Romarias viradas do avesso, mas Berta só precisa dos filhos para ser feliz

Em Portugal, a pandemia fez suspender "peregrinações, procissões, festas e romarias". O querido mês de agosto foi adiado, mas em Vilas Boas há quem insista em cumprir a tradição. Tem o maior santuário mariano da região e junta 30 mil pessoas quando lá vivem 450 durante todo o ano.

Berta Franqueiro, 85 anos, nem se lembra com que idade começou a ir à romaria da Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas, no concelho de Vila Flor, a 15 de agosto. "Vínhamos a pé, primeiro com os meus pais e depois com os meus filhos. Era o nosso passeio. Era uma festa muito linda." A pandemia tudo suspendeu, mas a família não deixou de fazer o convívio no santuário, que obrigatoriamente começa com um almoço. "Encontro isto muito triste", lamenta Berta, para logo acrescentar: "Mas tenho aqui cinco dos meus oito filhos, as mulheres, os netos. Éramos pobrezinhos, sabe Deus como os criei, agora estão todos bem e são muito amigos da mãe." Sorri, os olhos brilham, e assim se mantêm até ao fim da missa campal, perto das 19.00.

Berta vive onde nasceu, em Milhais, na freguesia de Abreiro, no concelho de Mirandela. Teve 12 filhos, sobreviveram oito, que hoje têm entre 64 anos, o António Filipe, e 42, o Arménio, todos de apelido Vassalo, o do pai que morreu há dois anos. Vinte e dois anos a ter filhos, com 15 dias de regimento (período de recuperação após cada nascimento e a comer canja - todos os dias é morta uma galinha), para voltar à vida do campo e a engravidar. É o que conta Berta, orgulhosa da família que construiu, com a sorte de quatro filhos residirem na aldeia. Dois vivem em Sintra, um na Covilhã e outro em Espanha.

É a família Vassalo, que faz questão de manter um ritual anual, apesar das limitações deste ano devidas à pandemia. "Não há festa, mas é uma tradição da família há muitos anos. Quisemos manter o convívio e há, também, o pessoal das promessas", explica José, 52 anos, eletromecânico, que mora em Sintra. Estão, também, no piquenique o Humberto, 48 anos, e o Fernando, 54. Faltam três, entre eles a única rapariga, "têm medo do vírus".

Maior santuário mariano da região

O dia de Nossa Senhora da Assunção é feriado nacional. Em Vilas Boas, o povo chama-lhe Nossa Senhora do Cabeço, por tudo ter começado no Cabeço, o alto da serra, numa ermida que data de 1677, explica o padre Delfim, que preside à comissão de festas. É, depois, construída uma capela em 1712, mais tarde a do Calvário (1843), a que se seguiu a Capela da Nossa Senhora da Assunção, em 1886. Muitas melhorias têm vindo a ser feitas desde então, acessos, praças, mesas, até a cripta, a igreja nova, cuja obra foi concluída em 2006 e custou 500 mil euros. Constituem o Santuário de Nossa Senhora, o maior santuário mariano de Trás-os-Montes, que traz milhares de forasteiros ao Cabeço. Às cerimónias religiosas juntam-se as barraquinhas, a música e o fogo-de-artifício.

"Entre as 19.00 do dia 14 e as 20.00 do dia 15 de agosto, passam pelo santuário milhares de pessoas, vem gente de todo o lado de Portugal e, claro, muitos emigrantes. Chegam a juntar-se 30 mil pessoas na missa campal. O impacto da pandemia na festa é muito grande. Ainda assim, muitas pessoas têm passado por aqui desde a noite de sexta-feira. Neste sábado [15], estiveram mais de 500 ciclistas, mas há uma diminuição de pelo menos 70 %", diz Abílio Evaristo, secretário da comissão de festas desde 20 de janeiro de 1996. No final do dia, estima que terão passado pelo santuário quatro a cinco mil pessoas.

