Todas as perguntas que são feitas para se nomear um bispo católico

Um processo que deve ser secreto usa um questionário muito criticado. Cada vez mais vozes defendem que a escolha de bispos católicos deve ser fruto da participação dos crentes e não de escolhas que podem acentuar o carreirismo e o nepotismo.

Os candidatos a bispos dentro da Igreja Católica são sujeitos a um processo confidencial e secreto, que nas últimas décadas tem sido posto em causa e que inclui, na sua fase principal, um questionário em treze pontos e com dezenas de perguntas. Entre o que se questiona acerca dos candidatos estão perguntas sobre se usa hábito eclesiástico, se é fiel ao magistério católico, se tem capacidade intelectual, se se opõe ao celibato obrigatório e à ordenação de mulheres, se segue a doutrina sobre matrimónio, ética sexual e justiça social, ou se é estimado publicamente "pelos sacerdotes, povo e autoridades". Não se pergunta, no entanto, nada sobre o evangelho - a palavra está ausente do documento.

Este inquérito de duas páginas é normalmente enviado pela nunciatura apostólica (embaixada) do Vaticano em cada país e foi revelado agora na íntegra pelo jornal digital 7Margens.

Quando alguém está na lista de candidatos a bispo de uma diocese, a nunciatura envia o inquérito a várias pessoas (quase todos padres e bispos, por vezes alguns leigos) pedindo segredo. Este secretismo tem sido, no entanto, cada vez mais mal guardado, pois os nomes postos a correr são com frequência conhecidos antes da nomeação.

O questionário começa por pedir referências ao "aspecto físico, saúde, resistência ao trabalho" e "condições da família, sobretudo no referente a eventuais manifestações de doenças hereditárias".

Pelo meio, solicita-se informação sobre a "conduta moral, comportamento com as pessoas" ou "relação com as Autoridades do Estado (respeito e autonomia)", mas também sobre se o candidato a bispo vive e testemunha as "virtudes humanas, cristãs e sacerdotais", tais como "prudência, justiça, rectidão, lealdade, sobriedade, fé, esperança, caridade, obediência, humildade, piedade, celebração quotidiana da Eucaristia e Liturgia das Horas, devoção mariana".

No capítulo doutrinal, o questionário é abundante: interroga-se sobre a "adesão convicta e leal à doutrina e ao magistério da Igreja", a "fidelidade e docilidade ao Santo Padre, à Santa Sé, à Hierarquia", a "estima e acolhimento do celibato sacerdotal" como é regulado pela Igreja ou a observância das normas de culto e do hábito eclesiástico.

Três pessoas ouvidas para comentar o texto - uma, que já respondeu ao questionário; outra, que apenas o viu; e a terceira, que não o conhecia - sublinham que o documento coloca demasiado enfoque nas questões disciplinares e pouco em questões que tenham a ver com a escuta de pessoas e da realidade, ou com a atenção a temas que o Papa Francisco tem proposto como importantes: economia, exploração dos mais fracos, opção preferencial pelos mais pobres ou proteção do ambiente deveriam constar também, argumenta um dos comentadores, que, em qualquer caso, prefere um processo mais aberto e transparente.

Mesmo quando se fala, no ponto 8, da "promoção e defesa dos direitos humanos, mundo do trabalho, da cultura, da informação); promoção e acção social, com particular aos pobres e mais desfavorecidos", isso é perguntado numa lógica de que "os leigos, "os pobres e os desfavorecidos" são apenas destinatários de evangelização, de formação, dos sacramentos, de acção social" e não considerados como protagonistas dentro da Igreja, observa outro dos comentadores - todos pedem o anonimato.

"Não se valoriza o papel do bispo na promoção do protagonismo dos leigos e das leigas em processos participados de tomada de decisão, de evangelização, etc., com vista à transparência nas opções tomadas, nos processos e nas finanças, e tão-pouco se valoriza a capacidade de trabalhar em equipa", diz um dos observadores contactados.

O questionário usado introduziu, nos últimos anos, duas perguntas sobre a questão dos abusos sexuais: "Caso o candidato tenha tratado acusações de abuso sexual de menores por parte de algum sacerdote, agiu sempre de modo adequado e justo em relação a todas as pessoas e os grupos envolvidos? Surgiram críticas razoáveis (especialmente se foram públicas) sobre a inadequada actuação do candidato nos casos de acusações de abusos sexuais de menores?"

Um questionário sigiloso e um processo secreto para nomear bispos são, entretanto, cada vez mais postos em causa, não só por teólogos como por comunidades cristãs, padres e mesmo por muitos bispos, que têm defendido mais participação dos crentes no processo de escolha, à semelhança do que acontecia nos primeiros séculos do cristianismo. Em agosto, um grupo de 83 padres e bispos do Brasil escreveu mesmo ao Papa a pedir mudanças na "forma de escolher os bispos", pois a nunciatura não "consulta as igrejas locais". Francisco prometeu falar com os responsáveis da Cúria Romana e com o núncio sobre o assunto.

Desde há muito, o bispo espanhol Pedro Casaldáliga, que trabalhou no Brasil desde os anos 1960 e morreu no mês passado, dizia ser "contra um sistema de nomeações episcopais que é secreto e autoritário, que não respeita o caminho e a opinião das igrejas locais" e que não é "evangélico".

José Eduardo Borges de Pinho, professor de Teologia na Universidade Católica, defendeu em 1987, no Congresso Nacional de Leigos católicos, que se deveria "voltar a sonhar uma Igreja [...] em que os cristãos tenham uma palavra importante a dizer quanto às escolhas dos seus padres e dos seus bispos, eventualmente através de uma expressão de opinião em voto secreto".

Hoje, mantém a opinião: "Não tenho nenhuma dúvida, pelas novas circunstâncias e pelos tempos que vivemos, de que devemos repensar o processo de escolha", diz. Criticando o atual sistema como favorecendo "um certo carreirismo eclesiástico" e por poder ficar marcado "por um claro nepotismo", afirma que o processo não tem de ser como na política, mas deve permitir a participação. Como está, não corresponde "ao que deve ser", afirma.

António Marujo é jornalista do setemargens.com

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