentários, do Capitão Guerra Mirim nas redes sociais.

O Capitão Guerra Mirim é um menino de 6 anos, chamado Pedro Lucas Almeida Guerra, residente em Belo Horizonte, capital do estado brasileiro de Minas Gerais, fanático por Bolsonaro e por fardas da polícia. A paixão nasceu a ouvir a militância cantar "um, dois, três, quatro, cinco, mil, queremos Bolsonaro presidente do Brasil" durante a campanha eleitoral de 2018, diz o pai, Rafael, coordenador de movimentos de rua a favor do então candidato, ao DN.

"Após ver que todas as polícias estavam apoiando o Bolsonaro, por vontade própria ele pediu-me uma farda do Exército, eu dei, depois ele pediu uma farda da polícia militar de Minas Gerais [PMMG], eu dei, e aí começou a paixão pela PMMG e pelo presidente, ao ponto de ele hoje ter todas as fardas da corporação", continua Rafael.

Pedro usa ainda boina, botas, walkie talkie, algemas, pistola e cassetete de plástico. Vestido a rigor, tornou-se uma atração em eventos da polícia militar ou de apoio a Bolsonaro. E assim nasceram, sob o comando do pai, as páginas nas redes sociais e o nome Capitão Guerra - mais tarde, por determinação da PMMG para evitar confusões com agentes de verdade, com o "mirim", adjetivo brasileiro sinónimo de "infantil", acrescentado.

Tudo começou numa ida a Brasília

Um dia, o Capitão Guerra Mirim pediu para acompanhar o pai numa deslocação a Brasília por saber que é lá que mora Bolsonaro. O pai vestiu-o a rigor, com boina, algemas e cassetete, e encontrou-se com o amigo pessoal Léo Índio, sobrinho do presidente e integrante do "ministério do ódio", como ficou conhecido na imprensa o escritório a poucos passos do gabinete presidencial onde se criam dossiês contra inimigos internos e externos.

Índio colocou Rafael e o Capitão Guerra Mirim no Palácio do Planalto e, minutos depois, sem nada agendado, cruzaram-se com Bolsonaro - o próprio. Do encontro, resultaram oito fotos e o arranque a sério do tal perfil do "Bolsonarinho" nas redes sociais.

"Em sete dias teve 40 mil acessos no Instagram", diz Rafael, que enviou ao DN dezenas de fotos do perfil do minicapitão ao lado de deputados, senadores ou governadores, e respetivo número de visualizações, sempre na ordem dos milhares.

"Não tivemos tempo de conversar com o presidente, pois não foi um encontro agendado, ele apenas o viu, abriu uma exceção na agenda dele, desde então, já o levei mais duas vezes a Brasília, pois ele ficou apaixonado pelo presidente."

Num dos vídeos do perfil, aliás, o Capitão Guerra Mirim faz uma panorâmica do quarto para mostrar os posters de Bolsonaro colados na parede.

Noutro vídeo, diz "se o bandido não obedecer ao que eu estou falando, eu sou obrigado a dar um tiro no meio da cabeça dele", enquanto exemplifica como se faz uma abordagem policial e detalha o que pode ser considerado ou não legítima defesa.

Num outro, está parado na sua moto em frente ao Supremo Tribunal Federal e de repente avança. A legenda é "vou ali buscar um soldado e um cabo e já volto", numa alusão a uma frase do ano passado de Eduardo Bolsonaro, o filho deputado do presidente, que disse que para fechar a corte só precisava de um soldado, de um cabo e de um jipe.

"Críticas? Uma minoria de esquerda começou a atacá-lo no Instagram e a comentar nas fotos em tom negativo", diz Rafael. "Mas os comentários de incentivo são aos milhares", prossegue o pai do "Bolsonarinho", ele mesmo um polícia frustrado, de acordo com uma reportagem da revista brasileira Piauí. "Sempre foi o meu sonho, mas não fiz concurso por preguiça de estudar", diz nessa reportagem. Chegou a trabalhar, entretanto, como agente penitenciário, em seis prisões, e hoje é um empresário com interesses diversificados.

João Victor, ano e meio, o Sargento Guerra Mirim

Além do "Bolsonarinho", Rafael tem mais quatro filhos - "as adolescentes são politicamente isentas mas o mais novo está a puxar o irmão".

De facto, João Victor, de um ano e meio, que o pai chama de Sargento Guerra Mirim, já tem vídeos com o irmão Capitão Guerra Mirim, ambos de motociclos, perfeitamente fardados. Noutros vídeos, surge no papel de eventual prevaricador, sendo parado no seu triciclo e revistado pelo irmão encostado a uma parede.

Logo que tenha idade para tanto, o Capitão Guerra Mirim vai entrar num colégio militar - o seu ídolo, Bolsonaro, prometeu um em cada capital estadual do Brasil.

E a mãe de Pedro aprova a personagem que o filho encarna? "Ela era petista [simpatizante do Partido dos Trabalhadores, de Lula da Silva]", conta Rafael. "Mas hoje apoia-me porque sabe que para se ser um polícia é necessário estudo e disciplina e o Pedro é muito estudioso, será alguém na vida."

Até lá, Pedro já conseguiu o patrocínio de uma loja especializada em fardas infantis, a MDT Kids, que ofereceu ao menino uma cópia de um colete à prova de balas, uniformes dos bombeiros e do Batalhão de Operações Policiais Especiais, a corporação cuja atuação é mostrada nos filmes sucessos de bilheteira Tropa de Elite, os prediletos de Pedro.

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