Trinta vezes mais pessoas na freguesia

A freguesia de Vilas Boas tem cerca de 450 habitantes (550 nos Censos de 2011), mais uns 300 no verão com a vinda dos emigrantes, mais alguns que têm família na aldeia e estão espalhados pelo país, contabiliza o seu presidente, António Abel. Casas que se erguem no sopé da serra, muitas delas feitas de pedra, por entre subidas e descidas. Menos de mil habitantes no total mas que, no dia da romaria, se multiplicam por 30. Um "fenómeno" que o autarca não consegue explicar. Em 2020, tudo está a ser diferente em todo o país, o que faz que o "querido mês de agosto" tenha ficado em suspenso e não apenas em Trás-os-Montes.

"Vieram 30% a 40% dos emigrantes e são os que vivem em França e que costumam viajar de carro. Vem a família e estão isolados desde que saem de casa até chegar aqui. O forte da nossa emigração é para França e Suíça, há alguns no Luxemburgo, destes últimos dois países não veio ninguém", assegura António Abel. Com a reorganização das freguesias, juntou-se-lhe Vilarinho das Azenhas, Meireles e Ribeirinha, ficando a União de Freguesias de Vilas Boas e Vilarinho das Azenhas, com sede em Vilas Boas.

Cátia Eira Velha, 41 anos, já nasceu em França, tal como o irmão Gabriel, 19, e a filha Cecília, de 9. Mora em Paris, onde é porteira, como a mãe, Isabel Fernandes, de 59, que habita em Vileneuve-la-Garenne. O marido, José Eira Velha, de 73 , está reformado. Fizeram a viagem em dois carros, os pais em primeiro, depois a filha e a neta. "Saí às 06.30' e cheguei às 20.00", conta Cátia. Têm casa em Mirandela e a romaria da Nossa Senhora da Assunção é programa obrigatório das férias. "Gosto muito desta festinha, até pensei que não houvesse nada, mas viemos porque sou muito devota desta santa", diz Isabel, que só se despediu depois do andor entrar na capela Nossa Senhora da Assunção.

Umas férias diferentes, com as ruas muito mais vazias do que em anos anteriores. O que fazer? "Vamos à barragem, damos umas voltinhas, é sempre bom vir a Portugal", explica Cátia, que esperava ver menos emigrantes. Quanto à forma como a população portuguesa e a francesa estão a reagir à pandemia, salienta: "Em Portugal, vejo toda a gente preocupada, a usar máscara, a ter cuidados. Em França, há os dois extremos, os que não ligam nada e os que ligam muito."

Cristóvão Araújo, 35 anos, que há cinco explora Santo António, o café-restaurante de Vilas Boas, confirma a diminuição dos habitantes neste verão. Calcula que terão vindo 50% dos emigrantes, mas a maior redução verificou-se nos dias 14 e 15 de agosto. "Não tem nada a ver a nível da faturação. Muitas pessoas passam pelo café naqueles dois dias e os feirantes começam a vir antes. Só durante as duas horas da procissão vendia centenas de garrafas de água e um barril de cerveja."

É domingo, o dia a seguir à festa, e a esplanada está composta. Bruno Alves, 41 anos, nasceu em França, tal como outros dois dos cinco irmãos que constituem a família. "Viemos no Natal e em agosto, é a nossa terra, temos cá os avós e outros familiares", justifica. Neste ano acabou por não ir ao santuário. "Não houve procissão, nem sabia que faziam alguma coisa", diz Bruno. Viajou de França com um tio. Os pais e os irmãos ficaram.

A arrumar a bagageira do carro está André Gonçalves, 41 anos, cuja sogra é de Vilas Boas. Ele, a mulher e a filha regressam ao Porto, onde residem. "Além da tradição, é uma altura em que todos voltam à terra e é quando nos podemos encontrar. Este ano foi um pouco triste, mas manteve-se o essencial, a parte religiosa, o mais importante para as pessoas", diz. Passou um fim de semana alargado e ainda tem mais férias para gozar.

A covid-19 alterou a vida de toda a gente e em todo o mundo. Com o estado de emergência decretado em Portugal, a Conferência Episcopal decidiu a 8 de maio suspender "peregrinações, procissões, festas, romarias e concentrações religiosas em geral, até novas orientações". Mas a Direção-Geral da Saúde, na norma 029/2020, de 29 maio, mantém as restrições. "Limitar ou adiar celebrações, atividades, encontros, reuniões, catequeses e outros eventos de culto que impliquem a aglomeração de pessoas quando não for possível cumprir as orientações de mitigação da transmissão de SARS-CoV-2."

