As palavras de Trump são a Personalidade do Ano

Há 104 anos (e exatos 104, porque há cem anos já não era assim), muitos intelectuais europeus deixaram-se galvanizar pela beleza da guerra. Façamos as contas: "há 104 anos" foi em 1914, o começo da Grande Guerra; "há cem anos" foi em 1918, o fim da guerra... Em quatro anos, o morticínio, o horror da espera dos morteiros nas trincheiras geladas, de lama e com ratos, encarregou-se de dar juízo a brilhantes cabeças.

O francês Henri Bergson, que seria prémio Nobel de Literatura em 1927, escreveu antes da guerra: "A luta contra a Alemanha é a luta da civilização contra a barbárie." Na pré-guerra, o alemão Thomas Mann, Nobel em 1929, seria propagandista "da missão da Alemanha e da sua cultura contra a civilização ocidental".

Uns deram o corpo ao manifesto na sua cegueira. O poeta francês Charles Péguy escreveu: "Felizes os que morreram pela sua terra carnal/ Logo o que o façam pelo lado certo" - e foi morto, logo no começo da guerra, na Batalha do Marne, em setembro de 1914.

Outros fizeram do seu destino uma ironia tremenda. O poeta alemão Ernst Lissauer publicou Um Canto de Ódio contra a Inglaterra, que era recitado nas escolas e decorado pelos soldados alemães. Era judeu. Quinze anos depois da guerra, os seus queimaram-lhe os livros e exilaram-no. A frase que ficou dele é: "Possa Deus punir a Inglaterra." Felizmente para muitos judeus que chegaram à II Guerra Mundial, Deus só puniu parcialmente os ingleses na I Primeira Guerra Mundial.

A guerra como mística, a morte cantada com brio - a Cavalgada das Valquírias transmitida por altifalantes de helicópteros de combate quase consegue esconder-nos a camponesa vietnamita torrada por napalm... A questão posta assim redime-a, à questão e a nós. Afinal, Stefan Zweig começou e passou parte da Grande Guerra defendendo o seu lado e chegou à guerra seguinte angustiado por mais outra - suicidou-se.


Aos grandes acontece-lhes aprender. E os grandes também nos ajudam, aos comuns, a aprender, apesar de ter sido também por culpa deles que ficámos erradamente convencidos. As grandes questões - as guerras, a morte, a violência... - é bom que nunca nos sejam inculcadas por medíocres. Estes, com os erros, só aprendem a errar mais e só isso nos deixam, o erro ensinado.

No Museu de Arte Antiga, há uma pintura de Gregório Lopes, antiga de quase meio milénio, O Martírio de São Sebastião. O santo era um soldado romano que tratava bem os cristãos. Por causa disso, foi tratado como o quadro descreve: de tanga, preso a uma coluna, ele foi flechado por duas vezes: uma arma atravessou-lhe o peito, outra a axila; já dois executores, um arqueiro e um besteiro, apontam de novo, e mais outros se aprestam...

A cena é bela e ensinadora. O mártir aceita o sacrifício e, mais ao fundo, dois corpos ardem num auto-de-fé... São Sebastião foi morto nos primeiros séculos da cristandade e Lisboa, quando Gregório Lopes pintou o quadro, acabara de viver os massacres dos judeus, em 1506. Que lição. Mas a esta pintura o medíocre haveria de querer ver a ponta da flecha e salivar com o rasgão que fizera nos tecidos humanos. Ah, a eficácia no perfurar um corpo! Ah, a beleza da ponta fina ou romba!

Ontem, o medíocre Donald Trump postou no Twitter uma proposta do muro que ele quer construir na fronteira. E salivou em palavras: "Um desenho da nossa Cerca de Barras de Aço que é inteiramente eficaz [e] ao mesmo tempo bonita." Um muro de fronteira é um muro de fronteira, tem de ser o que é (se tiver de ser): um muro de fronteira. Não é essa a questão, aqui. O que me interessa é o salivar.

Há 104 anos, a "nossa" civilização contra a barbárie "deles" esbarrou na lama da Flandres. Há cem anos, os civilizados, de ambos os lados, já se tinham redimido - sabiam que a barbárie era a guerra e não lhe acharam beleza nenhuma. Os Trumps de então, porém, salivariam passando ligeiramente o dedo pelo fio das baionetas e iam a cabarés onde um pífaro simulava o silvo do morteiro e um tambor, o rebentar. Já antes do começo da guerra isso os excitava e, no fim dela, também: é que os Trumps de então, como os de agora, tiveram um pai que os safara da guerra (no fim da Guerra do Vietname, de que se livrou, Trump tinha 29 anos) com certificados médicos falsos.

As palavras de Trump têm sido a Personalidade do Ano. Ai do ano em que for o Facto de Trump.

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