DGS e GNR proibiram procissão

As festividades da Nossa Senhora da Assunção em Vilas Boas foram negociadas com os representantes locais e distritais da DGS e da GNR, também com o bispo de Bragança. Estabeleceu-se um protocolo que proibia feirantes, música, fanfarras e grupos musicais. Ficou uma pequena parte das cerimónias religiosas, mas foi o consenso possível, já que as autoridades defendiam a suspensão total do evento, segundo os responsáveis pelas comemorações. De nada valeu argumentarem com o Dia do Emigrante, em Fátima, e a Festa do Avante!, no Seixal.

"A Nossa Senhora da Assunção chegou a ser transportada numa charrete nos anos 40 e 50 do século passado. Foi oferecida por José Albino Gouveia, um abastado proprietário de Vilas Boas, que a puxava até ao santuário num jipe. Quando percebemos que dificilmente íamos fazer a procissão habitual, desde o centro de Vilas Boas até ao santuário com as pessoas a acompanhar, pensámos em recriar esses tempos. Propusemos fazer esses dois quilómetros de charrete, um percurso minimalista, que é o ponto alto das festividades, Não aceitaram", conta Abílio Evaristo.

A charrete deixou de ser utilizada em 1948 e a parte positiva é que foi recuperada neste ano. A santa passou a ser transportada por homens, 60 quando as crianças se sentavam no andor, posteriormente passaram a ser 40 a 45, entre eles Francisco Rocha, 65 anos, e o filho Bruno Rocha, 38. "Levo o andor desde os 25 anos. Somos um grupo de amigos que se junta para esse efeito", conta Francisco. Acompanha neste ano o andor apenas como observador, com tristeza perante tão grande redução, que, segundo assegura, será de 90% do movimento em relação a outros anos.

A santa foi vestida pelas 17.00 na igreja nova por "uma pessoa impoluta, acima de qualquer suspeita" e longe de qualquer olhar, como dita a tradição. Vestimentas oferecidas pelos devotos, acumulando mais de 30 matos e 20 vestidos ao longo destes anos, além de coroas, de ouro e de prata, fios e brincos, tudo guardado "religiosamente", explicam Abílio Evaristo, que é professor de História. Há registos de ofertas de 1845.

Foi colocada no andor e posta em cima da charrete, puxada por um trator conduzido por Abílio, com meia dúzia de homens a ajudar e o padre a presidir. Percorreu o caminho até à Praça Pio XI, deu uma volta, seguindo-se a missa campal, com o gel desinfetante a fazer parte de todo cerimonial, bem como o pedido constante para se manter o distanciamento. Após a eucaristia, o andor foi levado por homens até à Capela da Nossa Senhora da Assunção, que tiveram de subir muitos dos 200 degraus, até ao cimo do cabeço. As celebrações do dia incluíram, ainda, duas missas de manhã e a oração do terço à tarde.

A comissão de festas, presidida pelo padre Delfim, fez questão de manter a Capela de Nossa Senhora da Conceição aberta entre as 19.00 do dia 14 e as 20.00 do dia 15, por onde Abílio Evaristo estima terem passado duas mil pessoas durante a noite.

O padre Delfim é há 27 anos o pároco da Unidade Pastoral da Nossa Senhora da Assunção, tendo a seu cargo 11 paróquias. "Mesmo em situação de pandemia, com todas as limitações, as pessoas vêm, temos de saber ver e interpretar estes sinais e ser uma resposta de fé para esta gente", observa.

Compreende os protestos de quem queria celebrações maiores, até porque a santa deixou o santuário a 1 de agosto para a Igreja Matriz de Vilas Boas, como é de tradição, regressando em segredo na noite do dia 11. Foram as regras a que tiveram de obedecer e não quiseram correr riscos, justifica. "Insistimos em três reuniões com a GNR e duas com as autoridades de saúde, demos todas as explicações que nos foram pedidas, elaborámos um plano de contingência para se fazer a procissão com distanciamento. Não deixaram fazer a procissão, compreendemos a decisão embora a nossa opinião fosse outra. Não fizemos divulgação das celebrações e as pessoas acorreram. A primeira coisa que os emigrantes fazem quando chegam é vir ao santuário fazer a sua oração. É importante saber interpretar estes sinais."

Muitas dessas pessoas também vieram a pé, em percursos antigos que se recuperam, estando a ser preparada uma candidatura para a sua sinalética.

Nélia Dionísio, 47 anos, empregada de escritório, mora em Vilas Boas e fez questão de percorrer a pé os dois quilómetros que separam a freguesia do santuário, como nos outros anos. "Vim a rezar o terço, em primeiro lugar por quem está doente e, depois, por todos", conta. Acrescenta: "Estive aqui na quinta e na sexta-feira, tem vindo muita gente. Com o pouco que fizemos, não estava a contar com tantas pessoas." O marido pertence à comissão desde 2003, ela também dá uma ajuda.

Um corrupio toda a noite e todo o dia

Há muita gente, mas pessoas que vão e vêm, tanto é que permaneceram desocupadas grande parte das mesas de pedra instaladas na base do santuário. Não foi preciso madrugar para garantir lugar, como a família Vassalo costuma fazer. Pão e o vinho na mesa, acompanhando presunto, entrecosto, frango, azeitonas e muitas outras iguarias, terminando com o melão. E por ali permaneceram até ao fim das celebrações.

E há tradições que o António Filipe e a mulher, Rosa Maria, 61 anos, espanhola de Orense, onde o casal vive, mantém, como vir a pé de Milhais até ao Cabeço. São 17 quilómetros a corta-mato, saíram da aldeia às 23.00 de sexta-feira para chegar ao destino às 04.00 de sábado. Esperava-os o José para os trazer de volta a casa, regressando, depois, ao fim da manhã ao santuário. "Fazemos isto há seis anos, no ano passado dormimos nos montes até de madrugada, como outras pessoas, neste ano não havia ninguém. Tenho prazer em o fazer e venho a rezar e a pedir a Deus por todos", conta Maria da Rosa. E logo diz o cunhado Fernando: "A minha mãe vinha sempre a pé e subia as escadas de joelhos, desde lá do fundo de Vilas Boas." "Mais de 300 degraus, se contarmos os que cortam o caminho por entre os eucaliptos desde a Praça Pio XI, no santuário, até ao centro de Vilas Boas. Fernando é agricultor e garante que a região é dona do melhor vinho e azeite.

Anos em que as estradas ficam praticamente intransitáveis. Montam as tendas 180 feirantes, com comes e bebes, onde o frango é rei, brinquedos, loiças e muito mais. No ano passado, a comissão de festas teve uma receita superior a 75 mil euros, sendo 12 mil dos dois bares que exploram, para uma despesa de 55 mil euros. Neste ano, gastaram cinco mil euros, a única receita é a do ofertório, ainda por contabilizar.

"O impacto a nível do negócio para os feirantes é incalculável", sublinha Abílio. "Estamos a falar de uma grande logística, mais de 500 pessoas, estaremos sempre a falar de mais de um milhão de euros, entre as receitas do santuário e todo o dinheiro à volta das barracas. No concelho de Vila Flor, é o evento que mais receitas gere. Uns senhores que vendem aqui há mais de 50 anos dizem que do Porto para cima não há festa onde se venda tanto."

A família Cancelinha trouxe a comida de casa, de produção própria, como o presunto, peixinhos do rio, o queijo e o folar. "Costumamos vir todos os anos, neste ano, como não há festa, trouxe o farnel, conta Elisabete, 44 anos. "Há quantos anos vimos?", repete para responder: "O meu pai faleceu há 17 anos e vínhamos muito antes. Era catraia." Está com o companheiro, Vítor, o sobrinho Luís, de 9 anos, a cunhada, Susana, de 37, o irmão, Nuno, de 41, e a mãe, Adelaide, de 66. Tem mais dois irmãos. São de Virandelo, no concelho de Valpaços, a 74 quilómetros do santuário. "Chegámos às 09.00 e pensávamos que já não apanhávamos mesa, mas há mesas com fartura, no ano passado, comemos no pinhal. Tem de se vir às 05.00", recorda a Elisabete.

O dia acabou cedo, depois de comerem, pouco encontram para fazer. Diz a mãe Adelaide: "Não tem nada a ver com antigamente. Às duas da manhã ainda aqui estávamos, ainda havia festa e música no arraial."

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